OpenAI resolve enigma com 80 anos, mas matemáticos criticam processo

0
1

Para a grande maioria de nós, a matemática avançada é difícil de compreender. No entanto, está presente no nosso quotidiano. É a matemática que garante a encriptação do cartão multibanco, que orienta o GPS do telemóvel e que sustenta os avanços na medicina. Por isso, quando as grandes empresas de inteligência artificial decidem transformar os números no seu novo recreio, o impacto estende-se muito além dos laboratórios.

De acordo com uma notícia avançada pelo jornal norte-americano The New York Times, a OpenAI — a empresa responsável pelo ChatGPT — conseguiu recentemente apresentar uma alternativa para resolver um problema matemático com 80 anos. O enigma pertencia a uma extensa lista de desafios propostos pelo brilhante matemático húngaro Paul Erdős na área da geometria combinatória. Em termos simples, tratava-se de um problema sobre a forma como pontos e linhas se organizam no espaço. O trabalho da máquina foi tão excepcional que impressionou os humanos. “Trata-se de um trabalho verdadeiramente impressionante e eu aceitá-lo-ia para qualquer revista científica sem hesitação”, admitiu ao jornal Jacob Tsimerman, especialista da Universidade de Toronto.

Perante este avanço tecnológico, seria fácil abrir as garrafas de champanhe. Contudo, no seio da comunidade científica, a festa deu rapidamente lugar à apreensão. Um grupo de 16 investigadores de topo, em conjunto com várias organizações mundiais, redigiu a “Declaração de Leiden sobre Inteligência Artificial e Matemática”. Ursula Martin, investigadora da Universidade de Oxford e uma das autoras, explicou que o manifesto visa servir de provocação para “enquadrar a conversa sobre as direcções futuras” da disciplina.

O grande receio dos subscritores do documento prende-se com o secretismo e com a comercialização do conhecimento. A ciência avançou durante séculos com base numa partilha aberta e colaborativa, uma verdadeira “economia de dádiva”, na visão de Michael Harris, professor na Universidade de Columbia. Esse idealismo choca agora de frente com a lógica puramente transaccional de multinacionais como a Google (DeepMind), a Anthropic ou a OpenAI.

Rodrigo Ochigame, investigador na Universidade de Leiden e também redactor do manifesto, descreveu o padrão irritante destas tecnológicas. “A história segue o mesmo padrão de muitos outros anúncios feitos por programadores comerciais de IA”, criticou. E lamentou ainda a profunda opacidade da investigação: “A empresa não divulgou nada sobre os métodos, os comandos escritos por humanos, os dados de treino ou os recursos computacionais consumidos.”

Pior ainda: os peritos sublinham que estas corporações estão a usar gratuitamente o trabalho publicado por matemáticos ao longo de décadas sem pedirem autorização. E não o fazem por amor à álgebra. A matemática funciona apenas como um “ginásio” de alta intensidade para melhorar o raciocínio das máquinas, que são depois comercializadas para outras indústrias, incluindo aplicações militares.

Uma avalanche de falsas certezas

A este cenário junta-se, segundo os matemáticos, a falta de fiabilidade. A inteligência artificial tem um talento inato para inventar resultados com uma convicção inabalável. Os editores das revistas científicas queixam-se de estar a ser soterrados por uma avalanche de artigos gerados por IA que parecem perfeitamente credíveis à primeira vista, mas que escondem falhas lógicas profundas. E, descobrir o erro invisível da máquina, pode ser uma tarefa esgotante para o cérebro humano. Se esta dissimulação for aplicada a sistemas críticos do nosso dia-a-dia, como a gestão do tráfego ou o software de suporte médico, as consequências podem ser imprevisíveis.

Melanie Matchett Wood, matemática de Harvard, sublinha que a inteligência artificial “é uma ferramenta poderosa, e penso que será uma grande ferramenta para acelerar a investigação matemática”. Ainda assim, a académica avisa que a comunidade tem de descobrir uma forma de a usar “que mantenha a compreensão humana da matemática”. Se nos limitarmos a perguntar a uma máquina e aceitarmos a sua resposta cega, sem percebermos o caminho, perdemos a nossa independência intelectual.

No fundo, avaliar a matemática como um mero exame escolar com soluções exactas é ignorar o seu verdadeiro propósito. Como lembra Ursula Martin, o estudo dos números é também “o cultivo de ideias, compreensão, discernimento e intuição humana”.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com