O advogado Gonçalo Trindade Ferreira, arguido na Operação Marquês, contou esta terça-feira em tribunal que chegou a entregar um envelope com dez mil euros ao motorista de José Sócrates e também que chegou a guardar 200 mil euros do empresário Carlos Santos Silva num cofre que tinha alugado num banco. Mas negou qualquer prática dos crimes de branqueamento de capitais falsificação de documento de que está acusado: “Não fiz nada.”
Jurista avençado das firmas de Carlos Santos Silva, o empresário a quem o Ministério Público imputa o papel de testa de ferro do antigo primeiro-ministro, Gonçalo Trindade Ferreira aparece envolvido em várias transacções investigadas na Operação Marquês: intermediou a venda de três imóveis pela mãe de José Sócrates ao seu patrão, envolveu-se quer na remodelação da casa de Paris, cujo verdadeiro dono a acusação garante ter sido o ex-governante, quer no aluguer de dois apartamentos na capital francesa para alojar a família do antigo líder socialista. Também chegou a entregar o envelope com dez mil euros a João Perna, a mando de Carlos Santos Silva, e a guardar 200 mil euros do patrão num cofre bancário que alugou. Para quê? – perguntou-lhe várias vezes a juíza que dirige o julgamento da Operação Marquês, questionando a aparente inutilidade do seu papel.
De todas as vezes, a explicação foi semelhante: Carlos Santos Silva um homem muito ocupado, delegava tarefas. Os 200 mil euros, por exemplo, que não foram depositados no cofre de uma só vez, eram um fundo de reserva “para o caso de haver alguma necessidade” nas suas empresas, uma vez que viajava muito, tinha negócios em vários pontos do globo – Brasil, Argélia, Venezuela – e era preciso fazer pagamentos por vezes vultuosos.
Foi de uma conta aberta por Gonçalo Trindade Ferreira em França para o efeito que saíram os pagamentos para as despesas correntes do apartamento de Paris – água, luz, comunicações. “Carlos Santos Silva era uma pessoa extremamente ocupada. Quis ser prestável e abri esta conta. Não vi mal nenhum nisso”, justificou-se o advogado. Como também não viu mal nenhum em receber do patrão dinheiro em numerário para comprar quantidades massivas de exemplares do livro de José Sócrates Confiança no Mundo. E também aqui se mostrou diligente, ao pedir emprestados aos amigos cartões de desconto das livrarias, para poder adquirir um número maior de exemplares.
Com pouca experiência na área da advocacia, Gonçalo Trindade Ferreira admitiu ter-se sentido deslumbrado com os negócios em que se viu envolvido quando se tornou avençado das empresas que Carlos Santos Silva – que era cunhado de um primo seu –, com as frequentes idas a Paris que tinha de fazer para “gerir” as obras que decorriam no apartamento do patrão. Um deslumbramento que só cessou quando, num desses regressos da capital francesa com o patrão, tinha à sua espera a Polícia Judiciária e ficou quatro dias atrás das grades. Foi a 20 de Novembro de 2014, na véspera da detenção de José Sócrates no aeroporto de Lisboa, também à chegada de Paris.
Entre 2011 e 2013 passam pelas suas contas 81.010 euros provenientes do seu envolvimento nestes negócios, contabilizou o Ministério Público, que desconhecia a existência do cofre com os 200 mil euros até Gonçalo Trindade Ferreira lho revelar. O advogado assume tudo o que fez, mas garante não se ter nunca apercebido que pudesse estar a cometer qualquer espécie de crime. Na altura tinha 37 anos: “Eu era miúdo e pouca advocacia havia exercido, não tinha aquela estaleca.”
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