Os melhores professores estão a passar o testemunho

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Caro leitor,

Na segunda-feira, no final de mais uma ronda negocial com os sindicatos, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, disse que há milhares de pessoas que querem ser professores em Portugal, mas que têm dificuldades em entrar no sistema. Deu como exemplo os jovens que, após terminarem o mestrado em ensino, têm de esperar quase um ano para começarem a dar aulas.

Na terça-feira, no Parlamento, disse que o problema da falta de profissionais tem sido empolado. “Mais de metade dos horários que estavam a ser comunicados como estando sem professor, há dois ou três meses, estavam repetidos.” Ou seja, concedeu, o problema é grave nalgumas escolas, mas globalmente “muito menos grave do que estava a ser transmitido”.

No início do mês, tinha estado no Parlamento explicando isso mesmo e garantido que até há estabelecimentos de ensino com docentes em excesso. 

Há um ano, a perspectiva era diferente. Na apresentação de um estudo onde se dava conta de que as escolas portuguesas precisariam de recrutar 39 mil professores até 2034, e se estimava que a cada ano quatro mil se aposentariam, Fernando Alexandre deixava um aviso: “Lisboa vai ver sair muitos professores, a península de Setúbal também, tal como o Algarve e algumas zonas do Alentejo. Mas eu gostava de vos deixar a mensagem de que este é um problema que se vai sentir no país todo.”

O diagnóstico então apresentado concluía que “a Educação enfrenta um desafio estrutural significativo: a falta de professores, que tem deixado milhares de alunos sem aulas”.

Essa fora a justificação para que uma das prioridades, desde o início do mandato de Fernando Alexandre, tivesse sido aprovar medidas para mitigar a falta de docentes, incentivando o adiamento das reformas, o recurso às horas extraordinárias, ou promovendo bolsas para alunos que optem por ingressar em cursos de educação, por exemplo.

Se o problema é muito grave, pouco grave ou grave mas circunscrito, é na verdade difícil de avaliar uma vez que ainda não viu a luz do dia uma ferramenta credível que permita contabilizar quantos alunos vão ficando sem aulas muito tempo, pouco tempo, ou circunstancialmente. Resta a troca de argumentos sobre se os métodos usados por diferentes organizações para contar horários por preencher são bons, maus ou péssimos.

Já o estudo que marca a semana educativa é pleno de números positivos. Mas as boas notícias também trazem consigo grandes desafios.

A OCDE decidiu testar as competências pedagógicas dos docentes de oito países que aceitaram participar na avaliação. Portugal é o melhor.

Os portugueses obtiveram pontuação mais alta do que os polacos, os croatas, ou os norte-americanos, por exemplo. Não há diferenças estatisticamente significativas entre ensino público e privado. Nem entre diferentes disciplinas. E a forma como os professores de topo estão distribuídos pelo país é mais equitativa do que noutros locais.

Quando se olha para os anos de serviço, essas diferenças existem e em Portugal são particularmente altas, com os professores mais experientes a saírem-se significativamente melhor do que os seus colegas jovens.

Poderia dizer-se: é óbvio. Se são mais experientes têm mais conhecimentos sobre como se ensina e como se aprende. O estudo da OCDE diz que não é óbvio. Há países onde os professores mais jovens revelam mais preparação.

E enquadra: “Se os professores mais jovens apresentarem melhores resultados do que os mais velhos, isso poderá sugerir que a formação inicial de professores melhorou ao longo do tempo. Por outro lado, se os professores mais experientes tendem a obter melhores resultados do que os que estão em início de carreira, isso poderá indicar que uma parte significativa do conhecimento é desenvolvida através da formação contínua e da colaboração com outros professores.” Portugal faz parte deste último grupo.

Como cerca de dois terços dos professores em Portugal têm mais de 50 anos, podemos dar como certo que os próximos anos serão de uma grande renovação da classe. Muitos dos que são hoje os mais bem preparados pedagogicamente serão substituídos.  

Portanto, sem prejuízo da crise de professores ser mais ou menos grave, de haver milhares de pessoas cheias de vontade de ser professor, ou nem tanto, o relatório da OCDE também serve para sublinhar a importância de quatro dimensões:

  1. a qualidade da formação inicial, aquela que permite adquirir um “conhecimento pedagógico super-especializado”; afinal, esse é o “motor invisível que sustenta o que acontece dentro das salas de aula todos os dias”, nas palavras da OCDE;
  2. a forma como esses super-especialistas são acolhidos e acompanhados quando chegam às escolas;
  3. a formação contínua que lhes pode permitir destacar-se como os seus antecessores;
  4. a capacidade de os reter na profissão (o fenómeno de abandono da carreira é real em vários países europeus).

Há pelo menos um sinal de alerta: no ano passado, ficámos a saber que apesar de saírem satisfeitos com o que aprendem na parte científica e pedagógica dos cursos, os jovens docentes portugueses estavam entre os que na OCDE diziam ter menos apoios formais quando chegam às escolas, ou seja, menos actividades de indução, menos mentores, menos trabalho colaborativo. Ficam sozinhos com os seus alunos.

É algo que há muito os sindicatos têm pedido que se altere. E que o ministro disse esta semana que “tem mesmo de mudar”. Pelo menos nesse ponto estão de acordo.

Há menos de um mês, o Conselho Nacional de Educação emitiu uma recomendação sobre o assunto. Pedia um Programa Nacional de Indução Docente onde a indução tivesse “uma perspectiva formativa e de desenvolvimento profissional, orientada para o apoio e mentoria (…), em detrimento de uma lógica avaliativa e certificadora, reconhecendo, ao mesmo tempo, o potencial dos novos professores para a renovação da profissão, para a inovação curricular e pedagógica e para a dinamização dos contextos escolares”. Vem bem a tempo da discussão sobre o Estatuto da Carreira Docente. 

Estes foram alguns dos outros temas da semana educativa que, como sempre, pode acompanhar aqui:

Até quinta-feira

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