
Os líderes mundiais estão a “alimentar” guerras em vez dos famintos, afirmou nesta segunda-feira o Papa Leão XIV, dizendo à agência de ajuda alimentar das Nações Unidas que as prioridades globais estão profundamente distorcidas.
Leão XIV, que, nos últimos meses, se tem manifestado de forma frontal sobre questões políticas, instou os governos a aumentarem a despesa no combate à fome e a não sujeitarem a ajuda alimentar a limites baseados em preocupações geopolíticas. “Os conflitos são ‘alimentados’ com mais prontidão do que as pessoas são nutridas”, afirmou o primeiro pontífice norte-americano, numa visita à sede do Programa Alimentar Mundial (PAM), em Roma.
“Esta realidade reflecte não só deficiências operacionais, mas também um desequilíbrio fundamental nas prioridades políticas e morais”, afirmou.
O PAM é o maior fornecedor de ajuda alimentar a nível mundial. O maior doador são os Estados Unidos da América, que anunciaram na semana passada uma nova contribuição de 800 milhões de dólares (700 milhões de euros), na sequência de cortes anteriores do Presidente Donald Trump, que reduziram para menos de metade o financiamento norte-americano previsto.
Acesso à alimentação é direito fundamental
Leão XIV, que neste ano já provocou a ira de Trump depois de criticar a guerra do Irão, não mencionou nesta segunda-feira nenhum líder em concreto. Depois do discurso na sede do PAM, o Papa participou também numa videochamada com trabalhadores da agência em vários países, incluindo no Líbano e na Venezuela.
O Papa lamentou no seu discurso que as crises humanitárias do mundo estejam a ser relegadas para um “lugar secundário entre as prioridades internacionais”.
Afirmou que os países “têm afectado cada vez mais os seus recursos à segurança nacional, ao crescimento económico e à estabilidade interna, ignorando a estreita ligação entre estas questões e a cooperação multilateral”.
Leão XIV foi recebido no PAM por Cindy McCain, que se demitiu do cargo de directora da agência no início deste ano por razões de saúde.
O PAM, que venceu o Prémio Nobel da Paz em 2020, forneceu 15,6 mil milhões de rações diárias a 121 milhões de pessoas em 2025, financiadas por 6,5 mil milhões de dólares (5,7 mil milhões de euros) em donativos voluntários, segundo a agência.
O PAM alertou na semana passada que a insegurança alimentar aguda vai agravar-se para milhões de pessoas em 13 países entre Junho e Novembro, com os conflitos, a falta de financiamento e os choques climáticos a fazerem-se sentir. A agência, que não recebe financiamento directo da ONU, procura obter 13 mil milhões de dólares (11,4 mil milhões de euros) em donativos para 2026.
O sumo pontífice afirmou que o acesso à alimentação é “um direito humano fundamental enraizado na dignidade de cada pessoa”. E destacou que combater a fome não só ajuda quem precisa, como também ataca as causas profundas da instabilidade geopolítica.
“A segurança alimentar é uma componente essencial da segurança global e integral”, afirmou o Papa.
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