Kanye West viu ser-lhe negado o visto de entrada no Reino Unido, consequência das declarações anti-semitas e do flirt com o nazismo que protagonizou nos últimos anos, assim se gorando a sua actuação naquele país. Na Suíça, pelas mesmas razões, o clube de futebol Basileia recusou recebê-lo no seu estádio; o mesmo aconteceu em Marselha, França, e em Chorzów, Polónia. O rapper norte-americano ainda tem concertos marcados no âmbito da sua actual digressão, incluindo um a 7 de Agosto, no Estádio do Algarve, mas há uma data que, neste contexto, se destaca. Dia 12 de Junho, actuará na Dinamo Arena, em Tbilissi. Os produtores? A Bluestone, empresa de espectáculos israelita adquirida em 2017 pela Live Nation, originando assim a Live Nation Israel.
A história foi revelada esta quinta-feira pela Rolling Stone, que assinala o acontecimento como a representação máxima do “absurdo” que tem sido este ano de 2026. Kanye West, que responde actualmente pelo nome artístico Ye, será mais uma mega-estrela integrada no Starring Georgia, programa de concertos que pretende colocar aquela ex-república soviética no mapa da indústria musical. Antes de Kanye West, passaram por Tbilissi nomes como Scorpions, Bruno Mars, Guns N’Roses, One Direction ou Justin Timberlake.
Em resposta a questões da Rolling Stone, fonte de Live Nation afirmou que a produção do concerto de Kanye West não é da sua responsabilidade. “O espectáculo está a ser produzido pela Blue Stone Productions.” Será, até ao momento, caso único, dado que os anteriores concertos da Starring Georgia foram todos assegurados pela Live Nation Israel, agora rebaptizada Live Nation Central Asia.
A Live Nation Israel nasceu em 2017, no que constituiu então mais um passo na expansão mundial da Live Nation, empresa norte-americana que é hoje a líder de mercado nos espectáculos ao vivo. Ao adquirir uma posição maioritária na Bluestone, fundada pelos promotores de concertos israelitas Guy Beser e Shay Mor Yosef e por Guy Oseary, manager de Madonna, a Live Nation acedia assim a um mercado israelita em franca expansão e central para o estabelecimento de um circuito regional entre os países da região. Tudo mudou a 7 de Outubro de 2023, com o ataque terrorista do Hamas no Sul de Israel e a reacção israelita, que redundou no que as Nações Unidas classificaram como genocídio da população palestiniana de Gaza.
Daí para cá, por motivos de segurança, e devido ao boicote a Israel por parte de cada vez mais bandas e artistas, o país deixou de ser ponto de passagem para as estrelas globais da música, o que obrigou a Live Nation Israel a seguir nova estratégia. Rebaptizada internamente Live Nation Central Asia (na página de LinkedIn de Guy Besser, este continua a apresentar-se como fundador e CEO da Live Nation Israel), mudou os seus escritórios para Tbilissi e passou a concentrar atenções noutros mercados musicais emergentes, como a Geórgia, a Arménia ou o Azerbaijão. O concerto de Kanye West em Tbilissi, cujos 70 mil bilhetes voaram em menos de um dia, insere-se neste novo contexto.
Kanye West regressou aos álbuns em Março, com Bully, disco que, segundo o próprio, representa um momento de reflexão e contrição perante a postura dos últimos anos, ao longo dos quais se manifestou em favor de Donald Trump, acumulou declarações polémicas relativamente à escravatura e à luta anti-racista e ensaiou aproximações a Hitler e ao nazismo, manifestando posições anti-semitas e editando uma canção intitulada Nigga Heil Hitler.
Em Janeiro publicou uma carta aberta no Wall Street Journal, pedindo desculpa pelo comportamento e pelas declarações dos últimos anos – “Não sou nazi, nem anti-semita. Adoro o povo judeu”, escreveu –, e atribuindo-os aos graves problemas de saúde mental com que se debateu. Tal não impediu o Reino Unido de lhe recusar visto de entrada no país, levando ao cancelamento do Wireless Festival, que fora montado em redor da sua actuação. Como não impediu o cancelamento dos concertos na Polónia e na Suíça, a pressão de activistas e das autoridades nacionais para que o mesmo aconteça em Itália, onde figura como cabeça de cartaz do festival Hellwatt, em Reggio Emilia, em Julho, e o adiamento sem nova data da actuação em Marselha.
Que um dos concertos que se mantém de pé tenha lugar na Geórgia, com produção de uma equipa e de uma empresa israelitas, não pode deixar de causar estranheza. Após contacto da Rolling Stone, a Live Nation descartou responsabilidades e a Bluestone declinou comentar.
Quanto a Portugal, o concerto marcado para 7 de Julho no Estádio do Algarve também é alvo de contestação. No início de Maio, a Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) pediu às Câmaras de Faro e de Loulé e ao Governo que não concedam quaisquer apoios públicos ao concerto. “É chocante que o Estado mobilize e envolva recursos para este evento”, porque “não só está a permitir a actuação de um conhecido anti-semita em Portugal, como num equipamento público que é de todos”, afirmou então à Lusa o presidente da CIL, David Botelho.
Antes, em Abril, o Blitz noticiava que as câmaras municipais de Faro e Loulé aguardavam por uma posição do Governo português relativamente ao concerto. Este, por sua vez, dizia estar “a acompanhar a situação”.
Esta sexta-feira, fonte da promotora do concerto garantiu ao PÚBLICO não ter qualquer indicação de não realização do concerto. Já foram vendidos 30 mil dos 50 mil bilhetes disponíveis.
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