O Brasil alcançou, pela primeira vez na sua História, um índice de desenvolvimento humano muito elevado, de acordo com os dados do relatório Radar IDHM, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), publicado na terça-feira. Apesar disso, permanecem as desigualdades entre regiões, género e raça.
O relatório analisa o índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M), composto pelas mesmas três dimensões do índice de desenvolvimento humano global — esperança média de vida, educação e rendimentos —, medidos na mesma numa escala de 0 a 1 (sendo que o 1 é o mais elevado), mas com dados regionais e adaptações feitas ao contexto brasileiro que não permitem que se leve a cabo comparações com outros países.
Ainda assim, podem fazer-se comparações com os últimos dados disponíveis do mesmo indicador, que já têm mais de uma década, e que mostram uma evolução clara. O país registava, em 2024, um IDH-M de 0,805 – o melhor alguma vez registado e que o coloca num nível “muito elevado” de desenvolvimento —, um aumento face aos 0,744 de 2012.
“O Brasil da segunda década do século XXI não é o Brasil de há 30 anos”, lê-se no relatório. “As evidências indicam uma evolução positiva do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal”, situando “o país, alguns estados, o Distrito Federal e a maioria das regiões metropolitanas” no “patamar de muito alto desenvolvimento humano”.
Dos três parâmetros analisados, o que mais cresceu foi o do acesso à educação. Em 2012, esse era o que tinha pior pontuação – 0,679 —, mas em 2024 registou uma recuperação assinalável, com 0,798. Para esse desfecho terá contribuído o impacto das políticas públicas de apoio às famílias, como o Bolsa Família, programa recuperado em 2023 por Lula da Silva, que também permite que as crianças estudem mais anos, assinala o estudo.
Quanto à esperança média de vida, o país já registava níveis altos em 2012 (0,829) e melhorou-os ligeiramente em 2024 (0,860). Já no que toca aos rendimentos, o indicador que mais tem oscilado ao longo dos anos, não se registou um avanço claro desde 2012 (quando o índice era de 0,732) a 2024 (0,760) — e o fraco desempenho neste parâmetro tem impacto no indicador geral.
A “nossa tecnologia social de crescimento está ancorada pelos programas de renda mínima ou de assistência social”, afirma Bettina Ferraz Barbosa, economista e coordenadora de Desenvolvimento Humano do PNUD no Brasil, citada pela Folha de S. Paulo. “Essa tecnologia tem mais falhas, porque se a dimensão da educação e saúde têm no seu ADN a política pública stricto sensu, a dimensão do rendimento também reage ao que acontece no mercado, no sector privado.”
Assim, há que “colocar na mesa da negociação” o “sector público, privado e a sociedade civil”, para ser possível “levar o país a um novo patamar de rendimentos”, diagnostica.
Desigualdades continuam
Foram detectadas desigualdades entre regiões, género e raça que permanecem, apesar de alguns números até terem melhorado.
O ritmo de crescimento do IDH-M foi superior para a população negra (10,3%) do que para a população branca (5,5%), o que “prova que a trajectória pode ser alterada quando há vontade política e compromisso social”, afirma Claudio Providas, responsável do PNUD no Brasil, ainda que as desigualdades não se apaguem. O género é outro exemplo: os homens continuam a ter um desenvolvimento muito alto (0,802) enquanto o das mulheres é apenas alto (0,798).
Olhando para as regiões, o Distrito Federal (Brasília) aparece destacado no topo da lista dos mais desenvolvidos, com um IDH-M de 0,866. O Maranhão é o pior, com 0,745. Tudo isto conta as diferentes histórias que se encontram num mesmo país: um homem branco do Distrito Federal ganha em média 1987 reais (cerca de 338 euros), quatro vezes mais do que um homem negro do Maranhão, 446,20 (cerca de 76 euros). Para referência, o salário mínimo em 2024 era de 1412 reais (240 euros).
“Uma mulher negra brasileira ainda hoje vive num país diferente de um homem branco brasileiro. Não metaforicamente, estatisticamente”, afirma Claudio Providas citado pelo UOL. “São dois entraves sérios para o Brasil: a desigualdade de raça e a desigualdade de género.”
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