Pelo direito universal ao sotaque

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Trazemos lugares dentro da boca. Mesmo convencidos de que o nosso falar é imaculado, de que crescemos na neutralidade do não-sotaque da capital, há sempre cruzamentos, mestiçagem, formas próprias. E que bom! Língua sem lugar é ilusão. A música singular de cada sotaque, como as palavras rolam e se desprendem, o calor derramado na respiração ou guardado em parcos movimentos dos lábios, são tudo formas de dizer “sou de cá”. Há sempre um “cá” dentro de nós, mesmo que longe, mesmo que nunca visitado. Uma ligação.

Sotaque é corpo e lugar ao mesmo tempo, a contaminação da língua pela terra. É som feito matéria, como uma pedra na boca. Ao ouvi-lo ouvimos rios, florestas, recortes da costa, o trânsito, o vento. Talvez não saibamos decifrar paisagens a partir de como as palavras caem, mas quero acreditar que algo em nós o apreende. Lembro-me do que disse uma professora: “Se lavares essa toalha muito bem, com toda a tua atenção, quem secar aí as mãos não vai saber… mas as mãos vão lembrar.” O corpo que repara é o corpo que se perde nas palavras dos outros, corpo-a-corpo, palavras-gesto.

Comecemos por escutar. Não só pelo som como pelo toque, pelos cheiros e sabores, porque o sotaque existe para além da voz e das palavras. Sentimo-lo precisamente nos gestos, em práticas, relações. Há comidas com sotaque, pensamentos, formas de fazer, movimentos que trazem os seus lugares na ponta dos dedos. Os sotaques deixam restos de geografias em muitas coisas.

Escrevo pelo Direito Universal ao Sotaque: que o proteja de ser corrigido, domesticado, que o faça florescer em cada escola, cada sala de reuniões, discurso, música e filme. Que se insurja e contamine as línguas, as que arrastam impérios na memória. Que nelas abra fendas e cresça por entre as falhas, glorioso, tomando idiomas inteiros e a eles dando novos mundos de outra forma: pela beleza, pela sensualidade e pelo jogo.

A palavra já o tem: sotaque, sotaque, apetece continuar, sotacatitac, sotaque, sotacatitacatitac, sutac-tac-tin-tin-tac como o ciclo rítmico Teental, da Índia, que convida a sentir o tempo dentro da boca.

É abrir espaço para que outros sons entrem por nós e de alguma forma nos comovam, nos façam viajar e escutar o que esses lugares estão a dizer, tão distantes e tão cá. Ôxálá!

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