A equipa que gere há 16 anos o Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), em Silves, pode estar a dias de ser afastada — sem plano de transição, sem justificação oficial e sem resposta às cartas que enviou ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Na segunda-feira, uma visita do ICNF fez crescer a inquietação entre técnicos e investigadores. Será este o início de uma abrupta transição?
Segundo o coordenador do Programa Ibérico de Conservação ex-situ para o lince-ibérico e responsável técnico pela operação do CNRLI, Rodrigo Serra, a equipa recebeu esta segunda-feira a visita — anunciada em cima da hora — de três vigilantes da natureza, acompanhados pela veterinária Alexandra Pereira, técnica superior do Departamento de Conservação da Natureza e Biodiversidade do ICNF e ex-directora do Departamento do Bem-Estar dos Animais de Companhia deste instituto, que, ao que tudo indica, deverá ficar a coordenar o CNRLI a partir de 1 de Junho.
Em causa está o futuro deste projecto de conservação da natureza com reconhecido sucesso, num momento em que o ICNF decidiu “internalizar” a sua gestão — afastando a equipa responsável pelo programa há quase duas décadas, sem qualquer plano de transição conhecido.
Os sinais de improviso e de uma mudança pouco preparada parecem cada vez mais claros. Segundo Rodrigo Serra, a equipa foi informada, já tarde na noite de sexta-feira, de que técnicos do ICNF começariam a aparecer no terreno poucos dias depois. “Na sexta-feira, às 23h01, fomos informados de que, a partir desta segunda-feira, iríamos ter cá pessoas do ICNF”, conta o responsável técnico.
A visita dos técnicos do ICNF acabou por agravar as dúvidas que já existiam quanto à ausência de um plano de transição capaz de assegurar a segurança dos animais e das pessoas envolvidas neste projecto. Segundo Rodrigo Serra, a visita foi breve e pouco esclarecedora relativamente ao processo em curso.
“A verdade é que nos chegaram cá três vigilantes da natureza, sem aparentemente qualquer currículo”, diz Rodrigo Serra, admitindo que não foi fornecida qualquer informação sobre a formação ou as funções concretas dessas pessoas.
Silêncio e cartas sem resposta
A situação levanta dúvidas também quanto à preparação da futura liderança técnica. Embora Alexandra Pereira seja veterinária, a sua experiência na área da fauna selvagem será escassa ou inexistente. “Cinco anos de experiência com animais domésticos não prepara ninguém para um desafio deste tipo”, confirma Serra, sublinhando a especificidade do trabalho com carnívoros selvagens em cativeiro.
O actual coordenador do projecto insiste que nunca foi oficialmente informado da decisão do ICNF de internalizar a gestão do CNRLI. A 31 de Maio, termina o contrato com a empresa que exerceu essas funções desde 2009 e que, actualmente, envolve uma equipa de 14 profissionais. Segundo adiantou ao Azul, essa mudança foi abordada num “encontro informal” em Fevereiro, mas, depois disso, instalou-se o silêncio. Nem mesmo as inúmeras cartas com aviso de recepção enviadas ao ICNF nestes últimos dias tiveram resposta até hoje.
O ICNF pretende assumir directamente a gestão do centro a partir de Junho, mas, até agora, não houve apresentação de um plano técnico, legal ou operacional. Numa resposta ao Azul, enviada na semana passada, o ICNF não apresentou qualquer justificação para esta decisão nem qualquer pormenor sobre o processo de transição da gestão do CNRLI. Esta segunda-feira, o Azul voltou a pedir esclarecimentos ao ICNF, enviando uma série de questões que não tiveram resposta até ao final do dia.
Daniel Rocha
Questionada pelo Azul, a ministra do Ambiente remeteu qualquer explicação sobre a decisão para o ICNF. Em declarações aos jornalistas na passada quarta-feira, Maria Graça Carvalho referiu apenas que a mudança é “uma decisão técnica do ICNF”, sobre a qual não teve interferência, sublinhando que mantinha a confiança na “autoridade nacional que é o ICNF”.
Citada numa notícia do Expresso, Astrid Vargas, bióloga especialista em conservação que liderou o programa de reprodução da espécie em Espanha no início do projecto, teme que alteração imposta pelo ICNF “represente um risco directo para a espécie”, acrescentando que “desmantelar equipas experientes é pôr anos de trabalho em risco”.
Na passada semana, o ICNF garantia apenas que “mantém o seu empenho e compromisso na recuperação da população de lince-ibérico” e limitava-se a justificar que a decisão resulta de uma avaliação interna que concluiu ser “necessária a existência de uma equipa interna, sendo que os elementos agora seleccionados para assegurar a continuidade da gestão do CNRLI cumprem os mesmos requisitos pedidos nos concursos públicos ao longo dos anos”. “Está garantida, dessa forma, a continuidade e a sustentabilidade do trabalho desenvolvido”, acrescentava.
Na verdade, no caderno de encargos do contrato com a actual equipa é exigida experiência comprovada em gestão de projectos de conservação da natureza e, especificamente, com animais selvagens em cativeiro — condições que Alexandra Pereira não reúne, caso venha, de facto, a assumir a gestão do CNRLI.
Linha vermelha: os animais
A equipa que assegura diariamente o funcionamento do centro — responsável por um dos programas de conservação mais sensíveis e bem-sucedidos do país — descreve um cenário de fragilidade iminente. Ainda assim, há uma linha vermelha que dizem não ultrapassar: o abandono dos animais.
“Nós não vamos deixar os linces morrer à fome”, afirma Rodrigo Serra, acrescentando que, mesmo num cenário de ruptura, a equipa permanecerá no terreno: “No dia 1, se não formos impedidos, estaremos cá todos prontos para ajudar, isso pode ter a certeza.”
O trabalho no CNRLI exige conhecimento acumulado ao longo de todo o ciclo anual da espécie — da reprodução à reintrodução — e não é facilmente transmissível, argumenta. “A gestão do centro não se transmite numa semana”, alerta Rodrigo Serra, defendendo que uma transição segura “tem de durar um ano” e afirmando-se disponível para a garantir, uma vez que não só reconhece a legitimidade do ICNF como tem como objectivo principal assegurar a continuidade de um projecto de sucesso.
Actualmente, o centro atravessa uma fase sensível, marcada pelo crescimento das crias e pelos conflitos entre juvenis, explica o coordenador. “Estamos na fase das lutas das crias, que exige muita concentração”, especifica Rodrigo Serra, referindo-se a um período em que decisões erradas podem ter consequências imediatas.
O risco, segundo assinala, não se limita aos animais. A entrada de profissionais sem experiência pode também colocar em causa a segurança humana. “Um técnico não experiente (…) pode correr graves riscos. Tem de saber o que está a fazer”, sublinha.
Apoio à actual equipa
Ao longo de mais de uma década, a equipa que geriu o centro de Silves acumulou conhecimento considerado essencial para o sucesso do programa. Esse património pode perder-se rapidamente. “O know-how está com estas pessoas”, afirma Rodrigo Serra, alertando que a substituição abrupta da equipa representa uma quebra difícil de recuperar e que esse capital não é substituível por relatórios ou manuais. Em Espanha quando foi necessário proceder a uma transição de gestão, a “passagem do testemunho” durou dois anos, assinala.
A preocupação já extravasou o centro. A equipa diz ter recebido apoio de diversos membros da comunidade científica nacional e internacional, incluindo especialistas ligados ao programa ibérico de conservação do lince, todos apelando a uma transição responsável que salvaguarde o trabalho realizado.
REUTERS/Victor Fraile
Também a articulação com Espanha — essencial num programa que é ibérico — está a suscitar preocupação. Segundo Rodrigo Serra, o ministério espanhol terá solicitado reuniões com o ICNF, sem obter resposta. “Preocupa-nos não haver uma ligação a Espanha para fazer este processo de forma mais controlada”, refere.
Apesar das críticas, a equipa insiste que não está em causa a decisão de mudança em si, mas a forma como está a ser executada. “Estamos completamente disponíveis para participar em qualquer esforço que seja feito para evitar uma transição abrupta”, garante.
“Acho isto terrivelmente perigoso”
Ainda assim, o diagnóstico é claro. “Não acho isto absurdo. Acho isto terrivelmente perigoso”, afirma, apontando riscos para os animais, para os técnicos e para a credibilidade internacional do programa português de conservação.
Com menos de duas semanas para a mudança, o processo continua sem rumo definido. Entre comunicações tardias, presenças no terreno sem enquadramento claro e dúvidas sobre a preparação técnica da futura equipa, persiste a incerteza, que contrasta com a exigência do trabalho em causa.
A decisão surge num momento decisivo para a espécie que, apesar da recuperação significativa — de menos de 150 indivíduos para mais de 2000 na Península Ibérica —, continua classificada como vulnerável e dependente de programas intensivos de conservação.
No meio deste cenário, a única garantia continua a vir de quem (ainda) está no terreno: aconteça o que acontecer, os animais não serão abandonados.
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