A motivação para esta reflexão nasce da proliferação de projetos para megaparques solares por todo o país. Não está em causa a necessidade da transição energética, pelo contrário. A descarbonização da economia constitui um dos grandes imperativos do nosso tempo. Mas isso não nos dispensa de refletir criticamente sobre a forma como a concretizamos.
Portugal tem o dever de saber que as escolhas tecnológicas nunca são neutras nem isentas de consequências. No domínio dos resíduos, por exemplo, os aterros sanitários representaram um avanço significativo face às antigas lixeiras. Contudo, décadas depois, percebemos que não resolvem o problema de fundo: continuamos a produzir resíduos em excesso e a depender de soluções de fim de linha. A lição é simples: uma tecnologia pode ser necessária sem ser suficiente e as escolhas que fazemos podem não passar de momentâneas soluções aparentes e em problema a prazo.
Entretanto, a ciência tem vindo a demonstrar de forma inequívoca a importância dos sistemas florestais. À medida que os desafios aumentam, torna-se cada vez mais evidente o papel extraordinário que as árvores desempenham na nossa vida. Num tempo marcado por ondas de calor, incêndios, secas, tempestades, alterações climáticas e transição energética, as árvores oferecem a resposta mais simples, eficaz e duradoura que conhecemos. As árvores capturam carbono, regulam a temperatura, promovem a infiltração da água no solo, reduzem a erosão, protegem a biodiversidade, melhoram a qualidade do ar e contribuem para a saúde física e mental das populações. Em simultâneo, valorizam a paisagem, reduzem custos associados a fenómenos extremos e aumentam a resiliência dos territórios.
Segundo o IPCC e a FAO, as soluções baseadas na natureza constituem uma das formas mais eficazes e economicamente competitivas de adaptação às alterações climáticas e de mitigação das suas consequências. Poucas infraestruturas conseguem gerar simultaneamente tantos benefícios ambientais, sociais, económicos e de saúde pública. Na verdade, as árvores constituem uma das mais sofisticadas tecnologias desenvolvidas pela natureza. Funcionam silenciosamente, não consomem combustíveis fósseis, não produzem resíduos e prestam serviços ambientais essenciais à manutenção da vida.
Enquanto discutimos milhões de euros em novas infraestruturas tecnológicas, continuamos muitas vezes a ignorar uma infraestrutura natural que trabalha gratuitamente para nós todos os dias. Por isso, antes de convertermos vastas áreas do território em plataformas energéticas, devemos perguntar: estamos a valorizar devidamente aquilo que já temos? Estamos a contabilizar o verdadeiro valor económico, ambiental e social das árvores? Estamos a integrar floresta, agricultura, conservação da natureza e produção de energia numa visão coerente e estratégica do território?
A transição energética não pode reduzir-se a uma corrida tecnológica ou financeira. Tem de ser também uma reflexão séria sobre a forma como ocupamos o território, utilizamos os recursos e construímos o futuro coletivo. Talvez a questão não seja escolher entre árvores e painéis solares. A verdadeira questão é saber se continuamos a olhar para as árvores como elementos decorativos da paisagem ou se finalmente reconhecemos que elas constituem uma das mais valiosas infraestruturas estratégicas de que dispomos.
Num país mediterrânico, cada vez mais quente, mais seco e mais vulnerável às alterações climáticas, apostar exaustivamente nas árvores não é um luxo paisagístico nem uma opção romântica, é um dever estratégico de adaptação, de resiliência e de inteligência territorial. Plantar árvores pode não resolver todos os problemas, mas, seguramente, fará parte da solução. Quanto mais tarde o compreendermos, mais caro pagaremos. Andamos assim tão distraídos?
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
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