Porque falham os acordos

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O que têm em comum a reforma laboral que o Governo e o PSD queriam fazer passar no Parlamento, com o apoio do Chega, na última sexta-feira, e o acordo de paz entre EUA e Irão que ia ser assinado no mesmo dia, na Suíça? Com algum esforço, um detalhe: a volubilidade.

Volubilidade significa “a qualidade de ser volúvel, indicando versatilidade, inconstância ou a falta de estabilidade nos pensamentos, sentimentos ou comportamentos”, na definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Quem muda muito de opinião é volúvel.

Ora, tanto no caso do conflito do Médio Oriente como no das leis laborais, o acordo falhou por uma questão de inconstância dos intervenientes.

O Irão acusou os EUA de violações do entendimento, queixou-se da escalada militar Israel–Hezbollah e anunciou o fecho do estreito de Ormuz. Os EUA cancelaram a deslocação do seu representante à Suíça adiaram as negociações previstas e mostraram desconforto com os ataques no Líbano. Como resultado da quebra de confiança entre as partes, o memorando que supostamente já tinha sido assinado de forma electrónica foi suspenso.

No caso português, no dia antes da votação prevista no Parlamento, o PSD mostrava-se muito confiante na aprovação da sua proposta e André Ventura dava conta das alterações que o seu partido tinha conseguido introduzir no diploma. Mas tudo mudou no dia seguinte, com o Chega a votar contra e o PSD a acusá-lo de introduzir uma exigência adicional na “25.ª hora”.

Querer chegar a acordo com quem é “teleguiado por comentadores mentores ou pelas tendências das redes sociais” para tomar decisões (as palavras entre aspas são de Luís Montenegro no 43.º Congresso do PSD) não é ingenuidade, é política.

E no caso concreto das leis laborais, é também vontade de persistir numa solução que ninguém defende (“Se bem conheço o primeiro-ministro, lá iremos outra vez”, disse a ministra do Trabalho): nem a concertação social, nem a oposição, nem potenciais parceiros de negociações.

Com o Chega a fazer cumprir, à sua maneira, o “não é não” de Luís Montenegro e o PS a rejeitar liminarmente a reforma que o executivo propõe, bem pode o ministro dos Assuntos Parlamentares garantir que o Governo minoritário tem “todas as condições de governabilidade”. Tem todas, mas ao mesmo tempo não tem nenhumas. Tem as que o tempo da política, e da volubilidade, lhe der.

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