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O mundo está reposicionando o seu dinheiro, isto é fato inequívoco. Desde 2025, os grandes investidores internacionais retiram capital dos Estados Unidos a um ritmo sem precedentes recentes, num movimento que os mercados designaram de “Sell America” trade, o que em tradução literal significa “vender tudo o que é americano”.
As tarifas impostas pela administração de Donald Trump, a imprevisibilidade das políticas comerciais, a queda sustentada do dólar e as mais recentes declarações e ações do governo norte-americano, que afetam diretamente a geopolítica global, seja por ameaças, seja por ações bélicas propriamente dita, criaram uma janela histórica para os países europeus captarem esse fluxo de capital.
Portugal, sem dúvida nenhuma, entra no radar como destino atrativo de eleição de investidores. Já em 2025, a revista The Economist distinguiu Portugal como a “Economia do Ano”, classificando o país como a melhor economia entre as principais economias avançadas. Este reconhecimento deveu-se ao equilíbrio notável entre crescimento econômico sólido, inflação controlada, baixo desemprego e um desempenho forte dos mercados financeiros.
Após anos de desafios econômicos, o país destacou-se pela sua estabilidade e capacidade de adaptação, tornando-se um exemplo dentro da Europa e reforçando a sua atratividade para investimento estrangeiro e desenvolvimento sustentável. E os números confirmam.
O investimento direto estrangeiro em Portugal — dinheiro que empresas e fundos de fora colocam em negócios no país, criando emprego e riqueza real — atingiu 12,2 bilhões (mil milhões) de euros em 2024, um crescimento de 15,4% face ao ano anterior, segundo o Banco de Portugal. A AICEP, a agência pública responsável por atrair investimento estrangeiro, formalizou 418 milhões de euros em contratos de investimento industrial, contra apenas 12 milhões em 2022.
Portugal ocupa hoje o 2.º lugar da Europa Ocidental no Índice Greenfield da fDi Intelligence, que mede a capacidade de atrair projetos de raiz — fábricas, centros de dados, infraestruturas construídas de início — e o 16.º a nível mundial.
Evan Vucci/ Reuters
Do lado americano, o movimento inverso é igualmente expressivo: o investimento direto estrangeiro nos EUA caiu 33,7%, passando de 88,5 bilhões de dólares para 58,7 bilhões de dólares. Entre janeiro e julho de 2025, os investidores europeus desviaram 125 bilhões de euros de fundos americanos para fundos focados na Europa e em mercados internacionais. Trata-se da maior rotação de capital em anos.
Uma pesquisa de fevereiro de 2026 da Câmara de Comércio e Indústria da Alemanha revelou que 50% das empresas daquele país com operações nos EUA planejam reduzir ou adiar o seu investimento em território americano. A fuga não é uma teoria. Está acontecendo agora, e Portugal está posicionado para beneficiar.
O paradoxo
Mas há uma dimensão desta oportunidade que está sendo subestimada: a segurança jurídica. Portugal enfrenta hoje um paradoxo. Por um lado, nunca foi tão atrativo para o capital estrangeiro, mas, por outro, é preciso compreender que o cenário geopolítico global está criando incertezas jurídicas concretas que afetam diretamente a confiança de quem investe a longo prazo em qualquer país — especialmente em áreas estratégicas como energia, tecnologia, infraestruturas e imobiliário de alto valor.
O problema não é a legislação portuguesa em si, que, no geral, é sólida e alinhada com o direito europeu. O problema é a interação entre essa legislação e um ambiente externo em rápida mutação. E o investidor quer sinais robustos de segurança jurídica. É precisamente isto que os investidores buscam.
As guerras de tarifas entre os EUA e a União Europeia, a fragmentação das cadeias de abastecimento globais, as sanções a países terceiros e a pressão sobre empresas com origens em mercados considerados “sensíveis”, como a China, a Rússia ou determinadas jurisdições do Médio Oriente, estão criando zonas de ambiguidade jurídica para investidores que operam em Portugal, mas têm ligações a esses mercados.
Dois exemplos concretos ilustram este risco. Uma empresa com capital de origem asiática que investe numa fábrica de semicondutores em Portugal pode ver o seu projeto bloqueado ou revisto por pressões diplomáticas externas, sem que a legislação portuguesa preveja claramente os mecanismos de proteção do investidor nesse cenário.
Um fundo imobiliário internacional sediado num país sujeito a sanções americanas que adquire ativos em Lisboa pode enfrentar pressões para desfazer posições, sem que Portugal disponha de um quadro jurídico claro de resposta soberana a essas pressões. Estes não são cenários hipotéticos. São situações que já ocorrem noutros países europeus e que chegam a Portugal.
O que é necessário
A resposta não é fechar portas. É construir uma arquitetura política, econômica e jurídica que proteja simultaneamente os investidores legítimos e os interesses estratégicos do país.
E isto passa por cinco eixos concretos.
Primeiro, um regime claro de triagem de investimentos estrangeiros em setores estratégicos. Portugal não dispõe ainda de um mecanismo robusto de avaliação dos investimentos em áreas como energia, telecomunicações, portos, infraestruturas digitais e defesa. A União Europeia tem promovido quadros de triagem, mas a sua implementação nacional em Portugal é ainda incipiente.
Nuno Ferreira Santos
Sem este filtro, o país fica exposto a aquisições que podem comprometer a sua soberania econômica e a pressões diplomáticas posteriores que criam incerteza para todos os outros investidores. A Espanha tem um mecanismo nacional de triagem de investimento direto estrangeiro em setores estratégicos desde 2020, reforçado em 2024. Portugal ainda não chegou lá.
Segundo, cláusulas de estabilização nos contratos de investimento de grande dimensão. Quando um investidor coloca centenas de milhões de euros num projeto de energia ou numa fábrica em Portugal, precisa de garantia de que o quadro fiscal e regulatório não muda de forma discricionária ao longo do projeto.
Portugal utiliza o Regime Contratual de Investimento para este efeito, mas a sua aplicação é ainda limitada e o seu alcance precisa de ser reforçado para abranger explicitamente cenários de pressão geopolítica externa. A estabilização jurídica é, para muitos grandes investidores, mais decisiva do que os incentivos fiscais.
Terceiro, um sistema de resolução de litígios específico para investimentos estrangeiros. Os acordos bilaterais de proteção de investimentos que Portugal assinou com dezenas de países precisam ser revistos à luz do novo contexto geopolítico. Muitos foram negociados em décadas anteriores e não contemplam cenários como sanções unilaterais, guerras comerciais ou pressões tecnológicas cruzadas.
A criação de um centro de arbitragem especializado em investimentos, ancorado em Lisboa como plataforma atlântica entre a Europa, os EUA e os mercados lusófonos, poderia ser um diferenciador competitivo de enorme relevância. A Irlanda fez este trabalho. Portugal ainda não.
Quarto, clareza regulatória na atração de capital de origem diversificada. Num mundo em que os EUA e a União Europeia exercem pressão crescente sobre empresas com ligações a determinados mercados, Portugal precisa definir com clareza que tipo de capital aceita, em que condições, e com que garantias para ambas as partes.
A ambiguidade atual é um desincentivo silencioso para investidores que procuram certeza jurídica acima de qualquer outra consideração. Clareza não é exclusão: é transparência que gera confiança.
Quinto, uma estratégia de comunicação jurídica internacional. Portugal precisa promover ativamente, junto das comunidades de investimento globais, o seu quadro jurídico, a independência dos seus tribunais, a sua tradição de cumprimento de contratos e o seu alinhamento com o direito europeu.
Esta narrativa — Portugal como destino juridicamente seguro numa Europa estável, é tão importante quanto os dados econômicos. E está ainda muito por construir. Os países que ganham o capital que está saindo dos EUA não são apenas os que têm mais incentivos fiscais, são os que conseguem comunicar segurança.
A janela pode se fechar
A janela de oportunidade criada pela fuga de capital dos EUA é real, mensurável e está aberta agora. Mas as janelas fecham. A Espanha tem uma estratégia de atração de investimentos mais agressiva e um quadro de segurança jurídica mais consolidado.
A Irlanda continua a ser o destino preferencial para capital anglófono. A Polónia e os países bálticos estão captando investimento industrial a um ritmo acelerado. A concorrência é intensa e os investidores fazem as suas escolhas com base em comparações objetivas.
Portugal tem ativos únicos e genuinamente diferenciadores: energia renovável barata — com 86,6% da eletricidade proveniente de fontes renováveis em 2025, o 2.º valor mais alto da União Europeia —, localização atlântica estratégica, talento qualificado a custo competitivo, estabilidade política e acesso ao maior mercado único do mundo. Em 2025, a AICEP tinha em análise mais de 20 bilhões de euros em potenciais projetos de investimento estrangeiro. Se conseguir converter apenas 10% desse valor em contratos, será o melhor ano de sempre.
Mas ativos sem arquitetura jurídica robusta são uma proposta de valor incompleta. O investidor que hoje hesita entre Lisboa e Madri não está apenas comparando custos energéticos ou incentivos fiscais. Está comparando certezas. E perguntando: “Se algo correr mal, se a geopolítica mudar, se houver pressões externas, os meus ativos estão protegidos? As regras do jogo vão ser mantidas? Tenho onde recorrer?” Estas perguntas não têm hoje em Portugal respostas tão claras quanto deveriam ter.
Captar investimento é uma coisa. Mantê-lo, protegê-lo e criar as condições para que cresça ao longo de décadas é outra completamente diferente. Portugal fez bem a primeira parte. Está em atraso na segunda. E o tempo para construir esta arquitetura jurídica é agora, enquanto a janela ainda está aberta e os investidores ainda estão olhando para o país.
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