
Árvores em todos os locais possíveis da cidade!
Esta é uma recomendação consensual dos peritos em clima, como forma simples, rápida e barata para enfrentar as ondas de calor, que serão cada vez mais intensas e frequentes, acompanhando-se de um aumento significativo da mortalidade das populações expostas.
Para além da beleza e do seu efeito refrescante, as árvores convertem o CO2 poluente em oxigénio, fonte essencial da vida. As fotografias de satélite mostram a diminuição progressiva da mancha verde do Porto, principalmente à custa da construção em jardins privados, mas também em alguns públicos. Nas ruas, o granito tradicional tem sido impiedosamente substituído pelo tórrido, feio e pouco saudável asfalto.
Um espaço público agradável
“A Vida é a arte do encontro” (Vinicius de Moraes), mas sem locais aprazíveis, não há encontro, não há vida, não há cidade.
Vemos ruas com largos passeios em que ao longo de centenas de metros não há um banco e nalguns sítios, os que existem, são grandes paralelepípedos de pedra ou cimento, sem costas. Relvados extensos, sem árvores, são bonitos e procurados no verão dos países do norte da Europa, mas não no nosso, em que vemos as pessoas e animais a procurar abrigo numa sombra.
As esplanadas são só para quem pode consumir. Como médico, conheço a pobreza, a solidão e a fragilidade de muita gente. Não saem de casa porque não têm no percurso um banco para descansar, pensar, conversar e em caso de necessidade, não têm acesso a um quarto de banho. Atualmente existem sanitários pré-fabricados, com sofisticados sistemas automáticos de higienização e com um design criativo e adequado aos locais em que são instalados.
A cidade é para todos: residentes, trabalhadores e visitantes, sejam ricos ou pobres, fortes ou fracos, jovens ou velhos.
O convívio em locais públicos é mentalmente saudável, sendo particularmente importante para quem não tem “ontem nem amanhã”.
Identidade e património
O centro do Porto tem sido bem recuperado. Mas não basta. A cidade é muito mais do que o seu pequeno centro histórico, onde vive cada vez menos gente. O resto da cidade, não conta? Constroem-se verdadeiras aberrações, mas um dia poderão ser demolidas. Mas a destruição do património e do caráter da cidade não têm retorno. A perda da memória é o que caracteriza a demência de Alzheimer.
Mas apesar da destruição diária, ainda há muito a salvar. Porque é que não se classifica a casa típica e única do Porto para a proteger? Construída no fim do século dezanove e início do século vinte, com os seus azulejos em vez de cal ou argamassa, as almofadas e caixilhos de granito, ferro forjado nas varandas, foi concebida para resistir durante dezenas de anos aos invernos húmidos e chuvosos da cidade. São admiradas e amplamente fotografadas pelos estrangeiros que nos visitam. Serviram um amplo leque da pequena, média e grande burguesia do Porto. Nos seus quintais das traseiras, há um galinheiro, um poço, uma bomba (roda) manual de tirar água e um tanque de lavar a roupa e quase sempre, pelo menos uma japoneira, uma magnólia, umas canas da Índia, um caramanchão e um ligustro. São o coração do nosso Porto. A alma são os que cá estão.
Recupere-se, reabilite-se em vez de destruir. Construa-se noutros locais, respeitando uma volumetria que não exceda a escala humana e sanitária da cidade. Se o Porto se limitar a um centro histórico que é pequeno e que se transformou numa “praça da alimentação” e o restante for uma floresta de cimento armado, qual irá ser o futuro do turismo?
Outras ideias
Proteção do pequeno comércio local regulamentando a abertura de novos supermercados dentro da cidade, apoio a iniciativas de Comissões de Moradores para a dinamização de espaços recreativos e de convívio e cultura que contribuem para valorizar o património local. Apesar da pobreza e más condições, as “Ilhas” são locais queridos a muitos dos que neles habitam, por vezes há várias gerações. Reabilitemos estes bairros, sem tirar definitivamente quem lá vive. Muito mais haveria a sugerir para manter o Porto como espaço de encontro humano e saudável para o corpo e para a mente.
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
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