Quando o luxo veste o artesanato

0
1

A poucos dias da FIA (Feira Internacional de Artesanato) Lisboa, vale a pena voltar a perguntar o que significa, hoje, falar de e pensar o artesanato. Num momento em que se tornou quase um lugar-comum ver marcas de luxo a recorrerem ao “feito à mão” como linguagem de autenticidade, prestígio e diferenciação – quiçá para se afastarem do flagelo da fast fashion -, o artesanato corre o risco de ser celebrado mais como estética do que como prática viva. A pergunta que importa colocar é simples: estamos perante uma valorização real dos ofícios ou perante uma nova forma de craftwashing?

Analisemos alguns exemplos recentes no universo das marcas de luxo. A Prada aproximou-se da cerâmica como território cultural e trouxe o utilitário japonês para a galeria de arte; a Dior exibe imagens de carteiras de rattan feitas à mão em edições limitadas, perpetuando o seu discurso em torno da mestria artesanal; a Christian Louboutin criou a mala Portugaba, um patchwork de saberes e referências locais da “portugalidade”, transformando-a em objecto de desejo global. A Bottega Veneta criou a Accademia Labor et Ingenium, uma escola para formar artesãos. A Loewe faz do craft um eixo contínuo da sua identidade. A Dolce & Gabbana elevou o “fatto a mano” a espectáculo. Tudo isto diz muito sobre o presente do luxo, onde o artesanal passou de técnica a capital simbólico.

Mas esta tendência levanta outras questões. Quando o artesanato entra no vocabulário do luxo, eleva o seu valor, e também o seu preço. No entanto, esse aumento nem sempre se traduz em melhores condições para quem o produz. Cada vez mais, o que se paga não é apenas o tempo, o saber ou a materialidade da peça, mas também a narrativa, a raridade e a aura de exclusividade que a marca constrói à sua volta. O luxo fala cada vez mais de artesanato, mas nem sempre devolve aos artesãos o valor, o crédito e a visibilidade que proclama defender. É aqui que a fronteira entre valorização e apropriação se torna mais ténue.

Por isso, importa distinguir entre iniciativas que realmente investem na transmissão de conhecimento, na formação de novos artesãos e na continuidade das técnicas, e aquelas que apenas usam o artesanal como verniz de tendência. Entre a homenagem e a apropriação, a diferença está na forma como a marca reparte poder, autoria e remuneração. Falar de craftwashing é falar disso mesmo: da apropriação da estética do feito à mão sem compromisso com os seus protagonistas, sem transparência sobre processos, sem redistribuição do valor real criado.

A FIA Lisboa pode ser o cenário certo para este debate em Portugal. Não apenas como montra de produtos e tradições, mas como momento para pensar o lugar do craft no presente. Entre o artesanato popular, o design contemporâneo e o luxo global, há uma discussão urgente sobre quem define o valor do feito à mão, quem dele beneficia e que futuro queremos para os ofícios artesanais. Num país com uma tradição artesanal tão rica como Portugal, esta é uma questão central.

A atenção da Vogue Portugal ao tema, com a sua The Arts & Crafts Issue de Maio de 2025, confirma que o artesanato ocupa hoje um lugar central neste debate. Resta saber se este regresso será uma oportunidade para reforçar ecossistemas de criação mais justos e sustentáveis, ou se continuará a servir sobretudo como ferramenta de distinção para uma elite. Importa então perguntar: quando o luxo veste o artesanato, quem é que realmente fica visível?

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com