Quase todos dizem ter visto cinema português, mas metade não se lembra do filme

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A esmagadora maioria do público nacional 91% dos inquiridos num estudo divulgado esta quinta-feira diz ter visto cinema português, mas cerca de metade deles não se lembra do filme que viu, além de não ter assistido a qualquer título feito em Portugal no último ano. E quando se perguntou qual o último filme português que os levou ao cinema, à memória vêm Balas & Bolinhos e… Rabo de Peixe. Que é uma série. Parte do sector do cinema português reunido esta quinta-feira nos cinemas Nos Vasco da Gama, na presença da ministra Margarida Balseiro Lopes, soltou uma forte gargalhada. Será caso para rir? Os dados do estudo são contraditórios.

O estudo O Cinema Português aos Olhos do Público foi apresentado na 11.ª edição dos Encontros do Cinema Português, e a sua ficha técnica exige que se olhe para o mesmo com um filtro: é da responsabilidade da área de Market & Customer Intelligence da Nos, a maior distribuidora e exibidora portuguesa, portanto parte interessada no lado solar destes dados, e tem uma amostra de 300 portugueses residentes em Portugal continental, com idades entre os 18 e os 64 anos e que responderam online. A sua base são dados da analista de mercado Gfk. A dimensão da amostra está um pouco aquém do ideal (384 pessoas) para uma maior representatividade da população portuguesa.

O grão de sal adicionado pela Nos, principal operadora do cinema mas também uma das duas grandes da televisão, nota-se nas suas conclusões, quando diz que “o cinema português é visto pela esmagadora maioria dos portugueses, ainda que com baixa frequência e memória limitada” 41% não viu um filme nacional no último ano e o mesmo número não se lembra do que viu. Há ainda um número numa barra a negro: os 5% que rejeitam o cinema nacional.

Tendo em conta os números da exibição em sala em Portugal (em 2025 os filmes portugueses tiveram, segundo dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual, 2,1% da quota de mercado, o que representa perto de 229 mil espectadores num total de 10,4 milhões de bilhetes vendidos), há que encontrar uma explicação para os 91% de espectadores de cinema português a que chega o estudo da Nos. Uma delas é que vêem o cinema português sobretudo na televisão (45%) ou em streaming (24%). Sobram 21% para as salas de cinema. Depois, há questões de percepção.

A avaliação dos inquiridos sobre o cinema nacional é negativa (45% acham-no “chato, aborrecido”, de “baixa qualidade” ou “lento”, por esta ordem) e positiva para 41% dos auscultados (avaliam-no como “bom, interessante” e com “qualidade”). É nesse escalonamento que pela primeira vez se referem à série Rabo de Peixe, da Ukbar Filmes e Netflix, como um exemplo. Mas aqui falamos de cinema. Rabo de Peixe é, como refere Ana Sofia Oliveira, que apresentou o estudo, “o impostor”, o intruso que os autores do estudo mantiveram porque a espontaneidade com que surgia nas entrevistas pode dar ao cinema português “aprendizagens, quer em termos de género, forma e comunicação”.

Nota-se também no inquérito a força de certos fenómenos do cinema português: Variações (2019), A Gaiola Dourada (2013) ou os remakes de clássicos como O Leão da Estrela ou O Pátio das Cantigas estão na ponta da língua de espectadores-inquiridos que gostam sobretudo de comédias e acção/thriller e que dizem não ver cinema nacional por falta de interesse na história (31%), pela ideia de ser “aborrecido ou demasiado intelectual” (26%) e porque “parecem filmes pouco comerciais” (18%). Também relatam não se aperceberem de uma estreia nacional ou de não existirem filmes portugueses suficientes nos cinemas.

Na abertura dos encontros, promovidos pela Nos, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto disse que “o futuro do sector depende da circulação, do acesso, da proximidade e da relação com os públicos” em Portugal.

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