“Querer é poder”

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“Querer é poder!” O recorte de papel, gasto, rasgado de uma publicidade de revista, no tempo em que as publicidades ainda se podiam rasgar, exibe a frase em letras redondas. O resto da publicidade (do que seria? de um carro? de uma agência de viagens?) há muito desapareceu. Só o recorte permanece debaixo do retrato da Avó, que olha diretamente para o obturador da lente, enquanto segura o Pai bebé ao colo, tensa, impaciente, à espera que o fotógrafo despache a gravação pleonástica do momento, no tempo em que as fotografias não eram uma mais-valia de desempenho, nem um acréscimo de valor ao corpo, eram, para mulheres como a Avó, um compasso de espera, nada mais. Avó e Pai são agora dois corpos idos. Mas no retrato, a Avó ficou à espera, para sempre.

Ela precipita-se sobre os ténis gastos, tão gastos como a frase no papel, repete-a, em surdina, como uma oração, dizem que as coisas que se repetem muitas vezes se materializam. Só espera que se materialize em estado sólido, é difícil agarrar coisas em estado líquido.

Corre na direção da estação dos comboios, sem saber porque corre, como se fosse um estado permanente o de estar atrasada para uma coisa a que não chega. Atravessa o atalho do cemitério. Há um homem sentado em cima da caixa de eletricidade, onde passa as noites, a falar com fantasmas, de costas direitas como um aluno bem comportado a quem os fantasmas disseram para endireitar os ombros. Ela larga um pão com duas fatias de queijo na caixa de eletricidade. Desconhece se ele come o pão. Sabe que todos ignoram o homem e a sua loucura, talvez por medo de um dia virem a descobrir que ele conversa com a verdade, e são todos eles, afinal, os loucos.

O sol ainda não nasceu. No comboio que atravessa o rio como uma serpente mecânica e implacável, os peitos encostam-se, acomodam-se uns aos outros, pulmão contra pulmão, forçados a respirar siameses. Dentro da serpente estão centenas de cabeças suadas, com centenas de cabelos a perfurar os escalpes, com centenas de correntes elétricas de pensamentos e memórias. Ouve a voz da Avó chiar nos carris: “Tu vais ser Juíza. Tu podes.” Os olhos de um rapaz encostado a si percorrem-lhe as coxas apertadas nas calças de algodão. Será que ele consegue ver os derrames nas pernas com a sua visão raio X? Sente uma gota de suor a serpentear pescoço abaixo. Lança um olhar fulminante ao rapaz que se encolhe atrás do capuz. “Querer é poder.”

Chega ao escritório, acena ao segurança, veste a bata. As baratas terminam o turno e fogem na direção dos ralos do chão de mármore, que os advogados pisam com os sapatos reluzentes, com a cabeça tão longe do chão que nunca iriam reparar nas intrusas. Ela repara porque é ela quem limpa o chão, para que, às oito em ponto, brilhe como um rio.

Quando perguntavam à Avó como tinham morrido dois dos seus filhos, respondia: “O primeiro morreu de morte, e o segundo foi morto por um bandido.” Morrer de morte era a forma de ela dizer que tinha morrido de uma doença comum naquele tempo, a pobreza. O segundo era o seu Pai.

Guarda para o fim o último piso do edifício, para ver o sol a nascer sobre a cidade. Na secretária, o retrato ilustre e altivo do Chefe, sorri. “Lá onde o teu Pai nasceu, o sol é grande. O sol cá, nem se dá ao trabalho de aparecer.” A Avó provavelmente nunca tinha visto o sol sem ser a partir das janelas do rés-do-chão.

“Querer é poder.” Se apanhar o 738 ainda chega a tempo de beber um café no campus universitário. O edifício da Faculdade de Direito é retilíneo, nobre. Lá dentro, as colegas ultrapassam-na ligeiras, patinadoras, a deslizar no chão brilhante. Ela nota que o chão tem manchas, usaram os produtos errados. Sente que são as suas sapatilhas velhas, equivocadas, que sujam os corredores. Por muito que corra não consegue avançar nas cadeiras da licenciatura à mesma velocidade das colegas. Os turnos invadem as horas de estudo, como as baratas invadem os escritórios. “Querer é poder”, repete. Só queria poder um bocadinho mais.


A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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