O grupo número III do exame nacional de Português do 12.º ano, em que era pedido aos alunos que fizessem uma apreciação crítica de um cartoon de Javad Takjoo, é praticamente igual a um exercício de um livro de preparação para exames da editora Leya. O movimento de professores Missão Escola Pública pede esclarecimentos ao Ministério da Educação.
O exame, que foi realizado na terça-feira por 76.617 alunos (4608 faltaram), pedia o seguinte: “Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica do cartoon, da autoria de Javad Takjoo. No seu texto, deve incluir: a descrição da imagem apresentada, destacando elementos significativos da sua composição; um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspectos relevantes e utilizando um discurso valorativo; uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.”
Seguia-se uma imagem na qual uma menina com um laço na cabeça está sentada num banco, a costurar, com a máquina de costura assente num cavalo de madeira de baloiço.
Já o exercício do livro Exame 2026 – Português 12.º Ano, da autoria de Carla Marques e com edição de 2025, diz o seguinte na página 321: “Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica da reprodução do cartoon de J. J. Takjoo, E se o teu lápis fosse ferramenta contra o trabalho forçado?. O seu texto deve incluir: a descrição do cartoon apresentado, destacando elementos significativos da composição da imagem; um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspectos relevantes e utilizando um discurso valorativo; uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.”
Ou seja, as questões são idênticas, sendo que no enunciado do exame nacional foi retirado o nome do cartoon, que remetia para uma das temáticas que os alunos poderiam abordar na composição: o trabalho infantil. Esta é a questão com a cotação mais alta do exame: vale 44 pontos em 200.
Questionada pelo PÚBLICO, a Leya refere que o livro foi publicado em Agosto de 2025. “O exercício em causa parte da análise de um cartoon do autor — Javad Takjoo, premiado pela Organização Internacional do Trabalho —, à semelhança de exercícios propostos em exames de anos anteriores”, diz a editora, que acrescenta que a autora “não teve, em nenhum momento da sua carreira, qualquer ligação profissional ou de colaboração com o Instituto de Avaliação Educativa”.
Professores questionam ministério
A Missão Escola Pública (MEP) já exigiu esclarecimentos urgentes ao Ministério da Educação. “Após uma breve análise efectuada ao enunciado do exame e ao referido manual, constatou-se que a coincidência não se limita à utilização da mesma imagem, abrangendo igualmente a formulação da questão e o respectivo enquadramento textual. A MEP reconhece que a imagem utilizada no exame – da autoria do cartoonista Javad Takjoo e amplamente divulgada internacionalmente – poderia, por si só, ser seleccionada por diferentes autores. Contudo, quando a coincidência envolve simultaneamente a imagem, o texto de contextualização e a formulação da questão, deixa de poder ser encarada como um mero acaso e exige esclarecimentos públicos.”
Para este movimento de professores, esta situação “coloca em causa a percepção de rigor, equidade e segurança que deve estar associada aos exames nacionais, levantando dúvidas legítimas junto de alunos, famílias e professores”. E exige, por isso, que o Ministério da Educação e o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Eduqa) esclareçam como é que esta “coincidência” surgiu e se existem ou existiram ligações entre autores de materiais de preparação para exames e equipas responsáveis pela elaboração ou validação das provas.
O PÚBLICO já pediu esclarecimentos ao Ministério da Educação, mas ainda aguarda resposta.
Os exames são concebidos com bastante tempo de antecedência, por professores de diversas associações e sociedades científicas, especialistas nas matérias, tendo como referência documentos como o “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”. O processo era, no passado, da responsabilidade do Instituto de Avaliação Educativa, órgão que foi extinto e cujas competências transitaram para o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Eduqa).
A MEP lembra ainda outras preocupações relativas à época de exames, que arrancou esta semana, nomeadamente no que diz respeito à organização e classificação das provas, que será realizada de forma digital, mas sobre a qual há ainda várias dúvidas. Este processo, recorde-se, implicará a mobilização de mais de 5000 agentes das forças de segurança para assegurar o transporte das provas.
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