Nunca conheci a Renata. Anos de emails, apenas isso, frases atravessando cabos e ecrãs, ela na redacção, lendo-me em silêncio, talvez nos dias felizes, talvez quando a vida lhe pesava nos ombros, como pesa a todos, talvez, mais frequentemente, nesses dias sem nome da idade adulta.
A Renata responde sempre. Há nela uma eficácia e uma delicadeza sem aparato. Nunca deixou um email sem resposta. Se tarda um pouco mais, eu assinalo a ausência e ela surge de novo no ecrã, em prosa. Não a conheço, mas posso dizer que gosto dela. Gosto dela porque sei que, de alguma forma, ela me vê através das leituras que faz, e eu vejo-a a ela.
Na semana passada, a Renata disse-me que se ia embora, que deixaria de estar do outro lado do ecrã. E eu espantei-me com a ligeira tristeza que senti ao ver partir uma pessoa que nunca esteve verdadeiramente presente. Surpreendi-me com o estranhar de uma ausência que nunca foi presença.
Então pus-me a pensar que talvez metade daquilo que vemos nos outros seja imaginação nossa, uma coisa que inventamos para tornar o mundo mais habitável. E talvez metade da nossa existência consista em sentir que alguém nos escuta. Mesmo quando somos apenas palavras. Mesmo quando somos ficção.
Obrigada, Renata. Que sejas feliz noutras geografias.
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