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A cantora Roberta Sá está de volta a Portugal, onde faz questão de se apresentar todos os anos, desde que pisou profissionalmente nos palcos há 20 anos. O primeiro show em terras lusas foi no Porto, conta ela. Nesta nova passagem pelo país — a artista cantou ao lado do instrumentista e compositor Yamandu Costa, na terça-feira 9 de junho, em Oeiras —, se apresenta neste sábado, 13, em Espinho, Norte de Portugal. De lá, seguirá para Barcelona e Madri, na Espanha.
Roberta faz questão de ressaltar seu apreço pelo público português, que sempre prestigia seu trabalho, assim como pela comunidade brasileira instalada em território luso. Nesta turnê, a artista apresenta o espetáculo Tudo Que Cantei Sou, em que revisita seus 20 anos de carreira. “Foi importante revisitar a minha história. Vinte anos não são 20 dias. E acho importante também me reconectar com essa cantora que canta um repertório mais intimista. Eu precisei voltar para uma coisa mais introspectiva. E foi muito bom”, diz.
A artista ressalta o bom momento vivido pela música brasileira, muito bem recebida no mundo, em todos os seus estilos. Ela vê a música como um instrumento de resistência, inclusive para a defesa da democracia, tão ameaçada em várias partes do planeta. “A música tem muito a ver com economia e com política. É um meio de comunicação importantíssimo e um meio de resistência também. Acho que a cultura resistir é um instrumento político poderosíssimo”, frisa.
Assim que retornar ao Brasil, Roberta entrará em estúdio para gravar seu próximo álbum de inéditas, mas o lançamento só acontecerá em 2027. Ela destaca que têm procurado fazer tudo dentro de um tempo mais alargado, em contraponto ao imediatismo das redes sociais. “Tenho me obrigado a fazer as coisas mais devagar. O mundo já está muito rápido. Eu tento não sucumbir à essa velocidade que o mundo nos impõe, porque me faz mal. Eu gosto de viver devagar, tenho apreço pelo tempo alargado”, afirma.
No show, Roberta se apresenta ao lado de Alaan Monteiro (bandolim) e Gabriel de Aquino (violão) e, no repertório, estão canções como Eu Sambo Mesmo (Janet de Almeida), Cocada (Roque Ferreira), Pavilhão de Espelhos (Lula Queiroga), Casa Pré-Fabricada (Marcelo Camelo), Fogo de Palha (Roberta Sá e Gilberto Gil) e O Lenço e o Lençol (Gilberto Gil). Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista que a cantora concedeu ao PÚBLICO Brasil.
Você se apresentou no último dia 9 de junho em Oeiras e faz show neste sábado, 13, em Espinho. Como é estar em Portugal?
O show de Oeiras foi uma encomenda da Câmara Municipal, com meu amigo de longa data Yamandu Costa. Essa foi a razão pela qual eu cruzei o Oceano, mas ele se desdobrou para Espinho e para Barcelona e Madri, na Espanha. Será um pequeno giro pela região.
Sua presença em Portugal tem sido constante..
Sim, venho a Portugal há 20 anos, desde o início da minha carreira. O meu primeiro show internacional foi no Porto. Venho sempre a Portugal, assim como para outros lugares da Europa.
Temos visto muitos artistas brasileiros se apresentando em Portugal e no restante da Europa, sempre com plateias lotadas. Como vê esse interesse pela música brasileira?
Acho que o mundo gosta da música brasileira. Tenho a certeza de que se trata de uma cultura muito sedutora. Eu sou completamente apaixonada pela música brasileira. Desde criança e quando comecei a cantar, não enjoo. Acho que é uma fonte inesgotável de inspiração. É uma música que tem muitos caminhos, do mais tradicional ao pop. E a música contemporânea brasileira é muito rica, muito efervescente. Então, acho natural que o mundo redescubra a cada geração e se reapaixone pela cultura brasileira, que é única no mundo. Estamos falando de um país continental, com uma mistura de muitas culturas. Se pensarmos a quantidade de referências que temos dentro da cultura, dos povos que formam essa cultura popular, é muito rico.
É essa diversidade, inclusive, que impacta o público.
Isso é impressionante, muito lindo. Eu tenho um público que é muito leal em Portugal. E fico muito impressionada. Cheguei em Oeiras, a praça onde me apresentei estava lotada, as pessoas cantando as músicas. Isso tem a ver com comunidade brasileira que vive no país, que ajuda. Acho que, quando a gente vem para cá, essa comunidade aparece em peso para matar a saudade. E têm as pessoas daqui, os portugueses, que são apaixonadas pela nossa cultura. E é assim no Brasil, quando um artista português se apresenta lá. Há uma comunidade portuguesa muito grande no Brasil, que lota os shows. Além disso, eu também vejo em Portugal muita coisa do Brasil, na culinária, nos afetos, no jeito de se relacionar. São culturas irmãs.
Flora Negri
Você, inclusive, gravou com António Zambujo.
Gravei, e foi bem no começo das nossas carreiras. Eu conheci o Zambujo no Senhor Vinho. Ele estava lançando o disco que o revelou para o mundo. E tive a sorte de conhecê-lo no comecinho da carreira. Colaboramos juntos, fizemos shows juntos, gravamos no meu primeiro DVD, Pra se Ter Alegria. Depois, gravei com ele no disco que fez em homenagem ao Chico Buarque. Gravamos a canção Sem Fantasia.
Você falou que a cada geração a música brasileira se renova, mas ainda há um peso muito grande de Chico, Caetano e Gil na música brasileira.
Eu acho que essa geração foi brilhante, de uma época que realmente transformou a música brasileira para sempre, não só por causa de Chico, Caetano e Gil, mas também por Ney Matogrosso, Gal Costa, Maria Bethânia, Djavan, Dominguinhos, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Almir Sater, Gonzaguinha. Se você for pensar no que significou essa geração para o país inteiro, foi riquíssima para a construção desse imaginário cultural do Brasil. E, agora, vivemos um novo momento de muita criatividade.
Eu gravei agora com a Dora Morelenbaum, que é uma cantora e uma compositora jovem, filha do Jaques Morelenbaum. Ela é espetacular, assim como o Zé Ibarra, parceiro dela, que também é cantor, compositor e instrumentista maravilhoso. Isso na MPB. Na cena pop, tem a Marina Sena, uma cantora maravilhosa, que tem uma sensualidade, uma liberdade de expressão muito impressionantes. Tem a Anitta, que vem comunicando ao mundo a cultura brasileira, agora, com o Equilibrium, um álbum superbonito, que fala da relação dela com o candomblé. E acho que a gente está vivendo uma oportunidade também com a internet, de ter acesso a muitas coisas.
O Brasil voltou ao mapa da música mundial?
Sim. Já houve muitos momentos, como, por exemplo, com a bossa nova. Acho que agora também vivemos esse momento muito especial, de renovação, com artistas muito importantes e que a juventude consome. O mercado brasileiro de música é muito autossustentável, no sentido de que o brasileiro escuta mais sua própria música do que qualquer outra.
E tem essa questão de a música ser vista como um muro de resistência para a cultura.
Eu costumo dizer que música é diplomacia. A música tem muito a ver com economia e com política. É um meio de comunicação importantíssimo e um meio de resistência também. Acho que a cultura resistir é um instrumento político poderosíssimo. E a música comunica diplomaticamente os valores de um país, ainda mais quando a gente parece esquecer quais são os valores culturais do nosso país, com as ameaças constantes que a gente tem sofrido contra a democracia. A música se transforma num instrumento, nesse caso, poderosíssimo.
O que representa seu novo álbum, que dá nome ao seu show, Tudo que Cantei Sou? O que que você quis com esse projeto?
Eu quis revisitar o meu passado. Fiz 20 anos de carreira e, quando me toquei, falei: nossa, fiz 20 anos de carreira. E montei um show para o Teatro Ipanema, num projeto chamado Terças em Ipanema. Quando me convidaram para o projeto, decidi revisitar meu trabalho, fazer um show de voz, violão, bandolim, um show simples, pequeno. E ficou tão bonito que as pessoas saíam do show e falavam: “Você vai gravar, você vai gravar”. Expressaram esse desejo. E eu gravei na Casa de Francisca, em São Paulo. Foi superbonito. E adorei ter gravado, foi muito bom para mim revisitar essa obra, entender o que que ainda faz sentido para mim, para eu cantar, e o que que não faz mais sentido.
E o próximo disco já está a caminho?
Eu já entro em estúdio agora em junho e julho para gravar meu novo disco de inéditas. Mas, de novo, foi importante revisitar a minha história. Vinte anos não são 20 dias. E acho importante também me reconectar com essa cantora que canta um repertório mais intimista, porque eu estava vindo do Samba Sá, que era um show de samba, um show muito para fora, comunicativo, um show para as pessoas cantarem junto. E precisei voltar para uma coisa mais introspectiva. E foi muito bom.
A ideia é lançar o novo disco ainda neste ano?
Não, neste ano não tem espaço na agenda, nem emocional, nem físico. Ano de Copa do Mundo, de eleições no Brasil. Não tenho cabeça, deixa para o ano que vem. Vou só gravar. E bem devagar. Fazer tudo com calma, até porque tenho uma filha de três anos, e o meu tempo está mais espaçado. Cuidar de uma criança requer tempo.
E fazer um disco também requer tempo.
Sim, mas eu tenho me obrigado a fazer as coisas mais devagar. O mundo já está muito rápido. Eu tento não sucumbir à essa velocidade que o mundo nos impõe, porque me faz mal. Eu gosto de viver devagar, tenho apreço pelo tempo alargado.
Não dá para viver no tempo das redes sociais, de segundos.
Não, isso é uma loucura. Por isso que, como tinha três dias entre o show de Oeiras e o show de Espinho, vim para Vila Real. Vim para casa de uma amiga. Eu falei: vou para o campo, para ficar a minha filha, correndo, vendo galinha, vendo coelho, me conectando com a natureza. E é assim sempre, qualquer oportunidade que tenho, fujo para a roça, para viver esse tempo de dormir cedo, de acordar cedo, de aproveitar o dia, sem ter contato com nenhum tipo de consumo.
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