Num mundo onde a geopolítica e a energia colidem a um ritmo sem precedentes, a Europa depara-se com o gigantesco desafio de equilibrar a segurança de abastecimento, a sustentabilidade ambiental e a acessibilidade dos preços. É o chamado “trilema energético”, um termo que Samantha Gross, especialista em clima e energia do think tank norte-americano Brookings, prefere substituir pela metáfora de um “tripé”. Se nos focarmos excessivamente numa das pernas e esquecermos as restantes, o sistema corre o risco de cair.
Para a especialista norte-americana, a transição energética deve ser encarada com pragmatismo, começando pelas coisas “baratas e rápidas” — como a introdução de baterias e energia solar —, em vez de canalizarmos, desde já, todos os esforços para a descarbonização dos sectores mais complexos, como a aviação ou a indústria pesada. Engenheira química de formação, a base técnica de Gross permite-lhe também desconstruir algumas tendências do momento, confessando o seu cepticismo em relação aos planos actuais da Europa para o hidrogénio verde.
Co-autora de um recente policy paper da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) sobre as soluções para a integração do sistema energético europeu, Gross alerta que os efeitos das tensões globais, exacerbadas por situações como o conflito com o Irão, vieram para ficar. Numa altura em que a Europa procura libertar-se de velhas dependências, recorre a analogias invulgares para explicar a nova geopolítica da energia: estar ligado a um gasoduto russo é como um “casamento”, enquanto importar Gás Natural Liquefeito (GNL) de vários fornecedores é “namorar sem compromisso”, oferecendo uma liberdade de escolha vital.
Nesta entrevista, desconstruímos o futuro energético da Europa, as ilusões tecnológicas a evitar e o desafio da Península Ibérica, uma região privilegiada em recursos renováveis, mas que politicamente e em termos de infra-estruturas, continua a operar como uma verdadeira “ilha”.
O trilema energético é um conceito cada vez mais importante, mas um termo difícil. Como o explicaria?
Nunca fui grande fã do termo “trilema”, mas acabou por vingar. Prefiro pensar nisto como um tripé: para se manter de pé, precisa de três pernas equilibradas. Tem de pensar em manter o equilíbrio entre a acessibilidade económica, a sustentabilidade ambiental e a segurança de abastecimento. Se se concentrar demasiado numa durante muito tempo e perder de vista as outras, as coisas tendem a correr mal. E a segurança de abastecimento é normalmente aquela em que as pessoas menos pensam — até ser a única coisa em que conseguem pensar.
É o que está a acontecer agora. Ursula von der Leyen diz que este é o momento de electrificar a Europa. Sente que há um impulso real, ou que pode dissipar-se se o conflito no Médio Oriente terminar?
Espero que sim, mas também acredito que o conflito no Irão será um motor de mudanças no sistema energético — porque os seus efeitos não vão desaparecer rapidamente. Quanto mais dura, mais problemas cria. E mesmo que o conflito terminasse hoje, levaríamos meses a estabilizar a situação. Torna-se um problema de longo prazo, o que, por sua vez, provoca mais mudanças.
Como avalia a forma como a Europa está a lidar com este desafio?
Vai em várias direcções. A Europa está claramente a avançar mais do que o meu país [EUA], tanto nas energias renováveis como na electrificação — e isso é positivo a longo prazo. O problema é que tanto a economia europeia como a americana continuam muito dependentes dos combustíveis fósseis. Este é um caminho longo.
A vantagem do meu país é que produzimos uma quantidade significativa de combustíveis fósseis. Já a Europa, enquanto forem uma realidade os combustíveis fósseis, terá de importar grande parte do que consome. E isso vai ser sempre um desafio — seja o gás russo, que fazia sentido pela proximidade e pelo preço, seja o gás natural liquefeito (GNL). Por isso, estarem a avançar é uma vantagem, mas o facto de continuarem a importar, e de algumas dessas importações serem provavelmente caras, é uma desvantagem — até chegarem lá.
No estudo fala na distribuição de esforços desta transição entre os países e na percepção dos cidadãos sobre isso. Em Portugal, pergunta-se muitas vezes por que importamos electricidade de Espanha, quando estamos a produzir energia renovável e temos de proceder a interrupções técnicas (curtailment)…
É um bom exemplo de como uma maior integração com a Europa seria benéfica. Se essa electricidade [em excesso] tivesse para onde ir, não haveria necessidade de interromper a produção. Enquanto isso, algures na Europa está-se a usar electricidade produzida a gás, a um preço muito mais elevado.
O melhor cenário para uma maior integração é que toda a Europa possa funcionar com o recurso marginal mais barato — que, quando disponível, serão as renováveis. Não queremos que as renováveis portuguesas sejam cortadas quando há procura algures. E quanto maior conectividade houver, mais frequentemente serão as renováveis a fixar o preço.
Mas isso implica ceder alguma soberania, algo que nem sempre é fácil de aceitar.
Exactamente. E é aí que as coisas se tornam mais difíceis. Não temos os Estados Unidos da Europa. Não se pode forçar os países. Mas o sistema no seu conjunto fica em melhor situação — mesmo que nem todos ganhem sempre da mesma forma.
A Península Ibérica ainda é uma “ilha energética”. Já viu situações semelhantes serem desbloqueadas noutros contextos?
Há outros casos de ilhas energéticas por razões geográficas — e atravessar os Pirenéus não é barato nem fácil. Mas a parte política é difícil. Tem de se encontrar uma forma de toda a gente sair a ganhar. França está a proteger as suas centrais nucleares. Podemos não querer pagar-lhes por serem obstinados (risos), mas talvez haja alguma forma de partilha de custos que faça toda a gente sentir-se melhor.
Como se gerem então as tensões sociais e políticas que resultam desta integração?
É muito complicado. No fundo, resume-se a dinheiro — como quase tudo. Tem de se pensar em como distribuir os custos e os benefícios. Uma região com muitas renováveis pode acabar por conseguir partilhá-las. Isso é bom — evita a interrupção da injecção na rede [curtailment], que é má para todos. Mas em momentos de crise que abrangem uma área mais alargada, os preços locais podem mudar. E é aí que entra a questão de proteger os cidadãos mais vulneráveis, em vez de aplicar medidas genéricas.
Também os sectores de difícil descarbonização dizem que não têm apoio suficiente. Como se faz este equilíbrio, quando todos precisam de apoio e o dinheiro não é infinito?
Tenho passado muito tempo a estudar as indústrias de difícil descarbonização. Há imensas coisas que não se conseguem electrificar facilmente – aviões, produção de cimento. Sou uma firme defensora de descarbonizar primeiro o que é mais fácil, porque este é um sistema cumulativo — é como encher um copo de água. Pode focar-se nas coisas que impedem o copo de encher. Aumentar a oferta de electricidade renovável, electrificar onde é mais simples — aplicações de baixo calor na indústria, por exemplo, ou a renovação progressiva da frota de veículos. Descarbonizar o aço ou a aviação? Isso ficaria para o fim, porque é o mais difícil. Não há nada de errado em começar pelo mais simples num sistema que é cumulativo, porque ficaremos melhor mais cedo se apostarmos nisso.
O armazenamento parece ser uma dessas “peças fáceis” — e no entanto não está em destaque nas prioridades de Von der Leyen.
Fiquei surpreendida. Fui ver a lista de Projectos de Interesse Comum da UE e uma percentagem muito pequena corresponde a armazenamento. Não percebo porquê. O armazenamento de curta duração — baterias — é relativamente fácil: capta energia solar durante o dia e disponibiliza-a à noite, quando as pessoas chegam a casa, ligam as televisões, as máquinas de lavar louça, cozinham.
O armazenamento sazonal, para períodos prolongados de pouco sol ou pouco vento, é muito mais difícil — é necessário ter muita capacidade de bateria para guardar tanta energia. Para a curta duração, nos EUA, estamos a melhorar com painéis solares e baterias, em parte porque é barato e rápido. Barato e rápido é exactamente o que se deve procurar.
E o hidrogénio? É uma solução real ou uma miragem?
Não sou tão optimista quanto muitos na Comissão. O hidrogénio será sempre caro. Dito isto, se tiver renováveis que de outra forma seriam desperdiçadas [curtailed], a equação muda — custa muita energia, mas não custa muito dinheiro se essa energia não tem outro destino. O problema é conseguir que os electrolisadores funcionem apenas com esse excesso, o que também é complicado.
Mas há casos em que faz sentido — os sectores onde não há alternativa fácil, onde se precisa de muito calor, de densidade energética, ou de algo que se comporte como um combustível fóssil. A aviação é o meu exemplo favorito. Para esses casos, o hidrogénio pode ser a resposta. Para tudo o resto, não — custa demasiado.
E a reconversão dos gasodutos existentes para hidrogénio é realista?
Sou engenheira química, por isso consigo explicar uma parte. O hidrogénio é uma molécula muito, muito pequena — tão pequena que consegue infiltrar-se entre os átomos metálicos das paredes do gasoduto, tornando o metal frágil e propenso a fracturas. Não se pode simplesmente pegar num gasoduto de gás natural e fazer circular hidrogénio da mesma forma. Fala-se em usá-los a pressões mais baixas — talvez funcione, não domino os detalhes técnicos todos. Mas reutilizá-los tal como estão é arriscado. E isto não vai mudar: é uma propriedade da molécula de hidrogénio.
Aliás, sou céptica em relação aos projectos de hidrogénio de longa distância que constam das prioridades de Ursula von der Leyen. Porque não produzir o hidrogénio onde é necessário? E porque não transportar electricidade em vez de hidrogénio? Cada vez que se converte hidrogénio em amoníaco e depois de volta a hidrogénio, perde-se energia. Começa caro — e depois ainda piora.
Como pensar sobre as matérias-primas críticas para as tecnologias renováveis, face à crescente competição geopolítica?
Há uma distinção importante em relação à dependência dos combustíveis fósseis. Quando não tenho gasolina, o meu carro não anda. Mas se perder acesso às matérias-primas críticas para as renováveis — os minerais para baterias, os ímanes para as turbinas eólicas —, o que já está instalado continua a funcionar. Só não consigo construir mais. É um risco de segurança, mas de natureza diferente. Há também o risco de desindustrialização — de não conseguir fabricar esses equipamentos na Europa. São riscos distintos, e é importante não os confundir.
A dependência do gás russo foi substituída por uma dependência do GNL americano. Como pode a UE ser estratégica face à instabilidade da Administração Trump?
A forma como costumo descrever isto é: um gasoduto é como um casamento. Há empresas de um lado, há o outro lado, e estão unidos para sempre — até acontecer o que aconteceu com a Rússia e a Ucrânia. O GNL é mais como namorar sem compromisso. Com o GNL, pode-se ir variando. Quando se tem um terminal, pode-se comprar GNL a qualquer fornecedor.
A Europa comprou muito GNL americano por boas razões: tem um bom preço, um mecanismo de fixação de preços diferente de outras fontes, o que é bom para a diversificação, e é uma rota fácil — é uma linha recta da costa do Golfo dos EUA até à Europa. Mas não é obrigada a comprar-nos a nós. Pode comprar a outro fornecedor. O ponto é que a Europa não está casada com os EUA como estaria se houvesse um gasoduto entre nós.
O GNL está a tornar-se mais complicado agora que o estreito de Ormuz está fechado, mas continua a ser verdade que a Europa não depende de um único fornecedor. Tem a liberdade de comprar a qualquer fornecedor de GNL. Os EUA eram a opção mais lógica e há outra vantagem: os contratos americanos tendem a ser bastante flexíveis.
Muitos contratos de GNL têm as chamadas “cláusulas de destino” — o gás tem de ir para onde foi contratado. Os contratos americanos não costumam ter isso. Por isso, foi possível redireccionar o GNL americano para a Europa quando a Europa precisava. Podia-se, literalmente, inverter a rota dos navios em pleno oceano. É curioso — quem ganhou muito dinheiro nessa altura não foram necessariamente as empresas americanas de GNL. Foram os traders. As pessoas que montaram a logística para desviar esses navios.
Assim passa a fazer sentido ter contratos de longo prazo, como o que a EDP tem até 2036?
Esta tem sido uma grande questão em toda a Europa desde 2022. A Comissão tem ambições muito claras sobre quando a UE deixará de usar gás. Mas, por outro lado, um contrato de longo prazo dá estabilidade — evita estar sujeito às volatilidades do mercado spot [expressão utilizada no contexto das bolsas de mercadorias, para transacções em que a entrega da mercadoria é imediata e o pagamento é feito à vista].
Tem sido uma decisão muito difícil em toda a Europa desde que isto [a invasão da Ucrânia pela Rússia]. Mas continua a ser verdade que a UE não depende dos EUA da mesma forma que dependia da Rússia — porque pode comprar a outro fornecedor. É a explicação mais simples e mais correcta.
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