Santos Pereira não vota sobre subida de juros pelo BCE mas deixa alerta contra demora

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O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, vê alguns efeitos na economia que podem justificar uma subida de juros na reunião do Banco Central Europeu (BCE) de Junho. Contudo, não defende abertamente esse aumento, diz que é preciso olhar para os dados actualizados que vão ser divulgados, mas avisa que é preferível “actuar mais cedo do que mais tarde”. Nesse encontro, Santos Pereira vai poder discutir essa evolução no encontro de governadores, mas não terá direito de voto sobre a evolução dos juros.

Embora não tenha sido definitivo na entrevista que deu à Antena 1 e ao Jornal de Negócios, Santos Pereira deixou claro que está preocupado com uma eventual demora nas decisões de política monetária, que possa contribuir para exacerbar efeitos de segunda ordem do conflito no Médio Oriente, como subidas persistentes de preços.

“É importantíssimo actuarmos rapidamente quando existem indícios de que os preços vão subir, do que estarmos à espera que as coisas vão melhorar e que não haja, por milagre, quaisquer efeitos de segunda ordem”, declarou Álvaro Santos Pereira nessa entrevista.

A próxima reunião de política monetária do BCE, que decide mexidas de taxas de juro como arma para manter a inflação em 2% no médio prazo, está agendada para 10 e 11 de Junho. Até aqui, vários membros da cúpula da autoridade monetária têm vindo a mostrar-se favoráveis a uma subida de juros, como a alemã Isabel Schnabel, tendo em conta os riscos de inflação que se estão a verificar.

Inflação prolongada assusta

“Temos de olhar para os dados muito concretamente, mas também acho que mostrámos – e isso aconteceu no passado recente – que vale mais actuar mais cedo do que mais tarde, para não termos efeitos de segunda ordem maior. É importante quando existem espirais inflacionistas possíveis, prefiro que actuemos mais rapidamente e decididamente para termos menores impactos na inflação”, repetiu à Antena 1 e Jornal de Negócios.

“Se os efeitos de segunda ordem forem significativos e prolongados, é natural que a inflação vá ser mais prolongada e que a política monetária vá ter de ser adaptada para isso”, começou por notar. Na sua perspectiva, há dois tipos de choques na oferta a acontecer: o negativo, na energia, devido ao estrangulamento do Estreito de Ormuz; e o positivo, com a inteligência artificial a aumentar a produtividade e a diminuir pressões de preços. Só que, na zona euro, sente-se pouco esse impacto positivo, estando muito mais presente o efeito do choque da oferta na energia.

“É natural que a política monetária tenha em principal atenção, neste momento, se a produção ainda não está a ser muito afectada, e a inflação está, a política monetária tem de ter isso em linha de conta”, segundo o governador. A inflação subiu para 3% em Abril na área do euro, face a 2,6% em Março. O fim imediato do conflito não tiraria todas as pressões de cima da mesa, alerta Santos Pereira, mencionando os impactos não só nos combustíveis, como no hélio e nos fertilizantes.

Segundo declarações transmitidas pelo jornal especializado em política monetária Econostream, o líder do banco central da Bulgária também alertou para os riscos do BCE em actuar tarde na política monetária, sendo que o presidente do banco lituano disse acreditar numa subida de juros em Junho, considerando até mais provável um outro aumento numa reunião seguinte. Da Grécia e de Itália também vieram sinais de preferência por um aumento da taxa de juro, actualmente em 2%.

Sem voto

Apesar destas palavras, Santos Pereira não vai ter poder de voto na reunião de Junho. Como ocorre em todas as reuniões do BCE desde que houve um alargamento da zona euro, em 2015, os governadores dos países da moeda única vão rodando o direito de voto – podem dar a sua opinião, mas não têm todos direito de voto.

Áustria, Portugal, Eslovénia, Eslováquia e Finlândia são os países excluídos de voto em Junho. Santos Pereira recupera o voto em Julho, quando houver a reunião seguinte de política monetária do BCE. De qualquer forma, as discussões de Frankfurt procuram que as decisões sejam tomadas por unanimidade.

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