A luz entra em faixas recortadas pela grade da janela, projetando-se na parede escura, como um código de barras numerado de um a 24, que pauta as horas nesta cela curta de espaço e longa de silêncio. O ferro da cama range quando me mexo. Quando a cabeça se esvazia, esse som é a minha única companhia.
Mexo-me mais até ouvir os passos do guarda no corredor, a aproximar-se para perceber se está tudo bem. Penso na palavra “preso” e no seu peso para quem, dia após dia, olhava para a janela, imaginando como seria voltar a estar para lá destas grades. Levanto-me e, num passo, chego à porta apenas encostada. Abro-a e saio para o corredor muito bem iluminado, onde leio, na parede, o recado de Fernando Pessoa: “Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.”
O antigo estabelecimento prisional de São Pedro do Sul é, desde 21 de fevereiro de 2025, o Centro de Desenvolvimento Cultural e Inovação Social, integrando a biblioteca municipal. Para preservar a memória coletiva, foi mantida uma das celas da ala masculina, cumprindo exemplarmente a metáfora de vidas outrora aprisionadas, agora devolvidas à cultura e ao conhecimento que as liberta.
Eduardo Nuno Oliveira, técnico superior na Câmara Municipal de São Pedro do Sul, faz um apanhado da história do edifício: “Este edifício foi inaugurado como prisão, creio que em 1946. Foi construído porque, antes, a cadeia funcionava num dos cantos do edifício dos Paços do Concelho: por baixo, a cadeia, por cima, a sala do Tribunal. Isto manteve-se, julgo eu, até aos anos 30 do século passado. Entretanto, o espaço tornou-se desadequado e surgiram decisões do Ministério da Justiça para a construção de novas cadeias, nomeadamente em São Pedro do Sul. É um edifício do Estado Novo, dos anos 1940, com a arquitetura chamada ‘português suave’, marcada por alguma monumentalidade, sobriedade e linhas mais direitas, e funcionou como estabelecimento prisional até cerca de 2003. Foi um espaço de importância social na comunidade: quando as pessoas estavam aqui detidas, os familiares vinham às visitas e dinamizavam o comércio local. Foi desativado e transformou-se neste centro cultural que inclui a biblioteca.”
Deixo a sala de leitura em direção à sala multiusos, de onde chegam vozes misturadas de adultos e crianças. É aqui que decorre o clube de xadrez, às quartas-feiras e aos sábados.
“A afluência é ótima. Para ter uma ideia, nós temos dez tabuleiros, ou seja, dá para dez pares, que vão rodando. Os tabuleiros estão sempre preenchidos e com gente à espera. É para todas as idades, desde que saibam ler e escrever, e não há inscrições: as pessoas vêm àquela hora, sentam-se e jogam. Os que já sabem ensinam aos que não sabem, mas temos um professor voluntário, o Nuno Barros, que vai dando as orientações necessárias para o jogo, explica as regras e tudo o que é o xadrez”, explica Elisabete Rodrigues, técnica superior da biblioteca, onde trabalha há 23 anos, sendo atualmente responsável pela programação, organização e dinâmica das atividades.
Até há um ano e dois meses, a biblioteca resumia-se a uma sala de leitura ao lado da câmara municipal. “Agora temos este espaço maravilhoso, digno de uma biblioteca. E tudo o que aqui está estava numa sala open space, imagine como era…”, acrescenta com um misto de alívio e de orgulho na voz e no olhar.
Antes do clube de xadrez, realizou-se a oficina “Linhas, Pontos e Forma Visual»”, atividade de periodicidade semanal que engloba várias artes manuais, desde a costura ao croché. “Também aberto a todos, mas os miúdos mais pequenos têm de vir com a família por causa das agulhas e das tesouras. Há pessoas de outras localidades que estão alojadas nas termas ou só de passagem e que participam, o que é muito enriquecedor, porque nos trazem outras formas de costurar e nós aprendemos coisas novas. Depois, também temos o clube de leitura, que se realiza uma vez por mês, e a Universidade Sénior, que utiliza a biblioteca para algumas aulas.”
Robert Schmidgall joga xadrez com a filha de nove anos. “Viemos nas férias da Páscoa e, ontem, quando vim à biblioteca fazer o check-in, pedi sugestões e falaram-me do clube de xadrez. Hoje, como choveu, viemos. Estou a ensiná-la, costumamos jogar em casa”, explica o engenheiro alemão, reformado recentemente.
Na mesa ao lado, Benedita, de oito anos, pergunta-me porque tiro fotografias aos tabuleiros. Digo-lhe que a vim ver jogar.
— Gostas de xadrez?
A pergunta fica sem resposta. O silêncio da vergonha fala mais alto, como um peão parado no meio do tabuleiro, receoso de avançar.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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