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A poucos meses de encerrar mais de quatro décadas de carreira, o Sepultura subiu ao palco do Rock in Rio Lisboa para uma despedida que Andreas Kisser faz questão de descrever sem dramatização — e sem hesitação. “Arrependimento zero”, afirmou o guitarrista, em entrevista ao PÚBLICO Brasil, ao ser questionado se a decisão de pôr fim à banda chegou a pesar em algum momento da turnê. “Tudo é consequência do que a gente anunciou e trabalhou para fazer. Não adianta agora a gente falar: ‘Ah, tá legal, eu vou continuar’, porque a gente estaria se enganando também.”
A turnê de despedida, batizada de Celebrating Life Through Death, percorre festivais de verão europeus antes de chegar à reta final no Brasil. A passagem por Portugal tem peso simbólico: foi em Lisboa, neste fim de semana, que o quarteto formado por Derrick Green (voz), Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo) e Greyson Nekrutman (bateria) se despediu do público português. “Bom estar aqui no Rock in Rio Lisboa para fazer essa despedida com os fãs portugueses, que são importantes da nossa história, sem dúvida”, disse.
Kisser recordou a primeira vinda ao país, em 1990. “Eu me lembro que estava muito emocionado de vir para Portugal pela primeira vez. Sempre fomos muito bem recebidos aqui, independentemente da formação que a gente teve”, frisou.
O que pode parecer uma decisão repentina, segundo o guitarrista, foi resultado de uma longa maturação. “Foram dois anos antes do anúncio, de falar com todo mundo — com a família, com a banda, com os managers — para ter certeza de que esse era o caminho mesmo. E assim foi feito”, contou.
O resultado, destacou, superou a expectativa. “Está sendo muito melhor do que eu imaginava. A gente não está com um clima triste nem melancólico. Estamos tocando três músicas do EP novo, celebrando o momento atual da banda, e não só se espelhando no passado”, frisou. O trabalho mais recente, o EP The Cloud of Unknowing, foi lançado em abril. Para Kisser, manter a banda criando até o fim era inegociável: “Fazer o que a gente está fazendo hoje, com o Greyson, que trouxe as ideias e a vibe dele, foi muito importante antes de a gente acabar.”
Ele observou ainda que a despedida tem levado ao show um público que nunca havia visto o Sepultura ao vivo. “Muita gente está vindo ver o Sepultura pela primeira vez. Esse ‘farewell’ tem tirado muita gente de casa”, assinalou.
Pionerismo e política
Indagado se o Sepultura abriu caminho para a internacionalização da música brasileira — tão presente nesta edição do festival —, Kisser não titubeia em reivindicar o posto de precursor. “O Sepultura, sem dúvida, é um dos pioneiros. A banda começou em 1984, ainda no final de uma ditadura no Brasil”, disse.
Ele creditou a longevidade à coerência artística: “A gente sempre foi muito verdadeiro e fiel ao que quis fazer. Nunca fez nenhuma concessão artística. Não ter medo de fazer um Roots, por exemplo, de chamar um Carlinhos Brown, de usar instrumentos tribais, elementos indígenas e até da música japonesa numa música de heavy metal.”
Sobre o atual momento de polarização política no Brasil, o guitarrista defende uma atuação pela base. “A coisa da política está em todo lugar, sempre teve. Essa coisa de direita e esquerda são conceitos que as pessoas defendem de uma forma até agressiva, que mais querem gritar do que ouvir. A música vem também para isso: para unir.” E completou: “Tem que ser de baixo para cima. Faz o seu. É da coisa pequena, ali da semente, que vai mudar. Não vai ser lá de cima, o presidente, ou um cara que vai passar a caneta e mudar alguma coisa”.
Para Kisser, o rock segue relevante justamente por seu caráter de liberdade, e aponta o heavy metal como o estilo “mais democrático”. “Vê-se a inclusão: quantas mulheres estão participando de bandas no Brasil, fazendo carreiras internacionais; um homossexual como o Rob Halford, do Judas Priest, não foi cancelado pelo público do heavy metal, que respeita e abraça as diferenças. O rock sobrevive porque é autêntico, significa liberdade.” Há 14 anos ele mantém um programa de rádio em São Paulo: “Lá eu abro 80% do espaço para bandas novas.”
Os dois legados e a vida depois
Provocado sobre a coexistência de duas “frentes” da história do grupo — a atual e a dos irmãos Max e Iggor Cavalera, que também tocam o repertório do Sepultura —, Kisser se esquiva da comparação. “Eu não perco meu tempo fazendo esse tipo de análise; deixo vocês fazerem isso. O legado é você que escolhe, que guarda, ou que leva para frente. Isso fica com cada um”, ressaltou. Ele recorreu a uma metáfora: “O Motörhead, para mim, vai estar vivo pelo resto da minha vida. A banda não existe mais, mas o legado vai ficar comigo. É uma coisa muito pessoal.”
O capítulo final terá dois atos no Brasil. Em 5 de setembro, no Rock in Rio, a banda fará um show inédito dedicado exclusivamente à era Derrick Green — um pedido antigo dos fãs. “O Rock in Rio sempre deu a oportunidade de fazer shows exclusivos e importantes, como o com Zé Ramalho e com Les Tambours du Bronx. Era uma coisa que muito fã pedia e a gente nunca teve oportunidade de fazer. Veio o momento certo agora.” O ponto final será em 7 de novembro, na Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo.
E depois? “Vou ver quando chegar. A gente está curtindo o momento”, respondeu, antes de enumerar os projetos paralelos que já mantém — De La Tierra, Kisser Klan e a rádio — e, sobretudo, a causa que abraçou após a morte da esposa, a médica Patrícia Kisser, vítima de câncer em 2022.
Kisser é fundador do movimento Mãetrícia e do festival beneficente Patfest, voltados ao debate sobre finitude e cuidados paliativos, e integra a associação Eu Decido, que defende a legalização da morte assistida no Brasil. “Quero me dedicar mais tempo a isso também, e abrir espaço para as novas possibilidades”, frisou.
Sem melancolia e sem promessas de retorno, ele reafirmou a serenidade da escolha: “A gente combinou, planejou e trabalhou muito duro para que pudesse acontecer dessa forma. E está muito melhor do que a gente imaginava”, destacou.
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