Siegfried, “herói operário”

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“Wagner conseguiu realizar na música aquilo que o espírito revolucionário moderno pretende efectuar no campo sociológico”… “A alma dum artista e dum revolucionário são irmãs: caminham juntas na mesma ânsia de beleza” – lê-se no jornal anarcossindicalista A Batalha (1921). Esta linha de receção de Wagner, republicana, socialista e anarcossindicalista, vem sobretudo da tetralogia O Anel do Nibelungo e do seu principal protagonista: Siegfried. Por ocasião da estreia em Portugal d’O Anel nas vésperas da revolução republicana (1909), António Arroio vê em Siegfried, “o libertador de toda a humanidade”, símbolo de todas as revoluções: mormente a francesa de 1789 e, em Portugal, a liberal de 1820 (jornal A Lucta, 1909).

Em 1923, com o regresso ao São Carlos de A Valquíria e Siegfried (seis e quatro representações, respetivamente), Siegfried ressurge como “redentor socialista do império odioso e vil do capital” (António Joyce, O Século, 1923).

Nas páginas de A Batalha, onde Ferreira de Castro proclamava (em defesa do romance social) que “só o trabalho é hoje verdadeiramente épico” e que “os operários são os verdadeiros heróis contemporâneos”, a apropriação de Siegfried como herói operário consuma-se no 1.º de Maio de 1926: na capa, a cores, preenchendo-a totalmente, Siegfried, liberto das grilhetas que o escravizavam, enfrenta, de martelo em punho, o dragão capitalista (na contracapa é representado um trabalhador agrícola junto a uma enxada, de braços abertos, como implorando por uma boa colheita…).

Imagem do jornal A Batalha de 1 de Maio de 1926
DR

Seja qual for a obra de arte, as intenções do autor podem ser verbalizadas, mas o que conta é a sua objetivação na partitura (tratando-se de música). A obra torna-se autónoma das intenções, para se reconstruir sempre de novo em cada realização, por determinados intérpretes, num determinado contexto e para um determinado público. A reabertura da produção de sentido é válida para o próprio autor, ao confrontar-se com obras suas entretanto dadas por “concluídas”.

A oposição entre Parsifal e Siegfried, em Lisboa, nos anos 1920, é um exemplo de apropriações de sinal contrário suscitadas pelos dramas musicais wagnerianos. E, no entanto, há linhas de continuidade em Wagner que prevalecem sobre aparentes contradições ou ruturas. Tal como Siegfried, Parsifal tem traços do “bom selvagem” de Rousseau: “torna-se sábio através da compaixão” – sentimento que também a Enciclopédia de Diderot considera a mãe de todas as virtudes. Mas de compaixão fala igualmente Schopenhauer em crítica a Kant, que fundamentava toda a virtude na reflexão abstrata: “…o puro amor é, segundo a sua natureza, compaixão. ….Em contradição direta com Kant, dizemos: o mero conceito é para a autêntica virtude tão infrutífero como o é para a autêntica arte: todo o amor verdadeiro e puro é compaixão” (Arthur Schopenhauer, O mundo como Vontade e Representação).

Em 1848 Wagner já tinha estabelecido a relação entre Siegfried e Parsifal, como se a quinta jornada da Tetralogia fosse a derradeira ópera de Wagner, estreada em 1882:

“Quão atrozmente inumano se tornou, porém, o conceito de propriedade no nosso usurário mundo maquinizado das fábricas, onde, em bom rigor, só há pessoas na medida em que o capital as deixa ser pessoas!” – escreve Wagner em 1848.

“Quem, com abertura dos sentidos e coração liberto, será capaz de olhar durante uma vida inteira para este mundo de chacina e roubo organizados e legalizados pela mentira, a fraude e a hipocrisia sem, de tempos a tempos, ter de lhe voltar as costas arrepiado de repugnância?” – escreve ele em 1882.

“Wagner era todo Política; esperava da vitória da Revolução um completo renascimento da arte, da sociedade, da religião, um novo teatro, uma nova música! Informou-se sobre os mais conhecidos chefes democráticos em Viena e fez-se conduzir… a uma reunião democrática” (Eduard Hanslick, 1894, recordando uma visita de Wagner a Viena em 1848).

“Desde que morreu o meu amigo Bakunine” – diz Georg Herwegh em carta a Ludwig Feuerbach (dezembro de 1851) – “não conheço ninguém, além de ti e Wagner, que possua um Naturel verdadeiramente revolucionário, quer do lado dos sentimentos, quer do entendimento”. É pela mão do mesmo Herwegh que Wagner começa a ler em 1854 a obra de Schopenhauer…

No centenário do 1.º de Maio de 1926 e no 150.º aniversário da estreia integral da Tetralogia em Bayreuth, pergunta-se: quem foi que disse que “a compaixão é tóxica para a economia”?

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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