Na primeira vez que fez uma ecografia aos ovários, Beatriz descobriu que pareciam “cachos de uvas”. Como tinha outros sintomas – períodos irregulares, dores, pêlos grossos na cara que a deixavam tão incomodada que nem apanhava o cabelo para ninguém reparar –, “foi muito fácil identificar o que era”, conta ao P3 a jovem de 29 anos. O diagnóstico foi-lhe dado pela médica endocrinologista: síndrome dos ovários poliquísticos (SOP).
Esta perturbação hormonal e metabólica afecta uma em cada oito mulheres e é uma das principais razões para se ter dificuldades em engravidar. Estima-se que cerca de 70% das mulheres com esta síndrome não sabem que a têm ou não têm um diagnóstico oficial, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). “É uma síndrome ainda desconhecida, mas frequentíssima”, resume a médica endocrinologista Sílvia Saraiva.
Os sintomas diferem muito de mulher para mulher, mas há alguns mais comuns: ciclos menstruais irregulares, ausência de menstruação, acne ou hirsutismo (excesso de pêlos mais grossos na face, no peito, abdómen ou pernas). As ecografias ginecológicas podem mostrar também o ovário com “quistos”, mas nem sempre acontece. “O nome surgiu à volta dos quistos, mas a síndrome é muito mais do que isso”, comenta a médica ginecologista Liliana Gomes. Essa foi uma das razões para que esta síndrome recebesse no mês passado uma nova designação, para ser mais fiel aos sintomas: passou a chamar-se síndrome metabólica poliendócrina do ovário (SOMP).
Ao contrário do que aconteceu com Beatriz, muitas vezes a identificação desta síndrome não é assim tão simples. O facto de ser uma doença complexa e com sintomas muito diferentes gera confusão e atrasos no diagnóstico. Foi o caso da assistente social Ana Neves, que tem 28 anos e lida com dores menstruais intensas desde a adolescência. Há dez anos, procurou ajuda profissional, mas não obteve as respostas que esperava: “A minha médica de família desvalorizou os sintomas, dizia que era normal ter dores menstruais e pêlos a mais.”
Por isso, tentou adaptar-se. Não foi fácil: acabou por se sentir com menos auto-estima por causa da acne e dos pêlos mais grossos. “Era barba de homem, mesmo”, descreve a jovem, natural da Guarda. Já as dores menstruais eram tão “excessivas” que a obrigavam a faltar às aulas e, mais recentemente, ao trabalho – algo que considera que ainda não é “bem visto” e que continua a ser muito incompreendido. Mesmo com medicação, tem dores fortes ao ponto de causar vómitos, o que a fez recorrer por várias vezes às urgências. Quando esteve de baixa por causa das dores incapacitantes, sentiu “estigma e falta de compreensão” por parte da sua entidade patronal.
O diagnóstico da síndrome dos ovários poliquísticos só chegou anos depois da consulta com a médica de família. Foi em 2022, altura em que foi encaminhada para uma médica endocrinologista: “O diagnóstico demorou muito tempo”, recorda Ana Neves, explicando que poderá ter contribuído o facto de não ter quistos visíveis nos ovários. Mas, quando soube o que tinha, “foi um alívio”, refere a assistente social. “Assim sabia que era algo que já estava a ser estudado, fez com que não me sentisse sozinha e pude procurar informação por outras fontes”, conta.
Já Margarida continua até hoje sem certezas. Foi diagnosticada com síndrome dos ovários poliquísticos quando tinha 19 anos (hoje tem 28). Na altura, “nunca tinha ouvido falar naquele nome tão complicado”. Explicaram-lhe que poderia ter dificuldades em engravidar, que era esta a causa das suas dores menstruais e foi-lhe receitada uma pílula específica para SOP.
Só que, há alguns anos, repetiu a ecografia com uma outra médica e disseram-lhe que, afinal, não deveria ser este o problema. Não tem acne, nem hirsutismo nem quistos aparentes nos ovários. “Fiquei espantada quando me disseram que estava tudo ok”, conta ao P3. As conclusões diferentes deixam-na confusa, ainda mais quando suspeita que possa ter endometriose. “Ninguém me consegue dizer o que é que se passa ou não”, suspira, dizendo que já passou por vários médicos e que nunca chegou a fazer análises hormonais. Este mês voltará a ter consulta com a ginecologista, em que tenciona voltar a fazer todas estas questões para ver se consegue ter um “diagnóstico cabal”. Quer compreender o que se passa com o seu corpo.
Independentemente do diagnóstico, Margarida lida com “dores horríveis” e ciclos irregulares. Na altura da pandemia, teve sangramentos vaginais durante seis meses seguidos (que podem ser um sintoma de SOP), e ficou com anemia. Quando tem a menstruação, sobretudo nos primeiros dias, “o fluxo é imenso e é muito desconfortável”. O fluxo abundante faz com que fique com a roupa manchada e tem até de acordar durante a noite para se mudar. Para aguentar as dores, toma “doses cavalares” de analgésicos.
Quando está no trabalho, não se sente à vontade para comentar a sua situação por ainda ser um “assunto tabu”. “Sinto que é um esforço muito grande com tudo o que acontece no meu corpo ter de me manter operacional.” De certa forma, sente que não tem alternativa. “Cresci com as dores, sempre tive de ultrapassar vários momentos da vida com dores”, conta. “São anos e anos sempre com dores.”
Além dos quistos
A endocrinologista Sílvia Saraiva refere que é normal os sintomas díspares e a dificuldade no diagnóstico criarem alguma confusão (e frustração) nas pacientes. “Os ovários poliquísticos têm muitas formas de se manifestar e de formas diferentes ao longo da vida”, explica, dizendo que há “imensos” casos de mulheres que têm esta síndrome e não sabem. A médica Liliana Gomes concorda, dizendo que “esta síndrome é muitas vezes um diagnóstico de exclusão.” Segundo as médicas ouvidas pelo P3, muitas mulheres só se apercebem desta desregulação quando deixam de tomar a pílula ou quando tentam engravidar.
A mudança de nome da SOP para síndrome metabólica poliendócrina do ovário surge porque a anterior designação era “imprecisa”, por implicar a existência de quistos nos ovários, o que nem sempre acontece, ocultando “diversas características endócrinas e metabólicas e contribuindo para o atraso no diagnóstico, a fragmentação dos cuidados de saúde e o estigma”, lê-se no estudo publicado na revista científica Lancet em que foi anunciado o novo nome.
“O que é mesmo importante nesta mudança do nome é que vai obrigar a que se valorizem todos os componentes. Já não é só o ovário”, considera Sílvia Saraiva. Assim, os profissionais com menos experiência nesta área “acabam por ficar mais atentos para a necessidade de tratar esses múltiplos factores”.
Além do impacto no bem-estar e na saúde mental das mulheres, esta doença pode também trazer outros perigos para a saúde física, como a resistência à insulina, a diabetes e a propensão a ganhar peso – alguns destes factores também podem contribuir para um maior risco de hipertensão, colesterol e doenças cardiovasculares. “É um círculo vicioso”, descreve Sílvia Saraiva.
“Um muro”
A médica Liliana Gomes reconhece que um dos principais problemas no diagnóstico e no alívio de sintomas – desta síndrome, mas não só – é “a falta de tempo nas consultas”. E diz ainda que há casos em que as mulheres procuram ajuda para o seu problema junto de profissionais de saúde e que “encontram um muro”. Tanto Margarida como Beatriz sentiram essa barreira nas suas consultas. Dizem que houve muitos momentos em que não foram ouvidas e em que alguns dos seus sintomas foram desvalorizados.
Ana Neves também não encontrou as respostas de que precisava junto dos profissionais de saúde, que não descartam que possa ter endometriose ou algum problema relacionado com a tiróide. Os médicos limitaram-se a aconselhar a pílula anticoncepcional, diz, “que mascara os sintomas, mas não vai tratar da doença”. Ainda experimentou duas diferentes, mas sentia que exacerbava as suas alterações de humor e alguns dos sintomas. Foi de si que partiu a iniciativa de falar com os médicos para tentar adaptar a alimentação e fazer mais exercício físico. E é por isso que sente que falta uma “análise mais holística” no tratamento da SOP. “A alimentação, o exercício físico, o estilo de vida em si tem sido a estratégia que eu tenho adoptado e que atenua mais os sintomas do que um fármaco, pelo menos no meu caso.”
Beatriz sentiu algum “conforto” com o diagnóstico, até porque sempre soube que tinha algo de diferente das outras raparigas, mas diz que este rótulo pouco mudou a sua vida. “Eu sabia o que tinha, sim, mas não alterou nada. Continuo a ter dores, continuo a ter mais pêlos. A única solução que nos dão é a pílula – que não é uma solução”, refere, dizendo que deixou de tomar devido a problemas circulatórios.
Nos casos de Margarida, Ana e Beatriz, a pílula foi sempre receitada. “Tipicamente é dada uma pílula que resolve esta sintomatologia, mas não vai tratar a questão”, explica a ginecologista Liliana Gomes. “Não é que seja um erro dar a pílula, mas estamos a adiar um problema.” Já a endocrinologista Sílvia Saraiva concorda que, depois de se tentar alterar o estilo de vida, a pílula poderá ser uma excelente aliada para lidar com algumas das complicações desta síndrome. Há também outras medicações que podem ser administradas para tratar características androgénicas ou para diminuir a resistência à insulina.
Além da incerteza do diagnóstico, há também o problema de ser mais difícil engravidar. “Estou a pensar ter filhos em pouco tempo e não sei como é que vai ser”, desabafa Beatriz. Ana Neves também não tem filhos, mas pretende ter – só que as dificuldades que poderá encontrar assustam-na. Com esta incerteza em torno do seu diagnóstico, Margarida admite que anda a pensar em congelar óvulos. Quer ter filhos, mas de momento não tem companheiro e teme ter dificuldades a engravidar no futuro por causa dos seus sintomas. Apesar de as pessoas com esta síndrome poderem ter uma dificuldade acrescida em engravidar, Sílvia Saraiva garante que é possível – pode ser só mais demorado.
O que pode ser feito?
Não havendo uma cura, o que pode ser feito para amenizar os sintomas? “É extremamente importante para uma mulher com ovários poliquísticos ter uma vida saudável”, refere a endocrinologista Sílvia Saraiva, directora clínica da Clivip, em Lisboa.
A médica Liliana Gomes acredita que “80% do tratamento vai ser trabalho de casa da paciente”: fazer exercício físico, ter uma boa higiene de sono, ter uma alimentação saudável. É preciso uma “abordagem mais integrativa desta síndrome”, diz. “Muita da terapia para acalmar os sintomas e, de alguma forma, prevenir doenças futuras é o estilo de vida”, afiança.
Sentir-se ouvida também conta, ainda mais quando é difícil chegar a um diagnóstico preciso. Pelo menos no caso de Ana Neves: “É muito importante as redes de apoio e as redes sociais onde ouvimos testemunhos de quem sente o mesmo que nós.”
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