Solidariedade litoral-interior: a pista da água

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As recentes cheias no Baixo Mondego puseram em evidência várias dificuldades e exigências do território da região Centro, a que gosto de chamar “as Beiras”. Mas, simultaneamente, podem constituir uma inspiração para um velho problema, em agravamento constante, que é o do desequilíbrio entre o litoral e o interior do País.

Explicando: a orografia do nosso país faz com que os sistemas montanhosos se situem quase todos no interior, onde nascem rios que correm para ocidente, diretamente para o Atlântico, ou somam as suas águas às de outros rios que tomam o mesmo caminho. O Mondego nasce na serra da Estrela e desagua na Figueira. O Vouga nasce na serra da Lapa (Sernancelhe) e leva a água para Aveiro. O Paiva na serra de Leomil (Moimenta da Beira) até Castelo de Paiva, onde desagua no Douro. O Ceira na serra do Açor (Arganil) vem engrossar o Mondego em Coimbra. O Zêzere traz água desde Manteigas a Constância, já no Tejo.

Temos, assim, a realidade de um interior desertificado e empobrecido que fornece todos os dias e noites um bem precioso ao litoral populoso e mais rico.

Quando o fornecimento é excessivo, há cheias, prejuízos, evacuações de pessoas e o litoral exige medidas urgentes. A comunicação foca-se nesses territórios e nas suas lideranças. O Governo do país ressuscita projetos de mais barragens de betão. Para conter o excesso.

Este é, portanto, um fenómeno de perda dupla, logo total. O interior perde, o litoral idem, o país a dobrar.

Ora, é uma evidência que o interior das Beiras está profundamente fragilizado pela aridez que os incêndios (entre outras causas) provocaram. Grande parte da água que escorre das montanhas já quase nuas poderia ser contida se houvesse reflorestação adequada e eficiente. Para bem de quem? De todos. A “barragem primordial” são as árvores que podem absorver, cada uma e no seu estado adulto, cerca de cem mil litros por ano.

Penso que está na altura de pensar nisto a sério. Podemos e devemos gerir os recursos e a qualidade da água por bacia hidrográfica, no todo, já que a APA visivelmente não o sabe fazer. E criar programas de retorno de investimento ao interior de Portugal, para reflorestar, criar emprego, fixar pessoas e contribuir para o reequilíbrio do território.

A água indica o caminho. É urgente subir às nascentes do problema.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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