Tchau, Portugal: brasileiros contam por que estão retornando ao Brasil

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A empresária Sílvia Caetano está com o coração partido. Com nacionalidade portuguesa herdada dos avós, há 21 anos ela decidiu cruzar o Atlântico rumo a Portugal para abrir uma filial de sua empresa, a Light Design. Ela conta que, por ser mulher e brasileira, enfrentou muitos entraves para tirar o negócio do papel, mas não se intimidou e, enfim, viu o empreendimento abrir as portas e prosperar. “Fomos uma das primeiras empresas em Portugal voltada para iluminação”, diz.

Sílvia afirma que, por muitos anos, foi feliz no país que escolheu para viver e onde fez excelentes amigos. “Durante um bom tempo, minha empresa deu bons resultados. Até que, em dezembro de 2022, as chuvas torrenciais que alagaram Lisboa e o entorno dela mudaram os rumos da minha vida. Fui destruída pelas enchentes”, ressalta.

As águas invadiram o prédio de três andares que a empresa dela ocupava em Algés, na região metropolitana de Lisboa. “Tudo foi perdido, computadores, projetos, mesas. A lama tomou conta do local. Meu prejuízo foi superior a 500 mil euros”, relata a brasileira. Sílvia acreditava que, por ter pagado um seguro ao longo de 15 anos, tudo se resolveria da melhor maneira. “Ledo engano.”

Sílvia Caetano embarca no próximo 29 de maio para o Brasil. “Cansei de ser empresária em Portugal”, diz
Arquivo pessoal

Ela conta que, mesmo recorrendo à Justiça, recebeu apenas 33 mil euros de indenização. Não bastasse o valor irrisório pago pela seguradora, ele enfrentou o que considera “excesso de burocracia” para restabelecer a empresa. “Mudamos de local, mas foram tantos os empecilhos, que nunca mais conseguimos ficar de pé. Desisti de ser empresária em Portugal”, afirma. Em 29 de maio, Sílvia embarcará de volta para Brasília. “Estou triste, mas não dá mais”, lamenta.

Contas não fecham

Dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), de dezembro de 2024, indicam que há quase 500 mil brasileiros vivendo legalmente em Portugal. De Norte a Sul do país, a maioria se mudou para o país em busca de uma qualidade de vida melhor para a família. Nos últimos três anos, porém, o que era visto por muitos como um paraíso de oportunidades se tornou uma fonte de problemas.

Obter ou renovar as autorizações de residência junto à AIMA passou a ser um tormento, com relatos de atrasos recorrentes. Os preços dos aluguéis foram nas alturas. Números do mercado de habitação levantados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) apontam que, apenas no último trimestre de 2025, o preço médio dos arrendamentos subiu 17,5% em relação ao mesmo período de 2024.

Com os salários em Portugal entre os mais baixos da União Europeia, vários brasileiros já não conseguem cobrir todas as despesas domésticas. Segundo pesquisa da Eurostat, o salário mínimo português, hoje de 920 euros, ocupa o 12º lugar no ranking da região, mantendo-se abaixo da média europeia em 146 euros mensais.

Não só. Os brasileiros ouvidos pelo PÚBLICO Brasil alegam que faltam boas oportunidades de trabalho. Pelos cálculos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, por meio da Prodata, Portugal está entre os cinco países da Europa que têm mais contratos de trabalho temporários, com 15,1%.

Há, ainda, para muitos brasileiros, a preocupação com o crescimento da extrema-direita no país, incitando a xenofobia, que criou um clima muito ruim. Não à toa, autoridades brasileiras e portuguesas têm criado ações de conscientização sobre acolhimento aos imigrantes.

O cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Alessandro Candeas, em recente declaração pública, disse que o órgão tem identificado um aumento no número de brasileiros que estão em busca ajuda para regressar ao Brasil. Ainda sem dados consolidados sobre esses pedidos, ele diz que o apoio tem vindo da Organização Internacional das Migrações (OIM) e do programa FRONTEX, da União Europeia. “São programas que, inclusive, dão passagens de retorno ao Brasil para pessoas que, de alguma forma, se colocaram em situação de vulnerabilidade”, destacou.

A advogada carioca Krishna Brunoni ficou com receio da ascensão da extrema-direita na Europa
Arquivo Pessoal

Voo só de ida

A carioca Patrícia Caldeira, 34 anos, desistiu de esperar pela renovação da autorização de residência em Portugal. Ela havia migrado para o país em 2022 para um mestrado em história. O curso acabou, o documento venceu e ela cansou de esperar pela AIMA. “Foram quase dois anos tentando agendar a renovação da minha residência, mas não consegui. Preferi retornar ao Brasil no início de 2026, pois, para mim, é inaceitável ficar em uma situação irregular ou de vulnerabilidade”, afirma.

A advogada Krishna Brunoni, 51, também resolveu pegar um voo só de ida para o Brasil, mais especificamente para São Paulo, no fim do ano passado. Após dois anos morando em Portugal e mesmo não tendo tido qualquer problema com a documentação, já que possui cidadania italiana, ela viu que as contas, por causa do câmbio (um euro correspondendo a seis reais), já não fechavam no fim do mês.

“Ganhar em real e gastar em euro ficou muito complicado”, assinala a advogada, que trabalha com direitos autorais. “Essa questão da moradia em Portugal está muito difícil. Em Lisboa, tive que dividir um apartamento com uma pessoa. Quem consegue morar sozinho são os americanos, os ingleses, que têm moedas mais fortes”, observa.

Krishna também não conseguiu fazer amizades como ela gostaria. “Claro que é muito bom você ter segurança, poder usar o celular na rua e não ser assaltada, mas não consegui encontrar ‘a minha turma’ em Portugal”, diz. Ela ainda sentiu um certo preconceito no ar com a comunidade LGBTQIA+. “Tem umas discussões que rolam no Brasil sobre o assunto que eu, pelo menos, não vi em Portugal, apesar de ser um país com uma legislação avançada em termos de reconhecer o casamento gay”, pondera.

A paulista, que trabalhou numa agência de imigração em Portugal, complementa fazendo um protesto contra a AIMA: “Um imigrante esperar anos pela autorização de residência me deu uma sensação de que eles [Governo] não fizeram o que precisava ser feito. É um grande descaso”, enfatiza. A advogada revela ainda que estava com receio dos caminhos que a política portuguesa tomou nas últimas eleições legislativas. “Essa ascensão da extrema-direita me desanimou”, constata.

Sem oportunidade

A antropóloga carioca Joselli Dantas, 42, se mudou para Portugal em meados de 2017 para fazer um mestrado em Sociologia: Exclusões e Políticas Sociais, na Universidade da Beira Interior, em Covilhã, no Centro do país. Dois anos depois, porém, com o estudo concluído, ela decidiu voltar para o Brasil. Cientista social e política formada na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), apesar do preparo acadêmico, enfrentou dificuldades para arrumar emprego em território português.

“O meu problema foi a falta de oportunidade de trabalho. Eu tinha recursos para ficar dois anos sem trabalhar, e, realmente, fiquei seis meses sem fazer nada, só na fase da adaptação. E eu me adaptei fácil. Mas, depois de seis meses, comecei a procurar alguma coisa. Foi quando a batalha começou”, conta Joselli. “Tenho um currículo muito bom. Aliás, a maioria dos brasileiros que se mudou para Portugal tem um currículo muito bom”, frisa.

Sem perspectivas em Covilhã, Joselli teve de se mudar para Lisboa. Mas a frustração também foi grande, agravada por uma deficiência física. A brasileira, que nasceu com uma luxação congênita de quadril e má formação no pé direito, recorda-se dos obstáculos que enfrentou para se colocar no mercado por causa de sua condição. Ela já se submeteu a 12 cirurgias reparadoras. “Se nasci assim, tenho que ter qualidade de vida para galgar os meus objetivos. Mas, em Portugal, me senti muito oprimida. Acho que as pessoas com deficiência no país são um peso para o Governo”, lamenta.

O mineiro Gustavo Guerra voltou para o Brasil por causa dos salários baixos em Portugal
Arquivo Pessoal

Joselli também ficou decepcionada com a maneira como o país trata os imigrantes. “Escolhi viver em Portugal porque a mãe do meu padrasto era portuguesa e contava muitas coisas bonitas sobre o país. Sou antropóloga, gosto de conhecer outras culturas, de entender o outro, mas nem sempre vi isso em Portugal”, afirma. Ela voltou para o Rio de Janeiro, onde atua na Secretaria Municipal de Educação. “Trabalho com crianças com deficiência”, diz.

Custo elevado

Outro brasileiro que decidiu fazer o caminho de volta foi o técnico de mineração Gustavo Guerra, 32 anos. Depois de morar seis anos entre a região do Algarve e Cascais, ele regressou para Minas Gerais, sua terra natal. “Eu voltei porque já estava meio cansado de Portugal”, afirma.

Antes de chegar ao país, em 2019, Guerra morou dois anos na Irlanda. Por isso, ele acredita não ter sofrido tanto na hora de arrumar um emprego no novo país. “Vim meio calejado de lá. Então, fui garçom, lavei banheiro e fui motorista de aplicativo”, enumera ele, que, enquanto trabalhava, foi vítima de um ataque xenófobo em Carcavelos, na região metropolitana de Lisboa. “Ouvi de um taxista o velho ‘volta pra tua terra’. Fiquei bravo demais”, reclama.

Para o músico Fred Martins, governos europes e estadunidenses são muito negacionistas
Alfredo Matos

Mas o mineiro, que, no ano passado, quando retornou para o Brasil, fazia suporte ao cliente numa empresa de tecnologia em Portugal, não descarta a ideia de voltar a morar na Europa. Por causa da baixa remuneração, entretanto, Lisboa e outras cidades do país não estão mais nos seus planos. “Adorei o clima de Portugal, adorei as praias, mas os salários são muito baixos. E os aluguéis estão caros demais”, reforça.

Em janeiro deste ano, o cantor, instrumentista e compositor carioca Fred Martins, 56, também voltou para o Brasil. Depois de viver 15 anos fora, sendo os últimos oito em Portugal, onde teve uma carreira de sucesso, ele confessa que sentiu a necessidade de retornar às suas raízes.

“Não é nada contra Portugal. Eu só acho que nós temos, no Brasil, outro modo de viver. E um modo que foi sempre renegado, subjugado e apagado. Mas que hoje em dia guarda uma filosofia de vida muito mais sustentável e generosa com a ideia de legado, de futuro. Senti vontade de defender e de estar perto disso”, assinala.

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