
Enquanto o Presidente dos Estados Unidos voava no Air Force One a caminho de Évian-les-Bains (França), para a cimeira do G7, em Teerão o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros declarava que todos os esforços estão a ser feitos para que um acordo com os norte-americanos possa ser assinado na próxima sexta-feira, mas que isso não significa que “os crimes contra o povo iraniano sejam perdoados ou esquecidos”.
O Irão “não confia” nem nos Estados Unidos, nem em Israel, reiterou Esmail Baghei esta segunda-feira, lembrando, num registo muito menos optimista do que o do líder dos Estados Unidos (que já dá o fim da guerra por garantido), que os iranianos não terão de respeitar qualquer acordo se norte-americanos e israelitas não fizerem o mesmo.
Para já, desconhece-se o conteúdo do acordo que foi anunciado no domingo e que, em teoria, permitirá parar a guerra, normalizar a circulação no estreito de Ormuz e abrir um período de negociações (de pelo menos 60 dias) sobre o programa nuclear iraniano, pelo que, pelo menos por agora, há sempre espaço para especulação e para que qualquer um dos lados possa apresentá-lo como uma vitória sobre o outro.
Mas o que parece certo é que o acordo será sempre um teste à capacidade de Donald Trump de refrear os ímpetos do Governo de Benjamin Netanyahu para continuar os ataques no Líbano contra o movimento pró-iraniano Hezbollah.
Enquanto os israelitas repetem que vão manter as posições no Sul do Líbano e asseguram que um hipotético entendimento entre Washington e Teerão não os vincula, Baghaei reiterou que o Líbano “é uma parte central” do memorando e que, em caso de qualquer escorregadela de Israel, “a América será a primeira a ser responsabilizada”.
“A palavra Líbano é utilizada três vezes no memorando de entendimento entre o Irão e os Estados Unidos. Acabar com a guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, e respeitar a soberania e a integridade territorial do Líbano é uma formulação absolutamente clara, e qualquer entendimento deve incluir o respeito à integridade territorial e à soberania nacional do Líbano”, afirmou o diplomata em conferência de imprensa.
O representante do Governo iraniano destacou o papel do presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e do ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, na obtenção deste acordo mediado pelo Paquistão e outros actores regionais, e revelou que os responsáveis iranianos vão visitar outros países do Médio Oriente antes da assinatura do documento, o que se espera que possa vir a acontecer na sexta-feira, em Genebra.
Prometendo que o conteúdo do memorando será divulgado nos próximos dias, o diplomata frisou que as discussões sobre o programa nuclear ficam para a fase a seguir à assinatura, para as chamadas conversações técnicas que, se tudo correr como previsto, permitirão a assinatura de um acordo final.
O tempo agora é de “levantar sanções”, de libertar os activos congelados (que são “um direito do Irão”) e de retomar as exportações de petróleo do país. Esmail Baghaei também mencionou que os iranianos continuam a esperar poderem ser compensados pelos estragos causados pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel.
Questionado sobre se o acordo significa uma nova fase no relacionamento entre Irão e Estados Unidos, o porta-voz frisou que “há um longo caminho a percorrer” até que os norte-americanos possam ser considerados dignos de confiança e afirmou que os iranianos saíram vitoriosos do confronto: “Os que começaram a guerra foram largamente derrotados e provámos que nos podemos defender”.
Cobrança de taxas em Ormuz
Enquanto os norte-americanos garantem que o estreito de Ormuz vai reabrir livremente, sem condicionantes ou taxas, Esmaeil Baghaei mencionou a implementação de um novo mecanismo de controlo de passagem, “em coordenação” com Omã, o que abre a porta a alguma controvérsia e às suspeitas de que a navegação naquele corredor do Golfo Pérsico não voltará a ser o que era antes do início da guerra.
“O Estreito de Ormuz é muito importante para nós, e adoptámos determinados procedimentos, de acordo com o direito internacional, para proteger a segurança nacional do Irão”, explicou o diplomata iraniano, sustentando que o objectivo é “criar condições para uma passagem segura nesta via marítima”.
“Serão prestados serviços completos para preservar e proteger o meio ambiente. Muitos outros serviços serão oferecidos pelo Irão e por Omã, e isso terá custos. Consequentemente, haverá taxas, e isso é claro”, acrescentou.
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