Quando chegou à HBO, em 2005, The Comeback era uma comédia meta-referencial sobre uma estrela de sitcom tradicional a tentar voltar à ribalta com uma nova sitcom e um reality show que mostrava os bastidores do regresso e da nova série. Em formato de falso documentário, víamos os brutos das filmagens desses momentos, não raras vezes brutais, desconfortáveis, confrangedores. No centro de tudo estava Valerie Cherish, personagem interpretada por Lisa Kudrow. Apenas um ano antes, a actriz e co-criadora da série tinha visto Friends, a sitcom que a tornou mundialmente famosa, chegar ao fim. Mas The Comeback não era, de todo, autobiografia: Cherish é uma actriz muito menos bem-sucedida e mil vezes mais limitada do que quem lhe dá vida.
The Comeback não foi um sucesso na altura, tanto que não teve logo direito a uma segunda temporada. Mas os anos foram passando, mais e mais gente viu, e a HBO decidiu encomendar novos episódios. Em 2014, a premissa tinha mudado, bem como o alvo da comédia. Cherish era agora a estrela de uma comédia dramática de prestígio inspirada nos bastidores da sitcom ficcional que tinha sido feita na leva de episódios anteriores, criada por dois dos seus co-criadores. Desta vez, aparecer num reality show já não era um requisito para o papel, era uma vontade da própria personagem.
Quase 12 anos depois, a personagem voltou este ano para a sua derradeira aventura nos bastidores de Hollywood. Esta terceira época, que acabou no passado dia 10 de Maio e está integralmente disponível na HBO Max, foi escrita na íntegra por Kudrow e Michael Patrick King, o seu co-criador, que é também realizador de todos os episódios — tal como Kudrow, King tem larga experiência em comédia televisiva.
O foco, agora, é a inteligência artificial. Cherish, que na “realidade” da série tem um Emmy pelo papel na tal comédia dramática, é convidada para protagonizar uma sitcom à antiga, daquelas filmadas ao vivo, centradas em dois ou três cenários. É a última época de sempre, garantem os criadores, a não ser que algo de tão cataclísmico como a inteligência artificial apareça entretanto.
A novidade? A sitcom é escrita por um programa de inteligência artificial desenvolvido pelo serviço de streaming que a faz. Só que tudo isto é segredo e Cherish não o pode revelar a ninguém – mesmo que acabe por fazê-lo. Sempre optimista e com vontade de agradar e trabalhar, descobre rapidamente que, como é dito em dada altura, “toda a gente odeia a inteligência artificial”. E não é só isso: o produto final, mesmo posto em prática por humanos, deixa muito a desejar quando é escrito pelas máquinas. Às vezes isto é dito de forma demasiado explícita, mas talvez seja necessário, e soa bem saído da boca de pessoas como James Burrows, lendário realizador de sitcoms à antiga, que volta assim a este universo.
Ainda se mantém a noção de falso documentário – Jane, a personagem de Laura Silverman, que a filma desde a primeira temporada, volta ao activo para filmar tudo –, mas temos agora mais imagens que seriam de esperar numa série normal, em que as personagens não estão a agir para as câmaras. É algo que foi introduzido no tocante e surpreendente final da segunda temporada. Como fontes das imagens, há ainda outros reality shows, um podcast, uma gestora de redes sociais que lhe filma tudo e também câmaras de videovigilância.
São oito episódios em que King e Kudrow destilam receios existenciais muito na ordem do dia em Hollywood: a luta por um património, o da comédia televisiva à antiga, que, aos olhos de muitas pessoas, já não tem grande valor. Há inúmeros convidados, como Andrew Scott, John Early, Abbi Jacobson, Fran Drescher, Jane Fonda, Bradley Whitford, Adam Scott ou Justin Theroux. E um final que, não chegando aos calcanhares do da segunda temporada, recontextualiza a protagonista da melhor maneira possível, face a todas as adversidades e situações agoniantes em que a vimos e das quais nos rimos ao longo de mais de duas décadas.
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