Tiago Guedes leva J.M. Coetzee a Cannes: Aquí está na selecção oficial

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Em 2022 em Sessão Especial com Restos do Vento, e em 2026, de novo na selecção oficial do Festival de Cannes, com a longa-metragem Aquí: o realizador Tiago Guedes, 54 anos, de novo produzido por Paulo Branco, faz bis. Agora, na edição 79 do festival, secção Cannes Première.

Depois do anúncio, na terça-feira, da lista de curtas-metragens oficiais, em que Daniel Soares e Clara Vieira aparecem seleccionados para o concurso e para o programa de filmes de escolas de cinema, fica fechada a participação portuguesa na 79.ª edição do festival. E está fechado o programa de Cannes 2026 (de 13 a 24 de Maio) com este acrescento à programação anunciada há duas semanas em Paris, que introduz na lista da competição um filme americano, Paper Tiger, de James Gray.

O cartaz oficial: Thelma e Louise, de Ridley Scott, estreou em Cannes há 35 anos

Mostrará o que vale esta selecção oficial sob a presença tutelar de Thelma e Louise, as heroínas interpretadas por Susan Sarandon e Geena Davis: fazem elas a fotografia oficial do festival, o cartaz, imagem a preto e branco do filme de Ridley Scott que teve a sua estreia mundial há 35 anos ali na Croisette e que continua a simbolizar, statement de Cannes, “a celebração da vida e das lutas intemporais pela liberdade individual”.

O cartaz da Quinzena dos Cineastas é feito com uma proposta de Alain Guiraudie: o seu mundo de homens e de desejo, nus, em metamorfose

Ali ao lado, na alternativa proposta pelo programa da secção Quinzena dos Cineastas, que acolherá este ano filmes de Radu Jude, do enorme Alain Cavalier, de Lisandro Alonso ou uma animação de Quentin Dupieux (que também está presente na selecção oficial com um filme de imagem real, fora de concurso), o cartaz é feito com uma proposta de Alain Guiraudie: o seu mundo de homens e de desejo, nus, em metamorfose.

O cartaz de Aquí, regresso de Tiago Guedes a Cannes

Voltando a Aquí: é por demais evidente a ambição e o risco que é adaptar a Trilogia de Jesus, reunir três livros de depurada ficção distópica e de densa súmula filosófica que J.M. Coetzee levou uma década a produzir. Depois das conversas de aproximação entre o escritor e o produtor português Paulo Branco, por alturas de 2021, quando Coetzee foi jurado no festival Leffest, o romancista sul-africano cedeu os direitos de adaptação — e acompanhará a comitiva portuguesa em Cannes (exibição do filme a 18 de Maio, é a estreia mundial; a 3 de Dezembro é o lançamento no mercado português). Terá participado à sua maneira, Coetzee, na adaptação, dando “conselhos, sem impor nada” (contou o produtor). O argumento aparece assinado por Tiago Guedes e Luís Araújo.

A Trilogia de Jesus foi publicada originalmente em espanhol por uma razão eminentemente política, ser uma alternativa ao inglês hegemónico, e pelo facto de, na lógica de uma narrativa pós-apocalíptica, as personagens, um adulto e uma criança, chegarem a um mundo e a uma língua que são estranhos, novos, sem memória, não-lugares.

O filme faz suas essas determinações de Coetzee, nos cenários, na fotografia e no elenco multinacional. Há actores espanhóis como Sergi López, Angela Molina ou Itsaso Arana, franceses como Lambert Wilson, portugueses como Albano Jerónimo ou João Pedro Vaz, mas falam todos em castelhano. O que poderia ser o resultado de compromissos de co-produção internacional, coisa que o filme não é, é afinal o sinal de um desafio de resistência.

São de facto três horas e meia em permanente pièce de résistance sem que a expressão denuncie qualquer tique ou gesto de exibição. Estamos em pleno território de depuração, de redução mesmo, mantendo a alegoria austera, não dando hipóteses a qualquer facilidade de transcendência, tal como a escrita de Coetzee. Sem risco dizemos que é o melhor filme de Tiago Guedes.

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