Haverá centenários a celebrar. O de Édipo Rei de Stravinsky, pela Orquestra e Coro da Gulbenkian; o do compositor húngaro György Kurtág e da compositora francesa Betsy Jolas, ambos vivos e activos e que serão celebrados com um ciclo de concertos; o da Sinfonia n.º 1 de Chostakovitch, integrada no programa que nos trará a pianista sul-coreana Yeol Eum Son. Haverá, também, a novidade de uma inesperada abordagem ao Quebra-Nozes de Tchaikovsky, The Nutcracker and I, pela pianista Alexandra Dariescu e com a bailarina Désirée Ballantyne a dialogar com animação digital. Haverá, assinale-se, uma maior presença feminina e espaço reservado para compositores portugueses de várias gerações, de Joly Braga Santos a Luís Tinoco e Andreia Pinto Correia, passando por Fernando Lopes-Graça e Eurico Carrapatoso. Serão 120 espectáculos entre Setembro de 2026 e Junho de 2027.
“Se não está estragado, não o consertes.” Fredrik Andersson, que sucedeu o ano passado a Ristu Nieminen, director do Serviço de Música da Gulbenkian durante 16 anos, profere a frase durante o pequeno-almoço com a imprensa em que, numa sala do edifício sede da fundação, apresentou a Temporada de Música da Gulbenkian 2026/2027. Queria com aquilo dizer que as bases da programação não sofrem alterações radicais naquela que será a primeira temporada com a sua assinatura. A sua marca, ainda assim, manifesta-se.
“A diferença entre a próxima temporada e as temporadas anteriores reside, talvez, numa maior variedade no repertório e em alguns dos artistas”, aponta. “Todos nós adoramos [András] Schiff e [Grigory] Sokolov” — que, de resto, marcarão presença, o húngaro-britânico ao lado de Evgeny Kissin, a 22 de Outubro, o segundo integrado no Ciclo de Piano, dia 15 Março. “Mas”, acrescenta Andersson, “penso que também é óptimo para o público ver novos rostos e ouvir novos artistas”.
A temporada arranca fora de portas, tal como nos últimos anos, com entrada gratuita. E no mesmo local, o Parque Vale do Silêncio, nos Olivais, onde a 5 Setembro Alena Hron dirigirá o Coro e Orquestra Gulbenkian por um programa festivo, da grande ópera italiana à América de Gershwin (21h30). Hannu Lintu, maestro titular da Orquestra Gulbenkian, irá dirigi-la numa dezena de programas ao longo da temporada, incluindo no supracitado Édipo Rei (dias 1 e 2 de Outubro) ou na Sinfonia n.º 4 de Joly Braga Santos, antecedida pelo Concerto para Piano e Orquestra n.º1 de Brahms, que ouviremos a 4 e 5 de Fevereiro.
A apresentação da nova temporada trouxe, além da revelação da programação, outra novidade. Hannu Lintu como Martina Batič, maestrina do Coro Gulbenkian, estenderam até 2030 os contratos que os ligam à instituição — Lintu acumulará com a posição de director musical da Orquestra Sinfónica de Singapura, cargo que assume a partir desta temporada.
Sobre a presença mais vincada de compositores portugueses no programa, Fredrik Andersson acentua: “Devemos destacar os compositores portugueses, porque faz parte do nosso ADN, é a nossa história, e poderá abrir os olhos de outras pessoas, noutros países, para esta música”. Dia 21 de Outubro, por exemplo, Bach servirá de ponto de partida para um programa, a cargo do Coro Gulbenkian dirigido por Martina Batič, que inclui Joly Braga Santos (Quatro Canções), Luís Tinoco (Descubro a Voz) e Andreia Pinto Correia, esta com a estreia absoluta de Deste mund’outro, encomenda para o 70.º aniversário da Gulbenkian, que este ano se celebra.
Mulheres e uma tapeçaria de sons
Passando em revista a programação, assinalamos nomes como Rebecca Clarke, Gabriela Ortiz, Fanny Mendelssohn, Clara Schumann, Maria de Lourdes Martins, Barbara Strozzi, Ruth Crawford Seeger, Nadia Boulanger, Grazyna Bacewicz. Atravessam tempos e geografias, do barroco à música contemporânea. Mulheres compositoras, cerca de duas dezenas delas na programação da temporada. “Durante décadas, séculos, as mulheres compositoras não foram interpretadas, simplesmente por serem mulheres”, nota Andersson. A sua inclusão, que vê ainda assim como parca — “vinte mulheres compositoras no programa não é assim tanto” —, é uma questão de justiça e reconhecimento artístico. “Vejo-o como um pequeno passo para mudar mentalidades, no sentido de que devemos realmente alargar o nosso repertório”.
Na nova temporada, o Ciclo de Piano inclui apresentações de Beatrice Rana, Víkingur Ólafsson, Daniil Trifonov, Bertrand Chamayou, Seong-Jin Cho ou, em estreia, a franco-albanesa Marie-Ange Nguci e o canadiano Bruce Liu. Integrados no Ciclo Grandes Intérpretes encontramos, além dos já referidos Kissin e Schiff, o barítono Matthias Goerne ao lado da pianista Tamara Stefanovich, o violinista Leonidas Kavakos, o pianista Enrico Pace ou, centradas no repertório barroco, a Il Pomo D’Oro, com a violoncelista Anastasia Kobekina, a Apollo’s Fire, com a soprano Jeanine De Bique, ou o pianista Igor Levit.
Numa programação por onde passarão maestros e maestrinas como Izabelé Jankauskaité, Joana Carneiro, Pawel Kapula, Agata Zajac, Charlotte Corderoy, Luca Guglielmi, Joshua Weilerstein ou Tabita Berglund, e onde ouviremos os Fragmentos de Kafka (9 de Setembro), de György Kurtág, e a Little Summer Suite (11 de Setembro), de Betsy Jolas — os dois compositores centenários homenageados —, o inesperado chegará dias 21 e 22 de Dezembro, com o supracitado The Nutcracker and I. Tchaikovsky, uma pianista, uma bailarina e um universo de animação digital. Na música de câmara, destaque para a presença do Quarteto Belcea, do Quarteto Van Kujik, dos Les Vents Français, do trio de Javier Perianes, Jean-Guinhen Queyras e Tabea Zimmermann e do duo Benjamin Grosvenor (piano) e Sheku Kanneh-Mason (violoncelo).
Na maior informalidade que o formato da apresentação proporcionou, Andersson, director da Gulbenkian Música depois de uma década enquanto Director de Programas da Royal Stockholm Philharmonic Orchestra e da Konserthuset de Estocolmo, revelou que a Orquestra Gulbenkian está em processo de crescimento, com a audição e contratação, nos próximos anos, de dezasseis músicos para os naipes de cordas. Fredrik Andersson deu também conta da vontade de tornar mais regulares as gravações da orquestra e do coro — está planeada para dia 27 de Fevereiro a gravação na Gulbenkian, para edição posterior, da Sinfonia Dante de Liszt, que será apresentada dias 11 e 12 de Fevereiro pelo coro e orquestra, com a meio-soprano Rihab Chaieb — e de aumentar a cadência das apresentações no estrangeiro.
Como ponto de contacto com um mundo turbulento, serão apresentadas obras como War Requiem, de Benjamin Britten (4 e 5 de Março, com direcção de Lorenzo Viotti, maestro titular da Orquestra Gulbenkian entre 2018 e 2021), ou o projecto Humanity in War, criação do Amatis Trio, sediado em Amesterdão, que intercala peças de Webern, Schubert ou Schumann com a narração, na voz do barítono alemão Thomas Quasthoff, de cartas e diários do período da I Guerra Mundial (18 de Outubro). Numa representação contemporânea desse mesmo mundo, assinalem-se algumas estreias absolutas, resultado de encomendas para os 70 anos da Gulbenkian: O Que Fica, de Hawar Tawfiq, Celebration, de Carlos Caires, e The Strangest Sea, de Sebastian Fagerlund.
O ciclo Músicas do Mundo abrirá a Gulbenkian a uma vasta tapeçaria de sons, do tango de Eduardo Rovira abordado pelo Ensemble Sonico, à música clássica persa interpretada pelo Ensemble Sepidar, passando pelas concertinas dos Danças Ocultas ou pela abordagem contemporânea da música tradicional sul-coreana protagonizada pelas Dal:um, ou seja, Ha Suyean e Hwang Hyeyoung.
Mantém-se igualmente os Concertos Participativos, com El Niño, de John Adams, os Concertos de Domingo comentados, bem como a transmissão no Grande Auditório das produções da Met Opera, em Nova Iorque, e os recitais das estrelas do futuro, as Rising Stars. Cine-Concerto? Haverá claro. Indiana Jones: Os Salteadores da Arca Perdida, banda sonora de John Williams. É a 16 de Janeiro.
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