TU VAI FALAR PORTUGUÊS?

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Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.

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A Língua Portuguesa foi, desde a sua origem, talhada nos contrastes. Entre o norte e o sul, entre os ricos e pobres, entre quem passava fome e os que comiam bem à custa dos famintos. E entre as coroas de Castela, a que pertencia a Galiza, e Portugal que inventou que a língua que falava não era mais Galego, mas outra coisa. No Brasil, essa profundidade de abismos alcançou níveis invejáveis, numa história feita lentamente, mas sempre com sensação de pressa.

Desprezando a educação formal que era vista como modo de catequizar, o que, por sua vez também era sinônimo de civilizar, não ganhou o português, trazido ao Brasil, gosto por normas. Até hoje se ressente delas e as razões residem nesses mesmos contrastes que são tão evidentes nestas terras tropicais. A escravização como prática naturalizada, primeiro dos indígenas, depois de africanos trazidos de fora. E mais um contraste, ao se disfarçar esse crime contra a humanidade de ato de cristianismo.

Alguns navegadores franceses, no século XVIII, disseram ao falar dos portugueses que viviam no Brasil, a que hoje chamamos brasileiros mesmo, que eram preguiçosos e que todo o trabalho aqui feito era realizado por negros africanos. Claro, que entendem franceses do que Portugal fazia de si mesmo nestas terras do Sul? Não sei como viviam os franceses nas suas colônias, mas talvez também houvesse algumas surpresas interessantes. O fato é que a fama de preguiçosos ficou associada justamente, vejam só!, aos afro-brasileiros. Não deixa de me surpreender como o ser humano consegue inverter as situações a favor de si mesmo e como a língua, essa nossa língua se presta a isso.

A chegada de muitos imigrantes principalmente da Europa alargou as transformações que o português viria a sofrer aqui. Houve muitas mudanças, mas alguns costumes permaneceram: o “desenrasca-te português” que virou o jeitinho brasileiro, o pouco prazer em mergulhar nas possibilidades do conhecimento, inclusive da língua portuguesa, a facilidade em transferir culpas, são alguns exemplos que aqui chegaram e ganharam raízes e contornos próprios.

O que fazemos com o “tu vai, tu vem, tu fica”? A troca do “você” pelo “tu” começou principalmente nas cidades portuárias brasileiras e por influência, em parte, da última leva de portugueses que emigraram para o Brasil. O português do Brasil reorganizou por dentro o seu sistema pronominal e verbal. Essa reorganização revela muitas facetas na atualidade, mas curiosamente tem ganho uma grande dimensão na fala urbana. No Pará e no Maranhão, é muito comum ouvir a conjugação de 2ª pessoa preservada (“tu vais”, “tu queres”), mesmo na fala coloquial.

O interessante é que muitos que falam o “tu” também utilizam o “você”, mas o “tu” ganha uma carga afetiva curiosa. É usado para marcar proximidade ou agressividade. Sim, já está aqui esse gosto por extremos que tem a nossa língua. Agressiva também é a pressão da mídia nacional (centrada no Sudeste) e a tendência de simplificação, algo parente dessa tendência preguiçosa de nossas elites, têm levado as gerações mais jovens a adotar o “tu vai”.

O fato é que a educação formal pouco tem conseguido fazer na prática. Isso porque a educação escolar brasileira tem ainda uma preferência, no que respeita a estudar português, pela classificação gramatical. Saber localizar o objeto direto e distinguir o adjunto adnominal do complemento nominal torna-se, no imaginário de muitos pais e professores, mais importante do que refletirmos em por que o “tu vai” existe cada vez mais forte no cotidiano brasileiro e chega às elites, essas mesmas que, outrora trouxeram o português para estas terras.

Gosto de como os portugueses têm desenvolvido um carinho especial por falar português. Essa afetividade é por vezes tão intensa que se torna violenta. Torna-se preconceito. Tenho escrito sobre isso por aqui. Mas temos de reconhecer que há um prazer em falar português que, aqui no Brasil, ainda soa estranho para alguns. O que não deixa de ser curioso pois (mais um contraste desta nossa realidade), os brasileiros, de um modo geral, não aceitam de bom grado a ideia de separar as línguas. Sentem no fundo de sua alma histórica e social que aquilo que falam é português. E é.

Mas, ao mesmo tempo e talvez por isso, sentem que não importa como o falem, está tudo bem, desde que se comuniquem. Talvez seja a simplificação de pensar que já que a língua não é, de fato, minha, então posso tratá-la de qualquer jeito. Talvez a realidade violenta em que se faz o Brasil, reforce a ideia bem comum de que não se deve corrigir ninguém naquilo que fala. O importante é que se entendeu o que se disse. Os portugueses compreenderam melhor que longe de nossa língua, não podemos ser quem somos.

A realidade é que nem sempre se entende com clareza o que se diz quando falado sem reflexão. Sem que se trabalhe a língua, ela não cresce e torna-se pão que alimenta. Sem que se lapide a pedra bruta que é o português, ele não vira um brilhante. O cotidiano, se não tomarmos cuidado, nos imbeciliza. Uma nação de imbecis é sempre mais fácil de manipular. Agora, os contrastes de quem deseja manipular e quem se presta a isso. A dor é que isso está longe de ser uma realidade brasileira, ela torna-se uma realidade mundial. O empobrecimento do repertório linguístico não é apenas um acaso histórico e social, mas uma estratégia de dominação e manipulação política.

Há os que se alegram que o Legislativo não tenha aprovado o ministro indicado pelo Executivo. Há os que se alegram que pessoas que atentaram contra a soberania nacional em um golpe de Estado possam ser libertas. Há os que se alegram que imigrantes sejam tratados como cidadãos de segunda categoria, dividindo e classificando humanidades. Há quem comemore a retirada de direitos trabalhistas. O mais triste é que há quem faça isso da posição de quem se beneficia, mas há os manipulados que o fazem porque foram educados – de muitos modos – a fazê-lo. A Língua Portuguesa foi, desde a sua origem, talhada nos contrastes e continua a sê-lo.

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