Um alvarinho especial, numa quinta renascida

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À primeira vista, a Quinta das Pirâmides mostra logo tudo o que é: uma plantação de mirtilos de um lado, bosque do outro, ao meio um caminho com vinha em ramada, e ao fundo uma casa transformada em alojamento de charme. Enveredando pelo cenário, junta-se ao postal o som da água corredia e das aves que por lá habitam, e a visão de quatro ovelhas a pastar.

“Faz parte da nossa política de sustentabilidade”, lança o proprietário, Manuel Amorim. “Só usamos adubos naturais e as nossas ovelhinhas dão-nos cerca de seis a oito toneladas de fertilizante”, informa. As ajudantes lãzudas andam livremente pela vinha, desde que termina a vindima até que as plantas começam de novo a abrolhar, contribuindo para o equilíbrio do solo.

Quando Manuel e a mulher Ângela Cerejeira compraram a quinta, em 2010, quiseram reerguer a propriedade à imagem daquilo que teria sido no passado: um sistema vivo. “As quintas antigamente eram auto-suficientes, usavam tudo o que tinham e comiam tudo o que produziam”, nota o anfitrião. E foi com essa premissa que se lançaram na “grande loucura” de fazer renascer a Quinta das Pirâmides.

Nenhum deles tinha ligação ao campo. Ele é engenheiro de informática, ela professora de inglês e alemão. Mas partilhavam “um desejo de sair do mundo onde estávamos”, e de se ocuparem com um projecto que os entusiasmasse. “Entendemos que devíamos fazer algo nos desse prazer, tinha de ter algum racional económico, mas tinha de ser algo diferente, que fizéssemos com paixão”, explica Manuel.

Os hóspedes são convidados a explorar a propriedade e usufruir das suas valências: mergulhar no tanque, passear pelos trilhos da floresta, colher uma laranja. “A nossa filosofia é ‘Façam de conta que estão em vossa casa, com o vosso quintal’”, convida Manuel Amorim.
Maria João Gala

A reabilitação da casa principal foi um dos primeiros objectivos a pôr em marcha. O projecto foi pensado ao pormenor pelo casal, e desenhado pela filha Daniela Amorim, a arquitecta responsável pela obra. Por ter havido um envolvimento tão pessoal de toda a família não era claro desde o início que a quisessem abrir ao exterior. “Queríamos abrir ao turismo, mas não a casa principal”, confessa. Para felicidade de quem hoje pode passar ali a noite, mudaram de ideias e abriram portas em 2021. “Era uma pena outras pessoas não poderem usufruir”, reconhece o proprietário.

A bonita casa em granito mesclado de amarelo e azul foi recuperada de acordo com o desenho original: tectos em madeira, paredes em tabique, chão em pinho-de-riga. E as seis suítes conjugam estes elementos com uma decoração mais contemporânea, que privilegia o conforto. A evocar a ligação do local à obra camiliana, todas têm nomes de personagens das ficções do romancista, como o Cego de Landim e Maria Moisés.

O fundamento é que Camilo Castelo Branco terá passado pela quinta, à altura conhecida como Quinta do Barreiro – só no início do século XX o então proprietário, entusiasta da cultura egípcia, entendeu que deveria mudar o nome para Quinta das Pirâmides, conta-nos Manuel –, e retratado a propriedade nas suas famosas Novelas do Minho.

Além da casa-mãe, a família também está a recuperar outras construções da quinta, como a antiga Casa do Feitor, recém-aberta ao turismo. O pequeno chalé é o complemento que faltava para acolher quem procura uma escapada em meio rural com a família. Tem dois quartos e uma zona exterior com churrasco e banheira de hidromassagem, e ainda uma curiosa janela interior para a antiga cozinha de fumeiro da casa, que ainda é utilizada para esse propósito (os enchidos são utilizados para consumo interno).

Numa vertente mais romântica, foi também instalada uma tenda de glamping no meio do bosque, com todos os confortos de um quarto de hotel (também tem casa de banho e kitchenette), aos quais acresce a vista panorâmica.

Qualquer que seja a acomodação escolhida, os hóspedes são sempre convidados a explorar livremente a quinta e usufruir das suas valências: passear pelos trilhos da floresta, mergulhar num tanque de água (quando o calor começar a pedir um banho refrescante), colher uma laranja ou outro qualquer fruto de época. “A nossa filosofia é ‘Façam de conta que estão em vossa casa, com o vosso quintal’”, convida Manuel.

Por serem vinhos que pedem comida, as provas na Quinta das Pirâmides acompanham sempre uma tábua de produtos locais: fruta, azeitonas e salpicão produzidos na quinta, queijo da região e compotas caseiras.
Maria João Gala

Vinhos com tempo, para saborear à mesa

Este quintal de 16 hectares produz essencialmente dois frutos: o mirtilo e a uva. Quando pensaram numa estratégia agrícola para a propriedade, o casal optou por diversificar. “A minha mulher tinha dois sonhos, um deles era produzir um fruto importante para a saúde, e o outro era ter turismo de habitação. Eu sempre tive uma certa ligação emocional à agricultura, nunca soube explicar porquê. E sempre fui um grande apreciador de vinho”, explica Manuel. “Como não queria aqui um [projecto] monoproduto, em cerca de 4 hectares fazemos mirtilo e em cerca de 6 hectares fazemos vinha.”

A par do alojamento e da venda de mirtilo, a produção de vinho é outro dos pilares da Quinta das Pirâmides, alicerçado essencialmente na casta alvarinho (corresponde a 80% da área de vinha) e algum loureiro. “Quando começámos, as pessoas chamavam-nos loucos, porque ninguém tinha alvarinho aqui, mas pelas características do microclima e do solo achei que havia condições particulares para fazer um vinho muito diferente, e isso de facto aconteceu. O alvarinho aqui é muito diferente, é um vinho muito mineral, muito fresco”, comenta o produtor

Fizeram a primeira vindima em 2017, mas os vinhos só chegaram ao mercado em 2024, e desde então já conquistaram quase uma dezena de medalhas em concursos nacionais e internacionais. “Tudo o que está associado à quinta tem de ter qualidade e que a qualidade tem de ser reconhecida”, declara Manuel.

A receita para a qualidade passa, além da matéria-prima, por dar tempo ao vinho. “Não trabalhamos com vinho do ano, o nosso 2025 está quietinho, está a aguardar”, explica. “Pretendemos desligar o Vinho Verde do rótulo de vinho do ano, agressivo, muito ácido – portanto, muito limitador dos gostos das pessoas. Com [o estágio] conseguimos ter um vinho mais suave, muito mais gastronómico.”

Por serem vinhos que pedem comida, as provas (de duas ou quatro referências) acompanham sempre uma tábua de produtos locais: fruta, tremoços, azeitonas e salpicão produzidos na quinta, queijo da região e compotas caseiras. A de mirtilo está sempre presente. Porque até à mesa a Quinta das Pirâmides se mostra como é: um conjunto de elementos que funcionam melhor juntos, como um todo.

Quinta das Pirâmides
Avenida de Aziveiro, 224, Vila Nova de Famalicão
Tel.: 252912159
Web: quintadaspiramides.pt
Provas: 40 euros por pessoa (4 vinhos e tábua de produtos locais)
Quartos desde 135 euros por noite (com pequeno-almoço)

Chef Renato Cunha, restaurante Ferrugem, Portela (Famalicão)
Anna Costa

Este artigo foi publicado na edição n.º 19 da revista Singular. A Singular é uma revista do PÚBLICO com o apoio da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. A Singular é uma publicação estritamente editorial, concebida, produzida e editada pela redacção do PÚBLICO com total independência e em cumprimento das regras internas para conteúdos apoiados. ​Pode saber mais sobre a política de conteúdos apoiados do PÚBLICO neste artigo.

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