Um batismo por Mia Couto

0
1

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.

Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Inventei um jogo íntimo que chamei de Ética Poética. Parece parvo, mas me ajuda a enfrentar uns desassossegos. É um exercício de ler e escrever pormenores do quotidiano a partir de um impulso literário. Pelo menos tentar. Mesmo que essa escrita poética da vida aconteça dentro de mim, sem ninguém saber. Ou talvez com uma ou duas testemunhas incidentais.

Criei esse jogo em 2019, quando o Mia Couto viajou ao Brasil para divulgar um livro, e fui ao lançamento em São Paulo. Naquele dia, eu me sentia melancólica. Compareci ao evento sozinha.

Na fila de autógrafos, passava uma senhora com um bloco de post-its, onde apontava o nome de cada pessoa, para colar o papelinho à primeira página e informar ao escritor a quem ele devia dedicar o exemplar.

Quando a senhora perguntou o meu nome, a minha voz de choro, até então acomodada no silêncio, ultrapassou o aperto da garganta e disse: “Tristeza”.

A senhora não hesitou. Olhou nos meus olhos com a compreensão da melhor das leitoras. E escreveu o nome no post-it.

Na minha vez diante do Mia, ele também pousou os olhos nos meus, após ler a palavra sobre o fundo amarelo: “É este o teu nome?”, questionou. “Hoje é”, respondi.

“Bem que podia ser um nome moçambicano”, ele brincou, antes de dedicar o livro à Tristeza, com um beijo do Mia Couto.

Quer receber notícias do PÚBLICO Brasil pelo WhatsApp? Clique aqui.

Reencontrei o Mia aqui em Portugal, num jantar com amigos escritores. Há uns dias, ouvi-o falar no Festival Literatura e Viagem, em Matosinhos. Falou de guerra, de tempos violentos, da ascensão dos fascismos. Que fez parte de uma geração sonhadora, que se acreditava capaz de mudar o mundo.

Na plateia, ergui a mão para perguntar por que essa fé na mudança se formulava assim no passado, se ela estava morta, se podia ser ressuscitada. Mas o tempo da palestra se esgotou, e a pergunta restou sólida em mim, em forma de angústia.

Fiz de novo a fila com outros leitores, à espera do Mia. Sete anos depois da Tristeza, e por acaso levando na bolsa o mesmo livro assinado por ele. Abri na página com o autógrafo de 2019. Sugeri que ele redigisse uma dedicatória à Angústia, dessa vez. Angústia que causou em mim ao admitir que perdeu a fé. O luto de uma utopia juvenil, que eu também já devia ter perdido, à beira de completar meio século de desilusões.

Mia respondeu que não, de jeito nenhum. Recusou-se a dedicar a obra à Angústia. Disse que ainda aposta, ainda age no sentido de gerar mudanças. Só descobriu que não é fácil mudar o mundo, porque não é fácil mudar o modo de pensar das pessoas.

Não me recordo das palavras que ele usou a seguir. Mas lembro que me senti representada por elas, e mergulhei nos olhos marítimos do Mia, onde submergi e nadei, gastando a Angústia como quem queima calorias numa maratona aquática.

Até que ele mesmo propôs um adendo ao autógrafo original:

À Tristeza,
um beijo,
Mia Couto, 2019.

Aliás, à Esperança,
um beijo,
Mia Couto, 2026.

E eu, que queria brincar de ser autora da vida, escrevendo-me nos acontecimentos, me comovi ao ser rebatizada por um grande poeta.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com