Um dia para lembrar a mãe

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Descrição de Pedro, filho de doente com demência de início precoce, atualmente com 58 anos, institucionalizada e em fase avançada:

Abrem-me a porta com um sorriso tranquilo, e dirijo-me para o ponto de encontro habitual. No canto da sala, encontro-te na tua cadeira de rodas junto dos demais utentes, imóvel, com o pescoço fletido e pequenas almofadas nas mãos torcidas por uma distonia tenaz. Tenho já dificuldade em recordar a cintilância dos teus olhos castanhos que dizem ser os meus também. Uma colega desabafou comigo uma vez, a propósito de uma situação semelhante: “a mãe ainda aqui está, mas tenho já tantas saudades dela”. A doença que rouba a consciência e a mobilidade, e mata aos poucos, vai erguendo uma extensão de vidros foscos entre o doente e a sua família, de tal forma que, de ambos os lados, sobram apenas vultos e vozes abafadas, reminiscências pardas de alguém que a memória procura reconstituir.

A mãe, sinto-a cada vez mais longe, numa jangada sozinha em mar revolto, e eu e o pai em terra, no continente sensível, a perscrutar o mar de dedos em pala, julgando vê-la. Em volta, tece-se uma cumplicidade dorida entre os familiares dos outros utentes. Numa teimosia comovente, arriscam os seus monólogos envergonhados, enquanto empurram cadeiras de rodas e espalham o doce no pão do lanche. Levo-te da sala, vamos ao jardim, temos a sorte de um dia de sol.

Mãe, vinha só dizer-te que estou bem. Agora que é difícil dizer-te as coisas de forma direta, espero que por vias oblíquas que ninguém conhece esta mensagem te chegue. Estou bem. E é só. Sei que isso te deve ainda preocupar no mais fundinho de ti que ainda és tu, e queria que ficasses tranquila. Não passo fome, uso roupa lavada todos os dias, arrendo um apartamento. Tenho pessoas que gostam de mim e se preocupam, conheci alguém que me faz muito feliz. Acho que faço um trabalho razoável. Já acabei a faculdade, sou médico. Sei que te é difícil dares um beijinho orgulhoso, não to peço, não te preocupes.

Sei que não estarás por cá para celebrar outros êxitos e alegrias que tanto querias partilhar comigo, mas não te preocupes, mãe. Tenho a certeza de que algum eco das minhas aventuras e desventuras te chegará e, de alguma forma, me poderás aplaudir ou repreender. Mas por agora, não te preocupes com isso. Lembra-te apenas que estou bem. O pai vem sempre, quase todos os dias. Dá-te o lanche. Insiste para que digas bom dia, que cumprimentes o sol. Às vezes pede-te um beijo: nem sempre dás, mas é justo, nem sempre apetece. Sim, talvez ele esteja mais triste, aliás, estará seguramente, mas não te sintas tu também triste, mãe. Não quero com esta partilha avolumar o remorso. São coisas que acontecem.

Da minha parte quero mesmo que fiques com a certeza de que tudo está bem. Sou feliz. O teu trabalho comigo está feito, mãe: o conforto de ter sido amado de forma tão completa deu-me munição que chega para uma vida toda. Da minha parte, não quero que fique uma migalha de tristeza ou de hesitação. Vou-te acompanhando até onde puder, para águas cada vez mais fundas, mas prometo que vou até ficar sem ar. Depois, mãe, quando já nem eu nem ninguém te puder acompanhar, quero que vás serena, e não te preocupes: eu volto à tona. E trago o pai comigo.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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