Um super El Niño num planeta em total desequilíbrio? O pior está para vir em 2026

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Os cientistas alertam que 2026 pode ser um dos anos mais quentes alguma vez registados, com fenómenos climáticos extremos sem precedentes, impulsionados principalmente pelas alterações climáticas causadas pela actividade humana — e ajudados pelo impacto de um fenómeno El Niño forte, que estará a desenvolver-se. O risco não está no El Niño iminente, mas na conjugação deste fenómeno natural com um planeta em total desequilíbrio. O pior ainda poderá estar para vir em 2026.

Há já algum tempo que diferentes centros de previsão e equipas de cientistas falam na probabilidade de um fenómeno El Niño forte ou mesmo de um super El Niño em 2026. Apesar de algumas ligeiras diferenças no grau de probabilidade de termos um super El Niño à nossa espera nos próximos meses, as previsões já não deixam margens para dúvidas sobre o desenvolvimento deste fenómeno natural em 2026 e que, muito provavelmente, continuará a influenciar o clima em 2027.

Este padrão, caracterizado pelo aquecimento do Pacífico Equatorial, traz calor e chuva intensa, podendo intensificar secas, cheias e agravar o risco de incêndios florestais em várias regiões do planeta, fase de um ciclo natural no oceano Pacífico, que geralmente começa na Primavera e afecta gradualmente as temperaturas, os ventos e o clima em todo o resto do globo nos meses seguintes.

O mais recente episódio de El Niño ocorreu entre meados de 2023 e meados de 2024, tendo sido classificado como um fenómeno forte, entre os cinco mais intensos já registados. Durante este período, o fenómeno El Niño contribuiu significativamente para o aumento das temperaturas globais, ajudando a que 2023 e 2024 fossem anos de calor recorde, com valores médios a aproximarem‑se ou mesmo a ultrapassarem os 1,5  graus Celsius acima dos níveis pré‑industriais.

Além disso, provocou também uma maior ocorrência de fenómenos extremos, desde secas severas a chuvas intensas em diferentes regiões do planeta. Mas, antes deste episódio que poderá estar mais fresco na memória, os mais intensos das últimas décadas foram o de 1997-98 e o de 2014-2015.

Entrem em pânico, mas não com o El Niño

Numa conferência de imprensa internacional, promovida pela World Weather Attribution (WWA), a climatóloga Friederike Otto, professora do Imperial College de Londres e co-fundadora da WWA, colocou a questão de forma muito clara: “Não entrem em pânico com a probabilidade de um fenómeno El Niño forte ou de um super El Niño. Este é um fenómeno natural. O que nos deve fazer entrar em pânico são as alterações climáticas induzidas pela actividade humana.”

“Mesmo num ano de El Niño forte, as alterações climáticas provocadas pelo ser humano têm, na maioria dos casos, um efeito muito maior na intensidade e na probabilidade dos fenómenos extremos”, argumenta a investigadora. Apesar de sublinhar que El Niño não deve ser o principal motivo de preocupação, a cientista admitiu que, caso um fenómeno El Niño forte se desenvolva no segundo semestre, poderá amplificar extremos nunca observados em anteriores fenómenos de El Niño, incluindo secas, ondas de calor e risco extremo de incêndios.

Ricardo Trigo, geofísico da Faculdade de Ciências de Lisboa, subscreve a lógica de Friederike Otto. “O El Niño sempre existiu, sempre causou impactos, mas a sobreposição de um fenómeno El Niño muito forte com uma tendência muito clarividente da temperatura da água e da atmosfera para valores mais elevados, faz com que a probabilidade de o ano 2026 e/ou de 2027 virem a ser dos anos mais quentes, e baterem recordes”, defende o investigador.

Olhando para as séries dos últimos 100 anos, constata, podemos observar que os recordes de temperatura global foram atingidos em anos em que tivemos El Niño. Sobre o facto de este fenómeno estar a aumentar de frequência e intensidade por causa das alterações climáticas a resposta é honesta: “Não sabemos.”

Num ponto há certezas: não estamos a conseguir abrandar as alterações climáticas que ameaçam o nosso futuro em múltiplas frentes. A própria Organização Meteorológica Mundial (OMM) já classificou como “extraordinário” do ponto de vista do clima extremo, alertando que a Terra está hoje “mais fora de equilíbrio do que em qualquer momento da história observada”.

Previsões?

Numa resposta enviada ao Azul, o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a médio prazo (ECMWF, na sigla em inglês) sublinha que a OMM é a entidade responsável por emitir actualizações oficiais sobre o estado do ENSO (El Niño–Oscilação Sul), enquanto o ECMWF contribui com dados de previsão sazonal e conhecimento científico para apoiar avaliações internacionais. No entanto, a cada dia que passa e com os sinais cada vez mais fortes por causa da aproximação do fenómeno, que permitem conclusões mais apuradas, há novas previsões que vão sendo actualizadas.

“A previsão sazonal mais recente de Maio do ECMWF indica um sinal mais forte de aquecimento no Pacífico tropical, especialmente na região Niño 3.4 — uma das principais para monitorizar o ENSO —, aumentando a confiança no desenvolvimento de condições significativas de El Niño no final de 2026”, refere a equipa do centro europeu. Ainda assim, acrescentam, “a intensidade do fenómeno permanece incerta: embora projecções de mais longo prazo, que se estendem até 13 meses, situem o evento no intervalo de episódios fortes como os de 1997/98 e 2015/16, não é garantido que esse nível de aquecimento seja atingido”.

Por fim, referem, “é importante considerar que o aquecimento global facilita a superação de limiares fixos de temperatura, pelo que a intensidade do El Niño poderá ser melhor avaliada através de índices relativos de temperatura da superfície do mar, tema sobre o qual o ECMWF deverá divulgar mais informações futuramente”.

Na verdade, os sinais acumulam-se. As temperaturas da superfície do mar aproximam-se de máximos históricos globais, ultrapassando em alguns dias os recordes de 2024. O gelo marinho do Árctico voltou a atingir mínimos históricos pelo segundo ano consecutivo para esta altura do ano. Ondas de calor, secas prolongadas e precipitação extrema sucedem-se num calendário com as estações do ano cada vez menos marcadas.

Previsão divulgado em Maio pelo ECMWF. No gráfico vemos a anomalia da temperatura da superfície do oceano prevista para os próximos meses, a partir de dados recolhidos num dos principais pontos de monitorização do EL Niño no Pacífico
ECMWF

El Niño e o risco de um território desconhecido

É neste plano instável que enfrentamos ainda uma elevada probabilidade de desenvolvimento de um episódio forte de El Niño na segunda metade de 2026. Para Daniel Swain, climatólogo da Universidade da Califórnia, um El Niño “sentado” em cima de um planeta a escaldar é um claro sinal de perigo, e poderá empurrar o sistema climático para território desconhecido.

“Nunca na história humana moderna enfrentámos um fenómeno El Niño forte ou muito forte com um planeta tão quente”, sublinha o cientista, citado num comunicado de imprensa. O resultado poderá ser um empurrão “temporário para valores bem acima de 1,5 graus Celsius durante seis a doze meses”.

Na prática, isso significa que em 2026 — e 2027 — poderá estabelecer-se mais um recorde global de temperatura. Um aquecimento transitório, mas suficiente para amplificar secas e cheias, desorganizar padrões de precipitação e aumentar drasticamente o risco de incêndios florestais, sobretudo em regiões onde o fogo não era historicamente dominante.

Se as alterações climáticas prometem continuar a afectar de forma dramática todo o planeta, o mesmo não se pode dizer do El Niño. Isto porque a sua influência cai de forma mais intensa em determinadas regiões do globo, deixando relativamente a salvo o continente europeu, por exemplo.

Apesar da atenção mediática gerada por um possível El Niño forte em 2026, Theodore Keeping, investigador do Centro de Política Ambiental do Imperial College de Londres, afirma que Portugal não está entre as regiões directamente afectadas por este fenómeno climático. Questionado pelo Azul, acrescenta ainda que o fenómeno não tem um impacto directo relevante na Europa. “Os efeitos mais fortes de El Niño concentram-se sobretudo nas regiões junto aos oceanos Pacífico e Índico”, explica.

“Se um fenómeno El Niño forte se desenvolver, este poderá vir a ser um dos piores anos de incêndios já observados em regiões como a Amazónia, a Austrália, o Canadá ou o Oeste dos EUA”, adianta o cientista.

E Portugal?

No entanto, a verdade é que Portugal não precisa da “ajuda” do El Niño para um preocupante risco aumentado de incêndios florestais em 2026. O nosso país não escapou à fúria do clima e começou o ano a enfrentar um comboio de tempestades com ventos e chuva de uma força impressionante, que levaram o país a um estado de calamidade e que juntaram no chão uma quantidade impressionante de combustível à espera do fogo.

No final de Fevereiro, António Salgueiro, especialista em incêndios e colaborador da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), confirmou, numa entrevista ao Azul, que Portugal tinha “milhões de árvores no chão, um risco assustador”. “É impossível limpar tudo” antes da época dos incêndios, admitiu.

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, tem insistido num apelo “muito sério” aos portugueses para que se preparem para um “Verão terrível”, pedindo que colaborem na limpeza de terrenos e áreas florestais para se minimizar o risco de incêndio.

Com as previsões de um Verão quente, o risco associado ao combustível acumulado e a certeza de que a força da natureza pode ser implacável, Portugal encontra-se em circunstâncias particularmente difíceis para evitar uma época de incêndios feroz.

E, com ou sem El Niño, Portugal destaca-se em vários relatórios científicos como uma área particularmente vulnerável a incêndios florestais. Segundo Theodore Keeping, no contexto dos incêndios registados em 2025 na Península Ibérica, um estudo recente da World Weather Attribution (WWA)​ identificou “um sinal claro de aumento das condições quentes, secas e ventosas que alimentaram esses incêndios”.

“Mesmo sem El Niño, o risco de extremos em Portugal continuará a aumentar”, acrescenta Friederike Otto. Isso inclui o fogo, mas também ondas de calor ou outros fenómenos.

A boa e a má notícia

A boa notícia — e há uma — é que a ciência de hoje não é a de 1877, quando o fenómeno El Niño mais intenso alguma vez registado matou mais de 50 milhões de pessoas em fome generalizada pela Índia, China e Brasil. Em 2026, há redes de bóias e satélites a monitorizar o Pacífico em tempo real, modelos de previsão sazonal operacionais e mecanismos internacionais de resposta. Pelo menos, o factor surpresa está mais fraco do que nunca. Mas servirá de alguma coisa?

Monitorizar não é o mesmo que estar protegido. A pergunta que este El Niño, potencialmente histórico, coloca não é apenas científica. É política, económica e social.

Na conferência de imprensa da WWA sobre o que já se passou e o que ainda nos espera em 2026, a ex-secretária executiva da ONU para as alterações climáticas e actual CEO da iniciativa onepoint5, Patricia Espinosa, alertou para um recuo preocupante nos compromissos climáticos de governos e empresas: “Estamos a assistir a um afastamento silencioso das metas climáticas. Isto coloca-nos numa trajectória de desastre global.” Talvez maior do que o fenómeno El Niño.

Os especialistas são unânimes: 2026 pode marcar um ponto crítico com trágicos recordes na história da Terra, não por causa do El Niño, mas porque temos este fenómeno natural a cair em cima de um planeta em desequilíbrio, com décadas de aquecimento acumulado. O Verão começa dentro de pouco mais de um mês. Estamos preparados?

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