Não é preciso invocar a filosofia de Ngal’ayel Mukau, médio da selecção de futebol da República Democrática do Congo, para termos a certeza de que o mito da eterna juventude não passa disso, de um mito. Quando ele nos diz que a sua selecção não aplicou um plano especial para marcar Ronaldo porque ele “está um pouco mais velho”, não está a fazer qualquer juízo de natureza pessoal, apenas uma observação cronológica associada a uma ideia de biologia e de finitude. Quando Ngal’ayel Mukau nos diz que, “quando chegas a essa idade [41 anos], não consegues fazer o mesmo”, o que espanta é que essa verdade básica e crucial não seja do conhecimento de Ronaldo ou do homem que o azar e a incompetência colocaram à frente dos destinos da selecção nacional — Roberto Martínez, de seu nome.
Esse ensaio sobre a cegueira que leva o treinador a dar a titularidade a Ronaldo e a deixá-lo em campo o jogo todo irrita, pelos danos que causa ao futebol português. Mas pior do que a irritação é a revolta provocada pela constatação de que está em curso a destruição de um dos mais poderosos símbolos de Portugal em muitas décadas — apesar dos lamentáveis fretes à Arábia Saudita e seus ditadores. Sim, sabemos que Ronaldo é ególatra, que não é capaz de reconhecer os seus limites físicos, que continua fixado em bater recordes de jogos e de participações em Europeus e Mundiais, que jamais deixará de tentar bater a marca dos mil golos. Mas sendo ele assim, alguém deve ter a coragem de o forçar a ver a realidade. E de o ajudar a acabar a sua carreira com dignidade.
O grande risco que a carreira lendária de Ronaldo corre neste momento é de vir acabar entre o ridículo e o absurdo. Ele já não corre como corria há anos, já não tem o poder de explosão, a velocidade ou o instinto que teve no seu auge há anos. O que deveria interessar-lhe neste momento, sem dúvida, era evitar que essas imagens poderosas de génio fossem apagadas ou esquecidas por uma colecção sucessiva de exibições anedóticas como a desta quarta-feira. Ver o Ronaldo, o melhor futebolista de todos os tempos, ou um dos dois melhores futebolistas de todos os tempos, ser comentado com a condescendência de Ngal’ayel Mukau, ou definido como “estátua”, “caricatura” ou “espectro” pela imprensa internacional, é doloroso.
Proteger Ronaldo do ridículo é, por isso, uma das missões mais relevantes da selecção nas Américas. Não se trata de o recambiar, apenas de lhe ajustar o potencial a um novo perfil. Que lhe permitisse entrar em jogo quando as defesas adversárias estiverem gastas, servir de exemplo aos mais jovens, incentivar os colegas com as suas palavras e o seu exemplo, como sempre soube fazer. Dando conta afinal de que, não podendo contrariar a natureza, pode e deve exercer na equipa nacional uma magistratura de influência baseada na sua paixão e no tanto que deu ao nosso futebol. Em vez de irritar os seus concidadãos ao arrastar-se em campo, devia usar a felicidade que lhes deu abrindo portas a quem lhe sucede. Seria não apenas generosidade como inteligência.
Para que isso aconteça, porém, Portugal precisa de um seleccionador e não de um escrivão focado em conservar pergaminhos do passado. Quando Martínez fez a convocatória e não levou um único jogador do futuro (deixar Quenda em Portugal é um crime), apenas para poder alimentar a sua corte do passado, alguém lhe devia ter mostrado um cartão amarelo. Quando Martínez repete o seu catálogo de escolhas sem olhar a contextos como o do adversário, do estado anímico dos jogadores ou as condições do clima, está a destruir toda a meritocracia que alimenta os egos dos jogadores e as dinâmicas das equipas. Ali, naquele ambiente protegido e cortesão, Ronaldo será sempre um príncipe e Bernardo sempre um duque, a não ser que se magoem.
Na vergonha do jogo contra a República Democrática do Congo, o que se deve antes de mais entender e discutir é o reflexo dessa atitude que transforma os titulares em dignitários de direitos de pernada para todo o sempre e que condena Ronaldo a expor-se aos comentários e títulos humilhantes que lemos por estes dias. Como se disse, Ronaldo pode ter culpas por querer ser o que sempre foi e exceder-se com maravilhas da bola como sempre se excedeu — até que o corpo lhe travou os devaneios. Mas não tenhamos dúvidas de que não é ele o culpado maior. Se queremos fazer uma coisa boa ao país e ao seu futebol, ajudando Ronaldo a acabar a carreira com dignidade, é mesmo preciso afastar Roberto Martínez.
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