Vamos todos ficar sem trabalho?

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Diz-se que a Inteligência Artificial (IA) vai desencadear uma nova revolução industrial: o mercado de trabalho transformar-se-á, a economia reorganizar-se-á e, no final de contas, todos teremos maior qualidade de vida.

Estaremos nós já a assistir a esta transição? Nas grandes tecnológicas, a IA é hoje a principal razão para despedimentos. A Meta cortou oito mil postos de trabalho e cancelou seis mil novas contratações. A Amazon despediu 16 mil pessoas. A Microsoft ofereceu reformas antecipadas a cerca de 7% dos seus empregados, pela primeira vez em 50 anos da empresa. Na maioria dos casos, estes despedimentos foram anunciados ao mesmo tempo em que as empresas apresentavam relatórios de lucros históricos.

E não é só Silicon Valley: a Altice Portugal anunciou o despedimento de 16% dos seus trabalhadores para se adaptar à IA. Os processos de despedimento colectivo em Portugal aumentaram 18% no ano passado. E a banca portuguesa gastou perto de mil milhões de euros em reformas antecipadas também em 2025.

Um relatório da Goldman Sachs diz o que os CEO não dizem: não há uma relação significativa entre a adopção de IA e maior produtividade. Segundo o MIT, apenas 5% das empresas conseguiram transformar o investimento em IA em resultados concretos.

Apesar dos avanços técnicos, a IA ainda não é capaz de substituir um trabalhador humano: falha em tarefas do dia-a-dia, alucina com convicção e não tem um modelo do mundo que lhe permita raciocinar genuinamente. Estamos, portanto, a viver uma experiência científica com consequências muito reais: despedimentos, maior desigualdade e uma dependência excessiva de uma tecnologia pouco fiável.

Se não há ainda razão para pânico, urge, pelo menos, discutir como vamos colectivamente gerir esta mudança. O desemprego não é uma inevitabilidade tecnológica, é uma escolha política.

Mas, então, quererá isto dizer que afinal não vamos ficar sem emprego? Mais ou menos. Mesmo que a IA não esteja ainda a provocar uma destruição de postos de trabalho em larga escala, a preocupação é real: mais automação, mais reestruturação e menos contratações, sobretudo no chamado trabalho de colarinho branco.

A IA generativa dos grandes modelos de linguagem (LLM) promete ao capital aceder a competências linguísticas e cognitivas que antes eram exclusivamente humanas: escrever, compreender e sintetizar, ao mesmo tempo que transfere esse conhecimento para ferramentas e algoritmos. O resultado é uma deslocação de poder: menos controlo para os trabalhadores, mais controlo para quem detém a infra-estrutura.

Kristalina Georgieva, chefe do FMI, admite que 40% dos postos de trabalho a nível mundial podem estar em risco. O Banco Mundial relata um decréscimo de 20% nas vagas abertas, sobretudo em áreas como call centers e desenvolvimento de software.

A automação de trabalho repetitivo e monótono poderia ser uma boa notícia. O problema não é a IA. É quem ganha com o que a automação produz. E, por agora, os astronómicos lucros das mesmas empresas que anunciam despedimentos em massa falam por si.

A História já nos mostrou como estas mudanças acontecem. A máquina a vapor surgiu em 1760. As primeiras leis contra o trabalho infantil apenas um século depois; o estado social, um século depois disso. A Revolução Industrial não melhorou a qualidade de vida dos trabalhadores porque as máquinas tornaram o trabalho mais fácil. Melhorou graças à sindicalização, à taxação dos mais ricos e a protecções sociais conseguidas a muito custo. Com a IA não será diferente.

As empresas estão hoje a usar a Inteligência Artificial como uma justificação conveniente para despedimentos, sob promessas de produtividade ainda por cumprir. A tendência é que a situação se agrave à medida que a tecnologia melhora. Não precisamos de entrar em pânico, mas temos de agir: através de regulação, transparência e redistribuição dos lucros. O desenvolvimento tecnológico só é positivo quando está ao serviço de todos, não apenas do capital.

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