J.D. Vance chegou, neste domingo, 21 de Junho, à Suíça para uma nova ronda de contactos entre os EUA e o Irão, numa altura em que a implementação do acordo provisório assinado entre Donald Trump e o homólogo iraniano Masoud Pezeshkian continua ameaçada pela situação no Líbano e pela disputa em torno do estreito de Ormuz.
De acordo com a Reuters, o vice-presidente norte-americano aterrou na base aérea de Emmen ao início da manhã, acompanhado pela mulher, Usha. Vance participará em reuniões que se estima que se prolonguem vários dias. Antes de partir, o vice trumpista afirmou esperar progressos, tanto na questão nuclear iraniana, como no cessar-fogo no Líbano.
Do lado norte-americano, além de J.D. Vance, participam o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Donald Trump. A Al Jazeera acrescenta que o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e o chefe das Forças Armadas paquistanesas, Asim Munir, também chegaram à Suíça para acompanhar as reuniões, uma vez que Islamabad foi o principal mediador do memorando assinado na passada quarta-feira. A agência noticiosa adianta também que o Qatar deverá estar representado nos encontros através do seu primeiro-ministro, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani.
A delegação iraniana em Bürgenstock é liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi. Integram igualmente a comitiva responsáveis da área da segurança, do banco central e do sector petrolífero.
Esta nova ronda de negociações decorre poucos dias depois da assinatura do memorando de entendimento mediado pelo Paquistão, que prevê um período de 60 dias de tréguas e conversações entre Washington e Teerão. No entanto, nas últimas horas, a estabilidade do acordo voltou a estar em causa.
Aliás, apesar do regresso à mesa das negociações, Teerão não espera avanços imediatos na vertente técnica. A Al Jazeera refere que Ghalibaf afirmou, antes de abandonar o Irão, que a deslocação à Suíça não representa ainda o início das negociações técnicas, defendendo que os Estados Unidos têm primeiro de demonstrar que estão dispostos a cumprir os compromissos que assumiram.
Para Irão e Líbano não se cumpre, para Israel cumpre-se em demasia
No sábado, o PÚBLICO noticiou que os Guardas da Revolução do Irão anunciaram o encerramento do estreito de Ormuz e avisaram que as embarcações que se aproximassem da zona poderiam enfrentar riscos. A questão do estreito surgiu em resposta a mais uma ronda de ataques israelitas no Líbano, que Teerão considera uma violação dos compromissos assumidos pelos EUA no âmbito da trégua.
Apesar do anúncio, Washington garantiu, através de várias figuras de topo, que esta que é a principal rota marítima da região continuava operacional. O Comando Central dos EUA (Centcom, na sigla em inglês) indicou, inclusive, que, no sábado, 55 navios mercantes atravessaram o estreito, transportando mais de 17 milhões de barris de petróleo destinados a mercados internacionais. Ormuz mantém uma elevadíssima importância estratégica e, por isso, qualquer perturbação é acompanhada com preocupação pelos mercados energéticos. Antes do início da guerra dos EUA e Israel contra o Irão, cerca de um quinto do petróleo mundial transitava por esta passagem marítima.
Também a Al Jazeera refere, citando os seus correspondentes no Irão, que a circulação terá sido interrompida apenas nas águas territoriais iranianas, enquanto os navios continuariam a utilizar águas sob jurisdição de Omã, e tudo não terá passado de uma demonstração de força de Teerão, para recordar os EUA de que o lado iraniano não ficou despido de força negocial. Trump continua, nas redes sociais, a afastar receios de uma interrupção do tráfego prolongada, mas a advertir que os EUA podem cobrar um valor pela utilização da rota caso o processo diplomático não chegue a bom porto.
E os apertos sobre Ormuz parecem, de facto, apenas uma resposta ao incumprimento norte-americano, já que as figuras iranianas demonstram vontade de cooperar, mas não deixam de advertir para o fraco ritmo de implementação do acordo. Mohammad Mokhber, conselheiro do líder supremo iraniano citado pela Reuters, defendeu que, enquanto os compromissos permanecerem apenas no papel, o fluxo energético da região continuará condicionado. O ministro do Petróleo iraniano, Mohsen Paknejad, citado pela agência Shana, acrescentou que o Irão está preparado para abrir centenas de oportunidades de investimento caso os países ocidentais respeitem o espírito do acordo.
Para além da questão de Ormuz, a frente libanesa mantém-se um grande factor de instabilidade. Mokhber também acusou Washington de não cumprir logo a primeira das 14 cláusulas do acordo, que inclui a cessação das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano. No sábado, poucas horas depois da entrada em vigor da trégua, Israel voltou a atacar o Líbano. O cenário de domingo, apesar de menos negro por não ter registado ataques de grande escala, continua instável. Segundo a agência libanesa National News Agency (NNA) e o Ministério da Saúde do Líbano, pelo menos sete pessoas morreram neste domingo em ataques israelitas. Cinco das vítimas, incluindo uma criança, uma mulher e dois idosos, morreram na localidade de Sohmor, no vale do Bekaa, enquanto duas pessoas de nacionalidade palestiniana foram mortas em Rashidieh, no distrito de Tiro.
Mas apesar da relação próxima com os EUA, Israel insiste não fazer parte deste acordo da mesma forma. As autoridades israelitas garantem que as tropas permanecerão nas zonas ocupadas do sul do Líbano e responderão a qualquer ameaça. De acordo com a televisão israelita Channel 12, Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa terão instruído as forças armadas a reduzirem os ataques, embora sem ordenar uma retirada dos territórios conquistados.
Cresce por isso o desconforto dentro de Israel em relação ao acordo alcançado por Donald Trump. Uma sondagem da Universidade Hebraica de Jerusalém, divulgada pela Reuters, mostra que 92% dos israelitas consideram que o Irão saiu beneficiado da guerra e do entendimento posterior. Menos de um terço dos inquiridos acredita nas afirmações de Benjamin Netanyahu sobre os resultados alcançados. As críticas ao Presidente norte-americano também se fazem ouvir na imprensa israelita, havendo inúmeros artigos de opinião publicados nos últimos dias que acusam Trump de ter abandonado Israel e de ter oferecido demasiadas concessões a Teerão.
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