Vera Jardim preocupado com aumento de casos de discriminação religiosa

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O presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, Vera Jardim, mostra-se preocupado com casos de discriminação na sociedade portuguesa com base na religião, particularmente em questões de anti-semitismo, contra o islamismo ou contra imigrantes de outras religiões.

Em entrevista à Lusa por ocasião dos 25 anos da Lei da Liberdade Religiosa, que se celebra na segunda-feira com uma cerimónia na Presidência da República, Vera Jardim, que foi também o autor do diploma, admitiu que muito mudou em Portugal e que se vive “um ambiente muito polarizado”, no que respeita à religião.

Em relação a 2001, “há diferenças para melhor, na medida em que a lei e o clima que se instalou em Portugal a partir da lei” facilitou o “diálogo inter-religioso, de compreensão inter-religiosa e de tolerância”, mas o “mundo mudou e o país também. É difícil excecionarmo-nos disso, não é?”

Hoje, “é evidente que a sociedade está mais polarizada em torno de várias questões e a religião e os movimentos religiosos também não escapam a isso”, disse.

“Em Portugal não há propriamente perseguição religiosa, nós não temos queixas de propriamente perseguição, mas temos queixa de discriminação e de alguns actos que, digamos, na altura não existiam”, salientou Vera Jardim.

“Só para dar um exemplo recente, a pichagem da sinagoga em Lisboa, era uma coisa que não existia”, um sinal que “alguma má vontade em relação ao Estado de Israel também se traduz por vezes em actos que são actos de anti-semitismo, no sentido de violadores da liberdade religiosa, visto que pichar uma sinagoga atinge directamente a liberdade dos crentes, que ficam intimidados”, observou.

No que respeita à religião islâmica, “temos tido várias queixas de discriminação, de insulto e, até de certo modo, de tentativa de exclusão do espaço público do Islão e das suas práticas” em Portugal, sublinhou Vera Jardim, admitindo que o país segue tendências de outros locais.

Combater o uso da religião como arma de ataque aos estrangeiros

“Houve mudanças que ocorreram um pouco por todo o mundo, com alguma acentuação em alguns países europeus“, em que se insiste no uso da religião como forma de atacar estrangeiros de outras crenças. O combate a este discurso contra algumas religiões só pode ser ganho através da educação, defendeu Vera Jardim.

“É através da educação, não vejo outra maneira, porque não é com proibições que esse discurso se resolve”, afirmou o antigo ministro da Justiça. “Só com a educação da tolerância e do respeito de uns pelos outros, quer entre pessoas, quer entre comunidades”, resumiu Vera Jardim.

O responsável lamentou também que os governos utilizem a religião cristã como uma arma política para atacar imigrantes e minorias, mesmo contra a vontade dos líderes religiosos. Vera Jardim salientou que a religião tem sido “usada por governos e por partidos no poder como uma arma, digamos, de arremesso contra, sobretudo, a imigração de outro tipo de civilizações ou de religiões”.

Hoje, a “Europa tem uma política de contenção da imigração que não sendo dirigida propriamente à religião”, acaba por visar fiéis de outras crenças, em particular do Islão, que “é uma religião de muitos dos imigrantes que aportam às portas” do continente.

“O ambiente social na Europa e também em Portugal mudou” e a “religião é uma arma na medida em que há políticos que defendem que a religião cristã é a base das suas sociedades” ideais.

Para Vera Jardim, “há uma captura do discurso cristão por motivos que não são religiosos”, mas que usam “a religião como uma arma política” contra os estrangeiros.

O cristianismo é invocado para “manter uma coesão nacional na base precisamente da religião” e isso não tem apoio da Igreja Católica, considerou, salientando que “isso foi visível, por exemplo, não só nas palavras do Papa em Espanha, mas da própria Igreja espanhola”.

“E em Portugal tenho visto a hierarquia da Igreja Católica a falar contra” o uso da religião como uma arma de arremesso, defendendo um “princípio de tolerância e de respeito pelo próximo, que é também reflectido nos discursos dos dois últimos Papas”, acrescentou.

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