A Federação Portuguesa de Futebol decidiu ser mais dura para com agressores (de árbitros, principalmente, mas há muito mais), dirigentes provocadores e gestores incompetentes, mas os regulamentos que se propõe agravar só se aplicam nas suas competições. Os problemas mais sérios moram fora delas, à esquerda e à direita: os maus exemplos vêm dos clubes profissionais, os casos abjectos estão no futebol distrital. Faltam dois terços do caminho. Três quartos, se contarmos com a força de bloqueio que tem sido o Tribunal Arbitral do Desporto.
As regras e o escrutínio existentes não estão a resolver os problemas na I e II Ligas, onde os agentes de jogadores tomam o lugar dos clubes e o jogo desce na hierarquia de prioridades, lentamente transformando o futebol num banal pretexto para transferências de que os empresários necessitam mais do que as equipas (as comissões cresceram 90% de 2024 para 2025, a nível mundial; o número de transferidos cresceu 50% em 10 anos. Precisam de um desenho?). As regras não dissuadem os presidentes de escalar conflitos inúteis e de, com isso, darem carta branca aos adeptos lunáticos para continuarem a ser lunáticos. As estratégias (quando existem) para erradicar o absurdo das agressões entre adultos em jogos de crianças, nas provas distritais, não funcionam. Parece que a tradição de nos escandalizarmos quando acontece e, no minuto seguinte, irmos ao Instagram amaldiçoar João Pinheiro tem as suas limitações.
Os clubes profissionais queimam mais de 17M€ em segurança. Alguns não fazem bilheteira suficiente para cobrir os custos de policiamento. Apesar disso, as claques continuam a conseguir levar, para o interior dos estádios, arsenais que o Irão e o Líbano invejariam. Os jogos continuam a parar por causa de potes de fumo e very lights. Há incêndios e feridos. Os clubes continuam a convencer o TAD (e até os tribunais administrativos) de que nada poderiam fazer para o evitar. Tirando, assim de cabeça, despedir os funcionários que abrem os estádios de véspera para contornar as revistas do dia de jogo, ou banir os “bombistas”, que a Autoridade contra a Violência até faz o favor de identificar.
As associações distritais, onde se concentram a maioria dos incidentes graves, são o elo mais fraco e precisam de ajuda (não são todas iguais nesse cadastro, já agora, e isso também é importante). Os clubes profissionais sentem-se confortáveis na condição de juízes em causa própria, primeiro como lobbyistas na velha federação, depois como efectivos proprietários dos campeonatos (que talvez não devam ser). Querem a centralização, mas querem que o centro sejam eles, não a Liga.
O futebol que o agravamento anunciado pela FPF descreve é, sobretudo, o futebol que os clubes profissionais quiseram e cultivaram. Se escaparam algumas boas medidas pela malha do autoproteccionismo, foi, umas vezes, porque se distraíram, outras porque não são assim tão difíceis de enganar. Há pouco mais de uma década, um presidente da Liga quase fez passar, camuflado numa pilha de alterações regulamentares muito aborrecidas, um artigo em que os clubes, basicamente, lhe cediam os direitos televisivos.
O futebol profissional não bate nos árbitros (por outro lado, bate em jornalistas regularmente), mas, demasiadas vezes, fala deles como se bater-lhes fosse adequado. Faz o mesmo quando menciona adversários como se estivesse a exigir o extermínio da raça. E o que o futebol profissional diz é tudo o que o povo de futebol ouve, porque, nas televisões e nos jornais, mais ninguém fala (ou, se fala, fala sobre ele). Se o arauto do jogo não é, pelo menos, co-responsável pelos caminhos que o jogo segue, quem será? O seccionista do Bobadelense?* Ainda por cima, é um caso de autoflagelação. Os valores dos patrocínios nas camisolas dos grandes clubes são uma das diferenças mais substanciais nos orçamentos, e bem acima do que sucede na TV, em comparação com os concorrentes estrangeiros. O Real Madrid recebe da Emirates dez vezes mais do que o Benfica. Sem a febre das apostas, é provável que Sporting e FC Porto nem tivessem esse espaço ocupado, porque não existe propriamente uma fila de espera e uma lista de grandes marcas interessadas num patrocínio tão íntimo. Será pelo excesso de paz e amor, com certeza.
* Clube a que pertencia o treinador adjunto que, em Março, agrediu um árbitro à cabeçada durante um jogo de sub-11
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