A associação Coração Silenciado, que representa as vítimas de abusos sexuais infligidos por clérigos ou outros membros da Igreja Católica, apresentou uma queixa junto da Ordem dos Psicólogos contra Rute Agulhas, coordenadora do Grupo Vita, pela forma como terão sido conduzidas algumas entrevistas destinadas a avaliar a necessidade de apoio psicológico e financeiro. Em comunicado, o grupo diz desconhecer qualquer queixa e “refuta” todas as acusações.
Em declarações à RTP, o porta-voz da Coração Silenciado, António Grosso, sustentou que as entrevistas foram “desenvolvidas de uma forma muito intrusiva e abusiva”, incluindo “perguntas que não tinham nada a ver com o abuso propriamente dito. Perguntar à pessoa se ainda se masturba não tem nada a ver com aquilo que se passou há 40 ou 50 anos”, disse.
Em comunicado enviado ao final da tarde, assinado por Rute Agulhas na qualidade de coordenadora do grupo de acompanhamento das situações de violência sexual sobre crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal, afirmou que todas as entrevistas foram “realizadas por uma Comissão de Instrução”, que integra mais do que uma pessoa. E fala de um “discurso público recentemente produzido, enviesado e distorcido” e que “gera ruído e mal-estar entre vítimas e sobreviventes”.
“Todas as entrevistas seguiram um guião semiestruturado, baseado nas boas práticas nacionais e internacionais para a avaliação do impacto psicológico em situações potencialmente traumáticas, bem como nas orientações éticas e deontológicas previstas pela Ordem dos Psicólogos Portugueses”, assegura a coordenadora, acrescentando que foi permitido “que cada pessoa relatasse a sua experiência com liberdade e ao seu próprio ritmo”.
“Sempre que o discurso era demasiado vago ou pouco claro, eram feitas perguntas de clarificação, nunca perguntas sugestivas”, assegurou ainda, explicando que a avaliação do dano psicológico, “sobretudo quando realizada muitos anos após os acontecimentos, exige compreender o impacto a curto, médio e longo prazo”. Para isso,” o conhecimento da trajectória de vida das pessoas é fundamental, permitindo identificar consequências directas, indirectas e cumulativas do trauma”.
O Grupo Vita “refuta, por isso, todas as acusações que têm vindo a ser feitas publicamente”, lê-se no comunicado, que clarifica que Rute Agulhas não esteve presente na entrevista realizada a António Grosso.
De acordo com a RTP, a queixa à Ordem dos Psicólogos terá dois meses, surge na sequência de um artigo publicado pela revista Sábado, em Março, em que terá sido pedido a uma vítima para esta mostrar como foi o gesto do abusador. Segundo o jornal Correio da Manhã, que pertence ao mesmo grupo de comunicação social da Sábado, essa entrevista terá sido conduzida por Rute Agulhas.
No comunicado, o grupo Vita diz não ter conhecimento de qualquer queixa apresentada à Ordem dos Psicólogos.
Estas entrevistas foram realizadas no âmbito do processo de definição das compensações financeiras. Foram apresentados 95 pedidos de compensação financeira, mas 17 casos foram “arquivados liminarmente”, por não se enquadrarem no âmbito do regulamento (12), por os denunciantes não terem comparecido às entrevistas com a comissão de instrução (três casos) nem terem pedido reagendamento ou, em duas situações, por terem deixado de responder a contactos para tentar agendar a entrevista, escreveu o PÚBLICO no final de Março, altura em que nem todos os processos tinham já valores atribuídos.
Em comunicado, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) dizia que o valor das compensações decididas ascendia a um total de 1,6 milhões de euros às vítimas. A associação Coração Silenciado, que criticou a forma como todo o processo se desenrolou, defendeu que o valor da compensação devia ser idêntico para todas as vítimas elegíveis, alegando que não se pode medir o sofrimento e atribuir-lhe um valor monetário concreto.
Em Abril, depois de uma notícia do jornal Expresso, a CEP confirmou que houve uma “redução significativa” das compensações que foram atribuídas às vítimas em relação ao que havia sido proposto pelos peritos da comissão da fixação das compensações. A decisão “foi tomada dentro do contexto global dos critérios definidos para este processo: a ponderação do que é aplicado na jurisprudência portuguesa, o exemplo de outras igrejas na Europa, o nível de vida do nosso país e a realidade concreta da Igreja em Portugal”, justificou.
Já antes, neste processo de atribuição de indemnizações, se tinha criado mal-estar quando se soube que as vítimas tinham de assinar uma declaração a dizer que “nada mais” tinham a receber, “renunciando a qualquer reclamação futura, judicial ou extrajudicial, relativa aos factos abrangidos”. Na altura, António Grosso afirmou que se tratava de “um verdadeiro tratado de chantagem e coacção”.
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