Viúva de branco e flor de laranjeira

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Sei bem o horror que causei ao entrar no cemitério vestida de noiva, a grinalda de flores de laranjeira de plástico anunciando a virgindade perdida, uma pureza tardia e inútil. Mas se era o meu noivo quem estava prestes a ser reduzido ao invisível, ao pó das estrelas, como queriam que eu aparecesse?

Queriam-me viúva clássica, de negro, muda, abatida pela perda, as mãos cruzadas sobre a resignação. E eu quis que ele me visse assim vestida de noiva. Mesmo sabendo que já não podia abrir os olhos para mim, aqueles olhos onde mergulhei a alma sem regresso e que agora se tornaram um poço definitivo. A minha sogra desmaiou ao ver a noiva indesejada do filho. Os familiares e os amigos correram para a acudir, um bando aflito em redor do corpo dela, e eu aproveitei para me aproximar do caixão, esse altar invertido onde nunca trocaríamos juras de amor eterno.

Fiquei ali, especada, diante de algo que já não era o meu noivo, apenas um corpo que não reconhecia. O homem que amo foi levado, não sei por quem, não sei para onde, sei apenas que não voltará. E eu tenho agora este vestido que nunca mais poderei usar senão neste dia, um vestido tão caro, comprado com tanto esforço para vir ao funeral do meu noivo. Sei o que pensam de mim — enlouqueceu. A minha sogra, reanimada e em choque, evita olhar-me, ninguém se aproxima. Tenho a lepra das infames, das histéricas que perturbam a ordem do luto, e ninguém me dará um abraço, ninguém pode impedir este desconsolo.

Ouço as sirenes de uma ambulância, talvez trazendo alguém que não chegou a tempo aos cuidados médicos e veio de chofre para o destino final. Estacionam junto ao portão do cemitério. Dois homens saem da ambulância com uma calma estudada e caminham na minha direcção. Mas eu não estou doente. Só triste. Muito triste. Irremediavelmente partida.

Vestem-me um casaco esquisito, um casaco invertido, as mangas ao contrário. Sobre o vestido de noiva, um colete-de-forças. Pensei que já não se usava, que fora banido dos cuidados psiquiátricos. “Eu vou pelo meu pé, não preciso disto.” Não me ouvem. Sorriem entre si como se eu fosse invisível. Entro na ambulância e, antes de arrancarmos, vejo a minha mãe baixar os olhos, escolher o chão.

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