Viva o Dia do (Psicólogo) Trabalhador!

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Nas últimas décadas, a ciência psicológica acumulou evidências que permitem afirmar, de forma inequívoca, que os principais determinantes da saúde mental são sociais e económicos. A pobreza, a precariedade laboral, a falta de condições de habitação, o acesso desigual a cuidados de saúde, o estigma e discriminação, o isolamento social e a solidão, a violência e o conflito – são estes os factores que mais pesam na balança do sofrimento psicológico. E por isso, a prevalência de problemas de saúde mental tem vindo a aumentar em todo o mundo: são mais de mil milhões de casos de ansiedade e depressão.

Portugal não é excepção. Entre vínculos temporários, falsos recibos verdes e outras formas de precariedade, quase um em cada três trabalhadores vive sem segurança laboral (somos o segundo país da UE com maior taxa de contratos precários). Cerca de 9% dos trabalhadores vive em situação de pobreza, uma taxa que sobe para mais de 10% entre quem tem contrato temporário e para quase 28% entre os trabalhadores por conta própria.

A habitação é uma equação impossível, com preços muito acima dos rendimentos das famílias. A desigualdade social é vincada: entre homens e mulheres (com as mulheres a acumular responsabilidades profissionais, familiares e domésticas e a receber, comparativamente aos homens, salários que equivalem a 46 dias de trabalho não remunerado por ano); entre classes (com o rendimento dos 10% mais ricos quase oito vezes superior ao dos 10% mais pobres); e entre grupos sociais, com a persistência da estigmatização das minorias étnicas, religiosas e sexuais – recordemos, a propósito, a recente aprovação de vários projectos de lei no sentido da revogação do direito à autodeterminação de género.

É neste quadro que suspendemos a respiração face à eventual aprovação do novo pacote laboral, uma revisão do Código do Trabalho que aprofunda a insegurança e a precariedade a que os trabalhadores estão sujeitos, prevendo, entre outras medidas danosas, o alargamento dos contratos a prazo, o regresso do banco de horas individual, a desregulação dos horários e o enfraquecimento da contratação colectiva.

Olhando para o panorama social e económico, não surpreende que sejamos um país psicologicamente adoecido. De acordo com o Estudo Nacional de Saúde 2025 da Marktest/Medicare, cerca de 34.5% dos portugueses entre os 18 e os 64 anos experienciaram sintomas de ansiedade, burnout, pânico ou depressão no último ano, apontando as preocupações financeiras (32%), o stress laboral (26%) e a solidão (10%) como principais motivos para as suas dificuldades de saúde mental. As mulheres são desproporcionalmente afectadas, com 55% a reportar níveis elevados de stresse (face a 44% dos homens). Também os jovens são um grupo de risco. Quase metade da população entre os 18 e os 24 anos (49.8%) enfrentou dificuldades de saúde mental nos últimos doze meses.

A prevalência de problemas de saúde mental em Portugal, que ronda os 22%, é uma das mais altas da EU (cuja média é de 16.7%) e representa 12% da carga global de doença, mais do que as doenças oncológicas. Em 2025, foram vendidas 80 mil embalagens de psicofármacos – o valor mais elevado da última década. Paradoxalmente, somos um dos países que menos investe em cuidados de Saúde Mental, com pouco mais de mil psicólogos em todo o SNS, assimetrias territoriais marcadas e elevados tempos de espera. É o retrato de um território cujas políticas continuam a tratar a saúde mental como uma dimensão menor e a ignorar, sistematicamente, aquilo que a mina.

A saúde mental depende do contexto socioeconómico. E para o modificar, as pessoas precisam de estar psicologicamente saudáveis. A acção dos psicólogos – de prevenção, intervenção e promoção em saúde mental – está no centro desta equação difícil. Estamos sujeitos às mesmas dificuldades que afectam quem nos procura: a instabilidade contratual, salários baixos e incompatíveis com a exigência das nossas tarefas e ainda, muitas vezes, um trabalho solitário, que pesa sobre a nossa saúde mental. Somos a nossa própria ferramenta de trabalho, inseparável das nossas características, experiências e vulnerabilidades, e também da nossa condição de trabalhadores. Embora a sala de consulta seja um espaço individual, o que entra pela nossa porta é, quase sempre, colectivo.

Aproveitemos o 1.º de Maio para reafirmar, com clareza, o que a evidência científica nos impõe: conhecendo o peso dos determinantes socioeconómicos da saúde mental, em nós e nos outros, parte do nosso trabalho passa, necessariamente, pela sua transformação, nomeadamente, apoiando quem acompanhamos no reconhecimento das causas do seu sofrimento psicológico e no desenvolvimento de competências para agir sobre elas. Esta tarefa impõe-nos a necessidade de superação de uma qualquer neutralidade – na verdade, inviabiliza-a. Nesse sentido, o compromisso político do psicólogo não é uma contaminação da prática. É uma exigência profissional e científica. Se o trabalho digno é um determinante da saúde mental, a luta por condições dignas de trabalho e de vida é um elemento central na sua promoção, portanto, parte integrante da nossa missão. Não apesar de sermos psicólogos – mas, justamente, porque somos Psicólogos. Viva o Dia do Trabalhador.

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