Considerando o histórico da Volvo no segmento dos SUV familiares, o EX60 parece condenado ao sucesso. E, desde já, após duas a três horas ao volante por Barcelona e arredores, podemos dizer que argumentos não lhe faltam.
Trata-se, naturalmente, de um primeiro contacto e não de uma análise definitiva, mas este breve vislumbre pelas estradas catalãs — combinando o trânsito urbano com o asfalto retorcido das colinas circundantes — permitiu perceber com clareza a direcção que a marca sueca tomou. Numa altura em que o mercado transborda de SUV eléctricos, muitas vezes pouco diferenciados, a Volvo apostou forte naquilo que sempre fez melhor: a vida a bordo e a inteligência prática.
Nova base técnica para ir mais longe
O EX60 estreia a plataforma SPA3, uma arquitectura desenvolvida sobre um sistema eléctrico de 800 volts. Esta mudança técnica dita o ritmo de tudo o que o carro consegue fazer na estrada. Tivemos a oportunidade de ensaiar as duas variantes que vão chegar primeiro ao mercado, começando pelo EX60 P6 RWD (a partir de 67.906 euros), com tracção traseira, equipado com um motor de 275 kW (374cv). O conjunto conta com uma bateria com 80 kWh de capacidade útil, prometendo uma autonomia homologada de até 620 quilómetros em ciclo WLTP. E, considerando a realidade do mercado nacional, perfila-se como a escolha mais acertada. Os níveis de aceleração, com o clássico arranque dos 0 aos 100 km/h cumprido em 5,9 segundos, e as recuperações em ultrapassagem muito convincentes revelam uma agilidade que surpreende para um veículo deste porte, ideal para enfrentar o relevo luso com total tranquilidade.
No entanto, a Volvo colocou um dilema interessante em cima da mesa. A versão P10 AWD, que junta um segundo motor no eixo dianteiro para oferecer tracção integral e uma potência combinada de 375 kW (510cv), custa apenas mais três mil euros. Esta variante traz também uma bateria maior, com 91 kWh úteis, elevando a autonomia oficial para os 660 quilómetros e reduzindo o tempo de arranque até aos 100 km/h para uns céleres 4,6 segundos. É uma margem de preço invulgarmente curta na indústria automóvel premium e que fará muitos clientes hesitar na hora de configurar o automóvel, já que a tracção às quatro rodas, a suspensão mais sofisticada e o fôlego extra surgem por um valor pouco relevante face ao custo total do veículo. Mais tarde surgirão a versão de topo P12, com uma autonomia WLPT acima dos 800 quilómetros, e as propostas Cross Country.
Independentemente da motorização escolhida, o grande destaque deste primeiro teste vai para o excelente equilíbrio entre a dinâmica e o conforto. A suspensão digere com eficácia invulgar as irregularidades do piso urbano sem que isso resulte num adornar excessivo da carroçaria quando decidimos adoptar um ritmo mais vivo nas curvas.
À margem do evento, conversámos com Adrian Thuresson, director de tecnologia e programas de electrónica de potência da Volvo, que nos explicou como a gestão da energia foi optimizada nesta nova geração. Graças à arquitectura de 800 volts, o EX60 suporta potências de carregamento rápido invulgares, atingindo os 320 kW na versão P6 e uns impressionantes 370 kW na versão P10. Resultado: mitiga as habituais preocupações em viagens longas, permitindo recuperar perto de 300 quilómetros de autonomia em apenas dez minutos de paragem, uma marca que começa a aproximar o abastecimento eléctrico do tempo que se gasta a atestar um depósito de combustível.
O luxo que se vê nos detalhes
Esqueçamos os ecrãs gigantescos e as luzes garridas. É no habitáculo que o EX60 se começa a distanciar dos rivais através de pormenores que revelam uma enorme maturidade de concepção. Tivemos também uma conversa esclarecedora com Lisa Reeves, responsável pelo design de interiores da marca, que nos guiou com entusiasmo pelos bastidores do desenvolvimento do habitáculo. Reeves sublinhou que o luxo contemporâneo não reside na opulência visual, mas sim no modo como o desenho resolve os pequenos problemas do dia-a-dia.
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Olhemos, por exemplo, para os comandos dos quatro vidros na porta do condutor. Em vez da solução táctil confusa que algumas marcas concorrentes adoptaram, a Volvo manteve botões físicos, mas elevou ligeiramente a posição dos comandos dos vidros dianteiros em relação aos traseiros. Através do mero tacto, sabemos exactamente em que botão estamos a tocar, evitando aquele clássico momento irritante em que queremos abrir a nossa janela e acabamos por baixar o vidro de trás.
Outro detalhe precioso encontra-se no porta-luvas central. Lá dentro, estão escondidas duas portas USB-C — uma mais modesta de 18 watts e outra com uns generosos 60 watts, capaz de alimentar directamente um computador portátil moderno. Aqui, o pormenor está numa pequena ranhura, que permite guiar o cabo para o exterior, significando que podemos ter o smartphone a carregar mantendo o porta-luvas fechado e sem esmagar o fio. Mas nem precisamos de cabo porque há uma base de carregamento sem fios refrigerada para evitar sobreaquecimento do smartphone — mais um detalhe.
A habitabilidade traseira merece uma menção honrosa devido a uma característica estrutural que falha em muitos eléctricos. Devido à espessura das baterias sob o piso, os passageiros dos bancos de trás são frequentemente obrigados a viajar com os joelhos excessivamente elevados. No EX60, o fundo baixo foi projectado de forma a permitir que as coxas fiquem totalmente assentes no banco, mantendo os joelhos numa posição natural, existindo ainda um espaço generoso para colocar os pés por debaixo dos assentos da frente. Para maximizar o bem-estar em viagens longas, os bancos traseiros contam com regulação eléctrica da inclinação das costas, operada através de comandos instalados nas próprias portas. Até os puxadores exteriores das portas foram alvo de reflexão. Foram integrados em pegas superiores, o que evita as falhas ergonómicas e as dúvidas de segurança em caso de embate que afectam os puxadores embutidos.
Tecnologia com inteligência natural
No capítulo da arrumação, a bagageira de 523 litros introduz um sistema tripartido muito prático. O fundo falso dispõe de dois acessos independentes, facilitando a organização de objectos de dimensões variadas sem obrigar a retirar toda a carga da mala. Abaixo deste nível, reside um balde impermeável de 63 litros, ideal para arrumar cabos sujos ou fatos de banho molhados. Na frente do veículo, a frunk, ou seja, a bagageira dianteira, oferece um volume de 58 litros, libertando o espaço traseiro daqueles volumosos estojos de cabos que nunca sabemos bem onde colocar.
A vertente tecnológica está ancorada num ecrã central panorâmico de 15 polegadas, que corre o sistema de infoentretenimento desenvolvido em parceria com a Google. A sincronização com a nossa conta pessoal, incluindo agenda, contactos e destinos frequentes do mapa, é imediata. A grande novidade nesta interacção é a integração nativa da inteligência artificial através do Google Gemini, que permite uma conversação perfeitamente fluida. Durante o nosso teste no trânsito de Barcelona, pusemos o sistema à prova. Pedimos-lhe que nos entretivesse com uma breve história sobre a arquitectura da cidade e, logo a seguir, que organizasse os compromissos do dia de trabalho enquanto percorríamos os últimos quilómetros. A resposta foi rápida e natural, transformando o tempo perdido nas filas de trânsito num momento produtivo e descontraído.
Contudo, nem tudo são decisões irrepreensíveis. A posição de condução é óptima, oferecendo aquela visibilidade dominante que os clientes deste segmento tanto apreciam, mas a Volvo cedeu à tentação da digitalização radical em áreas onde a tradição devia imperar. A regulação dos espelhos retrovisores exteriores e da coluna de direcção é feita obrigatoriamente através do ecrã central, gerindo depois o ajuste físico através dos joysticks integrados no volante.
O posicionamento de preço situa-se num patamar elevado, algo expectável para um produto que quer ombrear com as propostas premium tradicionais. Contudo, as tabelas alinham-se de forma muito justa com o actual XC60 híbrido plug-in e com os rivais directos, pelo que o factor financeiro não deverá ser um obstáculo para quem já se movimentava nesta esfera de mercado.
Estas escassas horas ao volante deixaram-nos convencidos que o EX60 tem o potencial para ser um dos melhores SUV do mercado. Ficámos com muita vontade de o receber em Portugal para o teste completo.
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