WLTP: como funciona o teste que mede os consumos e a autonomia dos carros

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Quando entra num stand de automóveis, lê a análise a um veículo ou consulta a ficha técnica de um modelo, certamente vai “tropeçar” na sigla WLPT. Este acrónimo técnico tornou-se o elemento central para definir se um automóvel é poupado ou se uma bateria é verdadeiramente capaz de o levar de uma ponta à outra do país. No entanto, muitos condutores continuam a olhar para estes números oficiais com desconfiança, percebendo que os valores anunciados nem sempre batem certo com a realidade do dia-a-dia.

Veja-se o caso recente da terceira geração do Nissan Leaf. O modelo topo de gama com bateria de 75 kWh anuncia uma autonomia oficial de até 604 quilómetros sob o padrão WLTP. Contudo, o fabricante esclarece logo de seguida que, numa viagem em auto-estrada a 130 km/h constantes, a autonomia real expectável baixa para os 330 quilómetros. Já em percursos exclusivamente urbanos, a média apontada, com condições meteorológicas moderadas, também fica longe do anunciado: chega aos 665 quilómetros. Para compreender esta diferença substancial, importa desmistificar o funcionamento deste selo de homologação que dita também os impostos que pagamos.

O que significa afinal a sigla WLTP?

A sigla WLTP traduz-se por Worldwide Harmonised Light Vehicles Test Procedure, ou seja, Procedimento de Teste Global Harmonizado para Veículos Ligeiros. Trata-se de um conjunto de normas globais desenvolvido para calcular os consumos de combustível, as emissões de dióxido de carbono e de poluentes, bem como a autonomia dos automóveis eléctricos e híbridos.

Este protocolo foi introduzido em Setembro de 2017 para substituir o obsoleto ciclo NEDC, tornando-se obrigatório para todos os automóveis novos matriculados a partir de Setembro de 2018. O objectivo principal da sua criação foi aproximar os testes laboratoriais das condições reais de condução, oferecendo dados mais transparentes e comparáveis entre diferentes marcas e modelos do mercado.

Os valores de autonomia e emissões medidos pelo WLTP são usados em Portugal para definir parte da carga fiscal sobre os automóveis

Quais são as variantes e o que escondem as siglas TEL e TEH?

O WLTP não trata todos os veículos da mesma forma, apresentando variantes importantes na divulgação dos seus resultados. A informação mais comum divide-se entre o ciclo misto, ou combinado, e o ciclo urbano. O ciclo misto junta simulações de cidade, estradas nacionais e auto-estradas, criando a média global que serve de referência comercial. É normalmente este que é anunciado. Por sua vez, o ciclo urbano foca-se apenas nas velocidades baixas e paragens frequentes das cidades, sendo usado por algumas marcas como forma de anunciar maiores autonomias ou menores consumos de energia. Esteja atento, porque as duas variantes não são comparáveis.

Nos bastidores da homologação, existem ainda duas siglas determinantes para os engenheiros: TEL (Test Energy Low) e TEH (Test Energy High). O TEL analisa a versão mais leve e despida do modelo, com as jantes mais pequenas e sem opcionais que prejudiquem a aerodinâmica. O TEH avalia a configuração mais pesada e equipada. É por esta razão que as marcas hoje divulgam intervalos de consumo. Ao escolher uma versão com tecto de abrir ou pneus mais largos, o comprador deve saber que o seu consumo real estará muito mais próximo do valor máximo do TEH.

Como são realizados os ensaios laboratoriais?

O teste WLTP não é feito na rua, mas sim num ambiente controlado de laboratório, sobre uma bancada de rolos onde o automóvel acelera e trava de forma simulada. O procedimento padrão dura exactamente trinta minutos, durante os quais o veículo percorre uma distância teórica de 23,26 quilómetros. A temperatura no laboratório é fixada nuns estritos 23 graus Celsius, embora na Europa seja aplicada uma correcção adicional para os 14 graus Celsius, reflectindo melhor a média europeia.

Ao longo do teste, o perfil de condução é bastante dinâmico e divide-se em quatro fases distintas: baixa, média, alta e muito alta velocidade. Isto simula uma viagem que começa nos arranques e paragens da cidade e termina na velocidade máxima permitida por lei, que no teste atinge os 131,3 km/h. A velocidade média global ronda os 46,5 km/h. Outro factor inovador é que o WLTP obriga a testar o impacto do peso extra dos equipamentos opcionais do carro, como as jantes maiores ou o tecto de abrir, que prejudicam a aerodinâmica e aumentam o consumo.

Qual é a diferença entre o WLTP e o antigo NEDC?

Se recuarmos a antes de 2017, o padrão em vigor era o NEDC (New European Driving Cycle), um método desenhado na década de 1980 e ligeiramente actualizado em 1997. O NEDC parecia uma utopia automóvel: os testes duravam apenas vinte minutos, as acelerações eram extraordinariamente lentas e o veículo passava quase um quarto do tempo totalmente imobilizado. A velocidade máxima mal tocava os 120 km/h e ignoravam-se por completo os opcionais do veículo.

O resultado era uma ficção de folheto publicitário. Os carros prometiam consumos impossíveis de replicar na estrada. Com a transição para o WLTP, os valores oficiais de consumo de combustível e emissões subiram, em média, cerca de 20%, reflectindo com muito maior fidelidade o esforço real do motor.

Como varia o teste entre carros eléctricos, híbridos e a combustão?

A aplicação do WLTP varia consoante a tecnologia que move as rodas. Nos modelos puramente a combustão, o processo centra-se na recolha dos gases de escape para medir o combustível queimado e o dióxido de carbono libertado. Nos automóveis 100% eléctricos, o teste começa com a bateria totalmente carregada e o veículo roda consecutivamente até descarregar por completo, apurando-se assim a autonomia máxima e o consumo em quilowatts hora por cada cem quilómetros (kWh/100km), contabilizando inclusive a energia que se perde sob a forma de calor durante o carregamento.

O verdadeiro quebra-cabeças surge com os híbridos plug-in, que combinam o melhor e o pior de dois mundos. Para estes modelos, o ensaio WLTP é realizado duas vezes. O primeiro teste arranca com a bateria cheia e é repetido até que o motor eléctrico esgote a sua energia primária. O segundo ensaio é feito com a bateria totalmente descarregada, funcionando o carro apenas com o motor térmico. No final, uma fórmula matemática pondera ambos os resultados com base num factor de utilidade, que assume que a maioria das viagens diárias será feita em modo eléctrico, resultando em médias oficiais surpreendentemente baixas, que exigem pezinhos de lã na vida real.

Como se compara o WLTP com os testes dos EUA e da China?

O WLTP ambiciona ser um padrão global, mas o mundo automóvel continua dividido por blocos geográficos. Nos Estados Unidos, a agência governamental EPA (Environmental Protection Agency) dita regras diferentes. O ciclo norte-americano é muito mais severo e aplica um factor de correcção matemático que reduz os resultados laboratoriais em cerca de 30% para simular a condução real com ar condicionado ligado e temperaturas extremas. Por isso, a autonomia de um veículo eléctrico homologado pela EPA é quase sempre inferior e mais realista do que o valor WLTP europeu.

No extremo oposto encontramos a China e o seu protocolo CLTC (China Light-Duty Vehicle Test Cycle). Projectado para a realidade do trânsito chinês, este ciclo privilegia velocidades médias muito baixas, paragens frequentes e pouca condução em auto-estrada. Como resultado, os valores de autonomia sob o padrão CLTC tendem a ser extremamente optimistas, exibindo números inflacionados que raramente sobrevivem a uma viagem numa auto-estrada europeia.

O WLTP reflecte com exactidão os consumos no mundo real?

A resposta curta é não, mas está muito mais próximo de o fazer do que qualquer padrão anterior. O condutor comum deve olhar para o valor WLTP como uma base científica de comparação justa entre veículos, e não como uma promessa absoluta. Se o leitor mantiver uma condução descontraída, em trajectos suburbanos e com temperaturas amenas, conseguirá aproximar-se bastante da média homologada.

Pelo contrário, se abusar da velocidade na auto-estrada, ligar o ar condicionado no máximo num dia gélido de Inverno ou carregar o automóvel com bagagem, a física ditará a sua lei. Os desvios na autonomia ou no combustível gasto vão acontecer inevitavelmente. Ainda assim, ao contrário do antigo e fantasioso NEDC, o WLTP deixou de ser um mero exercício de ficção científica para passar a ser um guia útil e confiável para as decisões de compra dos consumidores.

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