A crise alimentar provocada em 2025 por Israel ao bloquear a ajuda humanitária em Gaza teve um efeito devastador nas mulheres grávidas e lactantes, bem como nos recém-nascidos e bebés, revelou a Médicos Sem Fronteiras (MSF).
O estudo revelado nesta quinta-feira, 7 de Maio, em Genebra indica que, entre Outubro de 2024 e o final de 2025, as equipas da MSF prestaram assistência a 513 crianças com menos de seis meses, das quais 91% corriam o risco de problemas de crescimento e desenvolvimento.
Em Dezembro passado, 200 bebés já não faziam parte dos programas: 32% (64 crianças) tiveram de os abandonar devido à insegurança e à deslocação, e 7% (14) faleceram, segundo os dados do estudo.
Os primeiros casos de desnutrição infantil foram identificados em Janeiro de 2024 e, até Fevereiro passado, foram atendidas 4176 crianças e 3336 mulheres com desnutrição aguda, indicou a MSF.
Mais de metade das mães de recém-nascidos atendidas pela MSF foi afectada pela desnutrição em algum momento da gravidez, 25% das quais continuavam desnutridas após o parto, indicaram os estudos da organização.
A MSF estabelece uma ligação entre os dados recolhidos e o bloqueio israelita, bem como os ataques contra infra-estruturas civis, incluindo estabelecimentos médicos.
“A insegurança, as deslocações da população, as restrições à ajuda humanitária e o acesso limitado a alimentos e cuidados médicos tiveram consequências devastadoras na saúde materna e neonatal”, afirma a organização, num comunicado.
“As famílias adoptaram mecanismos de sobrevivência, dando frequentemente prioridade aos homens e às crianças em detrimento das mães na hora de distribuir os escassos alimentos”, descreveu a coordenadora médica da MSF para a Palestina, Marina Pomares.
A situação continua “extremamente frágil”, apesar de um cessar-fogo em vigor desde Outubro, após dois anos de conflito, acrescenta a MSF, apelando a Israel para que autorize imediatamente a entrada sem entraves da ajuda em Gaza.
No terreno, “a crise de desnutrição é inteiramente provocada”, afirma a responsável médica da MSF para as emergências, Merce Rocaspana, citada no comunicado.
Antes de a guerra eclodir no território palestiniano, na sequência do ataque levado a cabo pelo movimento fundamentalista islâmico Hamas em Israel a 7 de Outubro de 2023, “a desnutrição em Gaza era praticamente inexistente”, sublinha a activista.
As equipas da MSF observaram ainda um dos factores que contribuiu para o elevado número de abortos espontâneos foi o stress causado pela dificuldade de acesso à ajuda humanitária e pela insegurança.
As agências internacionais estimaram que, durante grande parte de 2025, três quartos da população de Gaza sofria de elevados níveis de insegurança alimentar e, em Agosto, foi declarado o estado de fome, o primeiro de sempre registado no Médio Oriente.
A análise aponta também críticas à Gaza Humanitarian Foundation (GHF) — uma organização privada apoiada pelos Estados Unidos e por Israel —, criada em Maio de 2025 para substituir a ONU e organizações não governamentais na prestação de ajuda humanitária, antes de ser dissolvida em Novembro.
Com a chegada da GHF, o número de pontos de distribuição de alimentos em Gaza passou de cerca de 400 para quatro pontos “militarizados e mortíferos”, sublinha o chefe da unidade de emergência da MSF, Jose Mas, citado no estudo.
Durante esse período, acrescenta a MSF, as estruturas que apoiavam em Gaza constataram “um forte aumento do número de pacientes que procuravam tratamento devido à violência perpetrada nos pontos de distribuição alimentar e à desnutrição associada à privação de alimentos”.
Ainda segundo Mas, o cessar-fogo trouxe alguma estabilidade, mas a situação continua extremamente frágil e as equipas da organização continuam a admitir novos doentes com desnutrição.
“A população de Gaza é obrigada a suportar condições de vida deliberadamente indignas e carece de acesso a ajuda, rendimentos e recursos básicos”, sublinha o dirigente.
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