Sete anos depois de ter sido detectada pela primeira vez em Portugal, a bactéria patogénica Xylella fastidiosa — apelidada o “Ébola do mundo vegetal” — instalou-se no Alentejo. Em Fevereiro de 2026, a sua presença foi confirmada em Grândola; desde o ano passado, em Marvão, onde já infectou oliveiras e videiras. A ameaça que o sector agrícola temia desde 2019 é agora uma realidade, com a bactéria instalada pela primeira vez no Sul do país, a poucos passos dos olivais intensivos, amendoais, vinhas e montados que hoje definem a região.
O Despacho n.º 47/G/2026, publicado a 18 de Fevereiro, veio anunciar que a presença da bactéria X. fastidiosa foi “laboratorialmente confirmada em oito amostras” colhidas na freguesia do Carvalhal, no concelho de Grândola, refere em comunicado a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). O Carvalhal concentra um importante e extenso montado de sobro.
As plantas identificadas como infectadas pertencem aos géneros e espécies Acacia sp., Halimium halimifolium, Lavandula angustifolia, Lavandula dentata e Santolina impressa. A subespécie da bactéria detectada na zona demarcada de Grândola é a Xylella fastidiosa subsp. multiplex.
Subespécies diferentes
Mais recentemente, a informação publicada pela DGAV, através do Edital 10/2026/XF/AL, relativo à actualização da zona demarcada de Marvão, enumera mais de duas dezenas de plantas infectadas neste concelho, entre as quais oliveiras (Olea europaea), videiras (Vitis spp.), sobreiros (Quercus suber), carvalho-negral, esteva, urze e rosmaninho. A presença da bactéria foi laboratorialmente confirmada em 43 amostras, perfazendo “actualmente um total de 56 zonas infectadas na zona demarcada para Xylella fastidiosa de Marvão”, salienta a DGAV.
A subespécie da bactéria identificada nesta zona demarcada corresponde à Xylella fastidiosa subsp. fastidiosa, distinta da detectada em Grândola — uma linhagem associada a estirpes californianas consideradas altamente virulentas para a vinha e a amendoeira. A detecção em sobreiros é particularmente crítica para o Alentejo, onde o montado é a base da indústria da cortiça e um pilar da biodiversidade regional.
No Alentejo, o sector agrícola tremeu desde 2019, antecipando as consequências da extensão da praga às culturas intensivas do olival, amendoal e vinha, mas também às espécies frutícolas, ao montado de sobro e azinho e a uma imensidão de espécies vegetais.
Na mais recente actualização realizada pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA, na sigla em inglês) sobre plantas que actuam como hospedeiros da X. fastidiosa, a lista inclui 595 espécies. A maioria foi infectada naturalmente em França, Itália, Portugal e Espanha.
Abate de plantas no Norte
A ameaça que veio do Norte do país, onde já obrigou ao abate de milhares de plantas, foi-se estendendo ao longo de seis anos por dezenas de zonas demarcadas do Norte e Centro, até se instalar agora no Sul. As plantas chegaram a Portugal “à boleia” de importações ornamentais, possivelmente sem passaporte fitossanitário. A bactéria foi detectada pela primeira vez em Portugal em Janeiro de 2019, em Vila Nova de Gaia, em plantas do género Lavandula — lavanda ornamental que não apresentava sinais da doença.
Portugal mantinha desde 2014 um programa nacional de prospecção anual da bactéria, que até então não a tinha assinalado em território nacional. O valor desta vigilância fica patente no caso do Algarve: em 2021, um foco isolado foi detectado num viveiro em Tavira — e erradicado com sucesso em 2022, graças à intervenção rápida das autoridades. No Alentejo, onde a bactéria atingiu a flora espontânea e o montado, essa janela de oportunidade fechou-se.
A descoberta da X. fastidiosa em Portugal passou a alimentar o receio de uma catástrofe semelhante à que ocorria desde 2013 na região da Apúlia, no Sul de Itália. Foi aí que a bactéria foi detectada pela primeira vez na Europa — onde chegou vinda dos Estados Unidos da América. Conhecida naquele país do Mediterrâneo como a praga das oliveiras, rapidamente provocou o colapso do sector olivícola: estima-se que tenham morrido 21 milhões de árvores, com perdas anuais de produção que ascendem a 5,5 mil milhões de euros. A situação mantém-se nos dias de hoje.
Em Portugal, a cigarrinha-da-espuma (Philaenus spumarius), que se alimenta da seiva do lenho das plantas, foi identificada como o vector primário, provocando deficiências na absorção de água e minerais pelas plantas e bloqueando o xilema, o tecido responsável pelo transporte desses nutrientes. No Alentejo, o pico de transmissão ocorre entre meados de Julho e início de Agosto, quando os adultos migram das ervas para as copas das árvores — tornando o controlo da vegetação herbácea na Primavera uma das medidas preventivas mais eficazes disponíveis.
A X. fastidiosa não possui um tratamento directo que erradique a doença, o que torna o seu controlo extremamente difícil. A destruição de plantas infectadas e o controlo de insectos vectores são, de momento, as principais medidas para prevenir a disseminação da bactéria.
O custo desta estratégia fica claro nos números do Norte do país: entre 2019 e 2023, a destruição de cerca de 412.500 plantas gerou custos directos de mais de um milhão de euros, com custos de replantio estimados em 6,81 milhões de euros. No Alentejo, onde as propriedades são vastas e os sobreiros e olivais demoram décadas a atingir a maturidade, o impacto de cada foco positivo pode ser muito mais gravoso. É essa a fronteira em que Portugal se encontra agora, com a bactéria instalada pela primeira vez em pleno Alentejo e sem resposta definitiva à vista.
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