Sororidade e apoio radical

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Estava a ouvir a Leonor Caldeira e pensei muito na minha avó materna, a avó Micas. A minha avó, que fez agora 83 anos no Dia da Mãe, teve três filhas mulheres, com três anos de intervalo entre cada uma. Nascida numa classe baixa, numa aldeia no Norte do país, transformou a sua vida numa missão singular: garantir que cada filha tivesse um curso superior, uma casa própria e a carta de condução.

Este pensamento, com a sua aparente simples educação da 4.ª classe, parece-me revolucionário para o seu contexto: tenho três filhas mulheres, preciso de garantir que tenham casa, trabalho e mobilidade própria, posse do seu ganha-pão, da sua habitação e do seu meio de transporte.

Trabalhava dia e noite e, muitas vezes à revelia do seu marido, o meu avô, esboçava os passos deste plano triplo. Comprava um pedaço de terra bem negociado, que valorizava e revendia; trabalhava para começar a construir, e por aí fora. Era costureira e todos os dias, até à meia-noite, não parava o pedal, produzindo os “lookinhos” para as famílias da zona, que rendiam para pagar mais um ano de estudos, mais uma parede numa das casas, e por aí fora.

E conseguiu: construiu três casas, pagou três licenciaturas e três cartas de condução. Houve momentos em que, ao ouvir esta história, achei um exagero esta fixação na execução exímia deste plano, que era só seu e que lhe custou horas a fio de trabalho extra, muito cansaço e tempo de vida.

A verdade é que, em momentos de separações e divórcios de casamentos convencionais na vida destas três irmãs, que aconteceram na idade adulta, foi precisamente esta obstinação da avó Micas que lhes permitiu, e a mim também, enquanto sua neta, continuar uma vida digna, independente e possível. E que lhes possibilitou também nunca pensar nas decisões duras das rupturas a partir de um lugar de impossibilidade de continuar a estar bem.

A minha avó foi verdadeiramente revolucionária na concretização do plano que engendrou para as suas três filhas mulheres e, quando penso em sororidade, penso nela. Talvez este tipo de sacrifícios só os conheçamos em contexto de descendência directa, mas não deixo de pensar que o espírito da sororidade, que é resistência, porque é sempre uma resposta ao sistema patriarcal, como diz a Leonor Caldeira, passa também por criarmos mecanismos radicais de apoio entre quem não somos homens cis brancos e entre quem estamos nesse lugar de querer outros mundos.

A ideia de um suporte incondicional, que transcende a família, parte do princípio de que a família é um modelo económico criado pelo patriarcado e assenta em noções ilimitadas de amparo. O ilimitado aqui não tem a energia do crescimento exponencial que sugere, por exemplo, o sistema capitalista, mas antes o espírito confortável e abundante que propõe, por exemplo, a imagem de uma cordilheira. Ou seja, não é uma imagem vertical de crescimento, mas horizontal, em alcance.

É verdadeiramente difícil perceber qual a estratégia, qual a performance que fazemos enquanto seres que resistem ao organismo patriarcal. Um dia és uma girl boss e serves-te dos meios do opressor para chegar mais longe, mesmo sabendo, como escreveu Audre Lorde, que os meios do opressor nunca desmantelarão o seu sistema; no dia seguinte queres casar e ter filhos porque há uma parte de ti que te faz sentir angústia com a ausência dessa ideia na tua vida; no outro queres ficar em casa e não fazer nada, porque estás perto de um burnout porque és, às vezes, essa girl boss; na semana seguinte queres ser um patrão e conquistar o mundo, até fazes as unhas, mas depois tiras as unhas porque não acreditas no liberalismo e é demasiado feminino e ainda por cima foi barato; usas maquilhagem, mas decides nunca mais usar quando lês um artigo no jornal.

Está tudo certo. Quer dizer… Não está. Mas está. Temos de perceber que há contradições nesta organização e tomada de decisões, porque estamos a aprender como fazer isto. No caminho, é mais fácil se nos quisermos entre as pessoas que estamos a tentar imaginar outras histórias para nós. Genuinamente, inteiramente bem. A ideia de nos organizarmos em rede, e não presas à figura isolada do indivíduo independente, precisa de ganhar espaço. Se em algum momento essa independência total pareceu uma resposta possível ao patriarcado, hoje percebemos que não chega. O que se torna necessário é outra coisa: ligação, suporte e continuidade entre pessoas.

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