Um vírus muito mediático

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Ao longo das últimas semanas, as várias guerras que assolam o mundo, as declarações sempre contraditórias e disparatadas de Donald Trump e a crise económica anunciada partilharam a sua presença hegemónica nos meios de comunicação social com uma entidade desconhecida de quase todos: um hantavírus.

De um momento para ou outro, voltámos a ver na televisão médicos, cientistas e peritos em saúde pública a explicar à população o que são hantavírus, como se transmitem e que riscos colocam. O desembarque dos passageiros do Hondius, o navio de cruzeiro onde o vírus foi identificado, transformou-se num momento de invulgar mediatização, com direito a diretos nas televisões de todo o mundo.

Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS), médicos e especialistas internacionais e o Centro Europeu de Controlo de Doenças Infeciosas esforçavam-se por tranquilizar as pessoas, explicando-lhes que um hantavírus é muito diferente do vírus que causa a covid-19, e que não estávamos na presença de uma nova pandemia. Mas ainda assim, uma forte presença mediática, aliada aos naturais receios de quem ainda não se esqueceu dos anos de 2020 e 2021, catapultaram o hantavírus para uma exposição, no mínimo, inesperada.

Comecemos por alguns factos. Os hantavírus não são um novo tipo de vírus. Pelo contrário, são há muito conhecidos da comunidade médica, pelo que já bastante se sabe sobre o que são e como se comportam. Trata-se de uma família de vírus zoonóticos, isto é, vírus cujos hospedeiros naturais são animais, neste caso roedores, mas que podem, em determinadas condições, infetar seres humanos.

Há várias estirpes de hantavírus conhecidas, que, todos os anos, causam surtos de infeções em pessoas. Estima-se que anualmente ocorram algumas centenas de infeções na América do Sul, causadas sobretudo pela estirpe dos Andes, a mesma responsável pelo recente surto no navio de cruzeiro. De todas as estirpes de hantavírus conhecidas, só para esta há relatos de transmissão entre seres humanos, e apenas em condições de contatos muito próximos e prolongados.

Em Portugal, e apesar de poder existir uma pequeníssima percentagem de roedores infetados com hantavírus, nunca foi detetada a presença da estirpe dos Andes, e não se conhecem quaisquer casos de surtos de doença, causada seja por que estirpe for.

A estirpe dos Andes é também a que acarreta maior mortalidade, situada nos 30 a 40%. Desta forma, os surtos ocorridos na América do Sul, ainda que de pequena dimensão, resultam num número de mortes anuais que se estima entre as 30 e as 100, ou seja, pelo menos dez vezes superior às ocorridas no Hondius. Porquê, então, o destaque que estas últimas mereceram e o pânico que causaram?

Uma tentativa de resposta, que não tenho hesitação em subscrever, é dada à CNN Portugal por Henrique Lopes, perito da OMS e diretor do Centro para a Saúde Global da Universidade Nova de Lisboa: “Conhece-se o vírus há 50 anos, mas apenas costuma atingir os muito pobres. Nesses casos ninguém falava, mas agora aconteceu a turistas ocidentais e ricos, e teve outro impacto.”

Por cá, a preocupação e apreensão de muitos também se fez sentir. É, por isso, fundamental que a população saiba o que realmente está em causa: em primeiro lugar, o vírus não é novo e, tanto quanto se sabe, não sofreu nenhuma mutação que o torne mais transmissível; em segundo lugar, sempre convivemos com populações de roedores, e estas não aumentaram nem se alteraram repentinamente; finalmente, o hantavírus nunca foi um problema de saúde em Portugal e o facto de se falar dele não o transforma em tal.

É, por isso, fundamental não embarcar em noções desajustadas sobre a possibilidade de surgimento de infeções entre nós. Citando Tiago Correia, professor de saúde internacional do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, em declarações à SIC Notícias: “Não é por qualquer caso de febre, cefaleias, calafrios, sintomas gástricos que as pessoas têm de achar que têm hantavírus.”

Ao longo destas semanas, o “fantasma” da pandemia de covid-19 voltou a pairar sobre as nossas cabeças, em muito impulsionado pelo protagonismo dado a este surto de hantavírus, que, tudo indica, está praticamente contido. Uma vez mais, as vozes de quem estuda e conhece estes assuntos foi ouvida, e a mensagem consistentemente transmitida foi a de que não há qualquer razão para pensar que este seja o início de nova pandemia.

Quer isto dizer que não devemos permanecer atentos, ou que devemos ignorar surtos como o recentemente ocorrido, ou que as autoridades de saúde não devem acionar os seus protocolos de segurança em casos destes? Claro que não! É precisamente isso que nos dá a confiança de que, se e quando tal se justificar, serão postos em prática os procedimentos mais adequados.

É inevitável que um dia venhamos a enfrentar uma nova pandemia, e é inegável que estamos hoje mais bem preparados do que em 2019 para a enfrentar. Mas esse momento não é o presente. Como fez notar Miguel Abreu, médico infeciologista do Hospital de Santo António na CNN Portugal, “haverá uma pandemia no futuro, ninguém sabe quando, mas não será […] este [hantavírus] o novo coronavírus”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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