A eleição mais relevante dos próximos tempos envolve 70 mil eleitores numa circunscrição inglesa cujo nome convém fixar: Makerfield. Em junho, os habitantes de um conjunto de localidades da região de Manchester terão a possibilidade de eleger para o Parlamento Andy Burnham, numa eleição determinante para a substituição de Keir Starmer na chefia do Governo.
A história resume-se assim: Burnham, o político mais popular entre os trabalhistas, várias vezes candidato derrotado à liderança do partido, representante da corrente moderada conhecida por soft-left, antigo ministro de Gordon Brown e há perto de uma década presidente da área metropolitana de Manchester, não é deputado, o que o impede de disputar a liderança a Starmer. Pese embora várias tentativas para regressar a Westminster, a cúpula do Labour não o permitiu, porque a sua presença nos Comuns ensombraria o chefe de Governo, crescentemente impopular. Após a derrocada eleitoral de há um par de semanas, tornou-se impossível continuar a bloquear a candidatura de Burnham. Entretanto, um deputado decidiu propositadamente renunciar ao mandato, precipitando eleições antecipadas em Makerfield.
Podia tratar-se de mais uma excentricidade britânica, que obriga o líder do Governo a ser deputado. Mas é bem mais do que a preservação do parlamentarismo que está em causa: Makerfield não é uma circunscrição qualquer, é um espelho do recuo eleitoral do centro-esquerda, das transformações económicas e sociais que explicam esta tendência e terreno fértil para a ascensão imparável do Reform UK. É, também, historicamente uma circunscrição segura para o Labour, que manteve sempre o deputado com votações muito expressivas face aos tories. Mas o bipartidarismo britânico foi chão que deu uvas e nas eleições locais de há uma semana o partido de Nigel Farage liderou confortavelmente em Makerfield, obtendo 50% dos votos contra 24% do Labour.
Esta derrocada tem contornos específicos do Reino Unido — o colapso associado ao “Brexit” —, mas revela uma história partilhada pelas democracias: a da fragilidade dos sistemas políticos do pós-Guerra perante uma evolução económica que estilhaçou as grandes coligações sociais do passado. A crise financeira de 2007 e a pandemia de 2020 acabaram por acelerar um processo em que as soluções preexistentes deixaram de funcionar, sem que tenham surgido novos instrumentos de regulação e redistribuição. É o que explica que nenhum governo se revele hoje capaz de lidar com a incerteza e que os primeiros-ministros aparentem ser todos incapazes, à frente de governos fracos.
O que nos devolve a Makerfield. Uma região muito afetada pela desindustrialização e, como todo o Reino Unido, pela degradação dos serviços públicos e pela implosão da financeirização da economia após a crise do subprime. Processos que tiveram vencedores e muitos perdedores — uma massa de cidadãos que se sente abandonada pelos governos, com as suas referências culturais ameaçadas e sem horizonte.
Burnham poderia ter escolhido outra circunscrição para regressar a Westminster, mas optou por uma eleição difícil para provar que é possível vencer o Reform, recuperando o velho eleitorado popular e, ao mesmo tempo, o apoio dos jovens cosmopolitas que trocaram o Labour pelos Verdes. Se Burnham falhar, dificilmente o Governo será capaz de conter o Reform e impedir Farage de se tornar primeiro-ministro. Se vencer, haverá uma oportunidade ténue, até às legislativas, para os trabalhistas mostrarem que o sistema é capaz de se renovar e que as democracias europeias não estão condenadas a ser lideradas por autocratas populistas e nacionalistas.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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